Fé e política: é possível conciliar!

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Fé e política. Falar desses dois temas, em princípio e aparentemente, é tratar de duas coisas bem distintas: a fé visa à vida espiritual, o céu, a eternidade; a política visa à justiça temporal, a organização da sociedade para o bem comum. Se pararmos por aí, fica a impressão de que se trata de duas realidades distintas.

fé e política

Fé e política são campos distintos e autônomos, mas não antagônicos, e sim complementares.

Pelo lado da fé: A fé cristã não é uma experiência religiosa intimista, ao contrário, embora seja muito pessoal e livre, tem um significado social e cultural. A fé deve transformar a vida do cristão e, consequentemente, a sociedade. Por isso, afirmou João Paulo II que “erram os que, sabendo que não temos aqui na terra uma cidade permanente, mas que vamos em demanda da futura, pensam que podem por isso descuidar dos seus deveres terrenos, sem atenderem ao que a própria fé ainda os obriga mais a cumpri-los, segundo a vocação própria de cada um … O divórcio que se nota em muitos entre a fé que professam e a sua vida quotidiana, deve ser tido entre os mais graves erros do nosso tempo.  Por isso, afirmei que uma fé que não se torne cultura é uma fé não plenamente recebida, não inteiramente pensada, nem fielmente vivida” (1).

Pelo lado da política: Toda organização e ação política se fundamentam em um pensar político, que por sua vez se orienta pela cultura. “Cultura procede de culto… Do culto procede a ordem moral, sem a qual, mesmo a cultura mais simples não seria capaz de florescer” (2).   Portanto, o pensar político e as ações políticas, querendo ou não, têm bases nas tradições religiosas de um povo.  Um povo sem religião é um povo de cultura volátil e, consequentemente, facilmente manipulado pelas forças e interesses políticos.

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A fé tem muito a contribuir com a política.

Mas, para isso, duas coisas precisam ficar claras:

A fé coopera com a política, mas sua finalidade é outra. Se perder isso de foco, facilmente a fé se transformará em mais uma ideologia, ou seja, uma teoria abstrata que quer, por meio da revolução, refazer a sociedade, a sociedade perfeita segundo suas ideias. A fé, então, se tornaria apenas uma proposta política que se impõe por sua “perfeição”. Daí surgem novas formas de milenarismos (3) que esperam a realização do Reino de Deus nesse mundo, numa sociedade perfeita. Quando isso acontece, não somente se trai a fé, mas se reduz a fé a uma proposta temporal. Porém, a fé, bem mais que isso, está muito acima das realidades temporais; ela nos remete à Verdade de Cristo para a humanidade e nos leva à eternidade.

No Cristianismo, cremos no Cristo, Homem perfeito, e no Seu Reino perfeito. Então, parece lógico pensar que o Cristão tem uma proposta de sociedade perfeita. Não é assim. Cristo, Sua Verdade e Seu Reino são absolutos, perfeitos, mas a fé não. A Fé, embora seja dom de Deus e nos capacite na relação com Ele, é também experiência humana, por isso modelada nas imperfeições humanas. Sendo assim, a partir da mesma fé, podemos ter experiências diferentes, pensar de forma diferente as realidades da vida: a vida em si, a sociedade, a organização eclesial e até mesmo a teologia. Daí vem a legítima pluralidade de posições políticas advinda de irmãos que têm a mesma fé. Mas isso não pode significar um relativismo velado, onde o cristão pensa e propõe a organização da sociedade sem referência moral. Ao contrário, “não se separa o homem de Deus  nem a política da Moral” (4). Por isso, afirmou a Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé que “a consciência Cristã, bem formada não pode apoiar uma lei, um programa político que estivesse, mesmo em um único ponto, contra o conteúdo da fé e da moral” (5).

Partindo dos pressupostos acima se compreende por que o Magistério da Igreja tem afirmado que, embora a política, a sociedade justa não seja obra da Igreja, esta deve colaborar com a justiça na sociedade. Na Encíclica “Deus é Amor”, Bento XVI afirmou que a Igreja exerce essa colaboração de forma mediata (ou seja, indireta), através da Purificação da Razão pela Fé – trabalhar a inteligência para o bem e despertar as forças morais – trabalhar a vontade para o bem; e ainda pela caridade que corrige e aperfeiçoa a justiça.

O papel dos leigos

De forma especial, a Igreja colabora com a política através dos leigos. É papel dos leigos o empreendimento da política, e não da hierarquia da Igreja. O Magistério da Igreja, em inúmeros momentos tem falado que os leigos “não podem abdicar da política” (6). Essa responsabilidade vem da dupla obrigação: como católicos e como cidadãos. Essa participação na política, a meu ver, pode ser de 3 formas:

  • Por uma consciência política bem formada, tanto nos fundamentos da Doutrina Social da Igreja e em bases políticas sadias que se harmonizam com a fé, quanto no acompanhamento consciente da vida política da comunidade em âmbito regional, nacional e internacional. Dessa forma se é capaz de, ao menos, situar-se de forma cristã diante dos desafios da sociedade, e especialmente dar o voto realmente consciente nas ocasiões das eleições. Fé e política juntas!
  • Pela participação em atividades políticas de associações, bairros, organismos e partidos políticos. Dessa forma, se é capaz de cooperar de forma mais eficaz com a organização da sociedade e a construção do bem comum. Fé e política juntas!
  • Por fim, alguns se sentem vocacionados a assumir cargos públicos e com isso assumir uma maior responsabilidade política. Trata-se de uma missão, e talvez uma das missões mais dignas e desafiadoras. Fé e politica juntas!

Fé e política, uma conciliação possível e necessária

Enfim, fé e política, embora distintas, precisam uma da outra. Uma fé que não se traduz em reflexão e até algum protagonismo político é uma fé imatura e desencarnada. A política que não se enriquece da fé facilmente forjará uma forma mais ou menos velada de totalitarismo do Estado, e mesmo cultural (alias, é o que se vê hoje, em escala mundial). Em uma sociedade neopagã, laicista e onde os cristãos se eximem da participação política por nojo dos sistemas corruptores, a grande tentação é a fobia simultânea da fé e da política. Porém, se nos deixarmos vencer por essa tentação, estaremos entregando o nosso tempo e nossos filhos a um Estado que os irá escravizará através de leis desumanas, e uma sociedade que os devorará por meio da mentira e dos vícios. Se o Estado é laico, todos podem e devem colaborar com sua ordem, dentre eles, Um de forma especial; e Este o fará através de você, homem de fé: Aquele que é Senhor de todas as coisas.

André Luis Botelho de Andrade é Fundador e Moderador Geral da Comunidade Católica Pantokrator, dentista, casado e pai de 04 filhos.

(1) Exortação Apostólica Christifideles Laici, 59.
(2) Russel Kirk, A Política da Prudência.
(3) Heresia condenada pela Igreja, conforme Catecismo da Igreja Católica, § 676.
(4) Carta Apostólica do Papa João Paulo II, por ocasião da proclamação de São Thomas Moro Patrono dos Governantes e dos Políticos.
(5) Nota Doutrinal Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, 2002.
(6) João Paulo II, Exortação Apostólica Christifideles Laici, 42.

4 COMENTÁRIOS

  1. Texto bem escrito, equilibrado e com otima pesquisa sobre posicionamentos importantes de João Paulo II. Estamos vivendo um momento doído mas muito rico para esa reflexão, pois não raro temos visto posicionamentos públicos de catolicos em apoio a propostas politicas e sociais radicalmente contrárias ao Evangelho. Cultuam o Cristo eucaristico na missa e apoiam propostas de violencia e de redução de direitos dos pobres na vida secular. Não canso de me espantar com o rancor entre os católicos, fonte de contradição e matéria para futuras análises que nos ajudarão a nos repensar nesses dias difíceis.

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