Esposos: trampolim para o céu

4

Segundo o dicionário, o trampolim nada mais é do que uma prancha comprida que se projeta sobre a margem da piscina e de cuja extremidade saltam os nadadores para o mergulho. Se associarmos esse “equipamento” ao matrimônio, podemos dizer que a piscina é o céu, o trampolim são os esposos e o mergulho é a vida de santidade a qual os casais são chamados a viver.

Todos nós temos uma vocação única que é participar da vida de Deus. Foi para isso que Ele nos criou, para sermos felizes; e a verdadeira felicidade somente pode ser encontrada n’Ele. Para vivermos essa intimidade e essa participação em Sua vida, Ele nos chama, cada um, a uma vocação específica: uns são chamados ao sacerdócio, outros à vida religiosa e muitos são chamados ao matrimônio. Assim, podemos confirmar, sem medo de errar, que o matrimônio é caminho de santificação para os esposos, é lugar de plena felicidade, de experiência com Deus.

Pelo matrimônio, os esposos são santificados, conquistam o céu, não através de grandes atitudes, mas pela vivência diária dos pequenos desafios, sacrifícios e também alegrias próprias desse sacramento, que na grande maioria das vezes são vivenciadas dentro do lar, no escondimento e no ordinário da vida.

Pelo matrimônio somos chamados a viver o amor, a generosidade, o sacrifício. Enfim, os esposos precisam transcender para ir ao encontro do outro, vivendo na carne aquilo que nos diz São Paulo: “Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e Se entregou por ela, Ele quis santificá-la” (Ef 5, 2). Sabemos que pelo sacramento do matrimônio os esposos testemunham ao mundo o amor esponsal e fiel de Cristo pela Igreja; e nosso coração precisa ter latente o desejo de levar o outro ao céu, de realmente ser este trampolim para que o outro possa alcançar a glória de Deus.

A alegria no sacrifício

Como dissemos, os esposos são chamados a viver o amor, a generosidade e o sacrifício. Sabemos que “é maior felicidade dar que receber” (At 20, 35) e no matrimônio precisamos cotidianamente buscar o bem do outro, fazer o outro feliz e isso nos realiza, é para isso que nos unimos em matrimônio: para ser sinal do amor de Deus ao outro, esquecermos-nos de nós mesmos para que o outro seja feliz. Se ambos os esposos vivem nessa dinâmica, podemos concluir que este casamento é feliz, pois um busca constantemente amar o outro.

Isso não significa que a vivência dessa dinâmica de ser dom para o outro seja fácil, pois quando nos deparamos com a realidade de nossas vidas de esposos, percebemos que essa generosidade exige sacrifícios, exige renúncias. Mas não podemos enxergar as renúncias do matrimônio como algo ruim, pesado, pelo contrário: onde há renúncia há escolha e, se houve escolha, é porque há amor.

O matrimônio exige fidelidade. Amamos quando somos fiéis e esse amor conjugal exige predileção; se eu escolhi amar o outro, ser “uma só carne” com o outro para juntos chegarmos ao céu, eu preciso renunciar aos “outros amores” que podem desviar o meu olhar daquilo que sou chamado a viver. Esses “amores” podem ser muitas coisas: o meu egoísmo, os meus planos, a minha felicidade, o meu espaço, a minha carreira profissional, os meus amigos de futebol, a minha vaidade, a minha passividade, a minha preguiça e tantas outras coisas que tiram o nosso olhar dos sacrifícios e das exigências do matrimônio, que limitam a nossa resposta. Quando deixamos que esses “amores” ocupem lugar em nós, passamos a não mais dar valor ao desejo ardente de ser amor. A minha entrega se torna um peso e, consequentemente, deixo de lado minha missão de levar o outro para o céu.

Viver o sacrifício no matrimônio é algo que se apresenta todos os dias para os esposos: acordar cedo para trabalhar, cuidar dos filhos, brincar com os filhos, fazer as refeições, auxiliar na limpeza da casa, deixar a televisão de lado para ouvir o outro, lavar e passar as roupas, lavar a louça, colocar o lixo para fora, não deixar os sapatos jogados pela sala, arrumar a cama, dar flores para a esposa, levar a família para um piquenique no parque, dar um “bom dia”, dizer “obrigado”, desejar uma “boa noite”, deixar o outro escolher o filme ou seriado naquela noite, enfim, todas essas coisas, pequenas que sejam, se vividas no amor, geram impulso para que o casal mergulhe cada vez na santidade conjugal.

Modelos a serem seguidos

Os esposos possuem grandes modelos a serem seguidos para alcançar a santidade através do matrimônio: São Luis e Santa Zélia Martin, pais de Santa Teresinha, que souberam viver perfeitamente o matrimônio, sendo um para o outro um trampolim para o céu.

O casal Martin soube viver todas as virtudes domésticas. Os dois se tornaram grandes santos através do matrimônio, pois encontraram nele o ponto de partida para a santidade: “não era apesar do casamento, era no casamento e pelo casamento que iam santificar-se”[1]. Souberam utilizar-se da vida cotidiana para encontrar e amar a Deus: alegraram-se com as alegrias e souberam resignar-se com os sofrimentos e as perdas.

São Luis Martin soube viver heroicamente sua missão de esposo e pai, na constância e na fortaleza, sem se fechar em si mesmo. Soube aceitar generosamente as provações pelas quais passou, como a morte dos filhos e de sua esposa, além de viver pacientemente a enfermidade que o acometeu. Santa Zélia Guérin, durante toda sua vida, demonstrou uma fé inabalável, sendo provada em todas as circunstâncias de sua vida, seja na morte dos filhos ou nos sacrifícios cotidianos. Um casal que soube fazer do ordinário de suas vidas algo extraordinário, “mais dignos do Céu do que da Terra” (Santa Teresinha do Menino Jesus).

Peçamos a intercessão de São Luis e Santa Zélia Martin. Aprendamos com eles a exalar o perfume da santidade em nossos lares, a viver a generosidade, o amor, a doação em todas as situações para que, juntos, como esposos, possamos alcançar o glória de Deus através do nosso matrimônio.

Allan Oliveira
Consagrado da Comunidade Católica Pantokrator 

 

[1] Piat, Stéphane Joseph, História de uma Família, Dois Irmãos, Minha Biblioteca Católica, 2018.

4 COMENTÁRIOS

  1. […] vingativa e violenta. Com uma vida rica em virtudes e oração, inteiramente dedicada à família, Rita ajudou seu marido a converter-se. Quando já tinham dois filhos, devido a desavenças antigas, seu marido foi assassinado. Coerente […]

Deixe uma resposta

Por favor, insira seu comentário!
Por favor, insira seu nome aqui.