Testemunho: Guido Schäffer, meu amigo no céu!

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Guido Schäffer

Conheci o Guido Schäffer na Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro, para onde fui enviada em missão por minha Comunidade para estudar Teologia. Estudamos juntos de 2006 a 2007. Logo que nos conhecemos nos tornamos muito amigos e companheiros de estudo. Ele foi instrumento de Deus em minha vida. Sabendo que eu não conhecia ninguém no Rio, ele sempre foi muito solícito em me acudir em qualquer necessidade. Nossa amizade se aprofundou rapidamente. Ele era possuidor de um espírito refinado, intuitivo, aberto às manifestações do Espírito Santo em sua vida e na vida dos que conhecia.

Através de nossas partilhas espirituais, aprendi muito com ele. O Guido Schäffer manifestava que a santidade, não pela metade, não morna, mas por inteiro, é possível em nossos dias. Ele abraçou com ousadia profética o seu chamado. Tinha um ardente desejo de se tornar sacerdote. Era apaixonado por Cristo! Ele estava inteiro em tudo o que fazia. Sempre levou os estudos muito a sério, partilhando com todos os colegas seus profundos conhecimentos, com grande generosidade e extrema caridade.

Quando, em 2007, perdi minha única irmã em Campinas, de um modo brutal, ele foi verdadeiro amigo, amparando-me e me estimulando a caminhar. Encontrava-me distante de minha Comunidade e de meus familiares. Sem a sua ajuda, não teria conseguido superar aquele momento nem concluir aquele ano de estudos.

Guido Schäffer agia comigo à imitação de Cristo: é Deus que sempre toma a iniciativa, procurando pelo homem, vai atrás da ovelha ferida, que é débil e fraca. E comigo, era sempre o Guido que tomava a iniciativa. Dotado de grande sensibilidade, percebendo que eu estava precisando de algo, de uma palavra, de um estímulo, ele se aproximava como o bom samaritano. Já manifestava o coração de pastor, próprio do sacerdote. E disso nasceu uma “amizade dos santos” entre nós, como ele gostava de dizer desde o começo.

As marcas da santidade no Guido

Nossas conversas sempre giraram em torno de assuntos que agradavam a Jesus.  Nunca vi o Guido julgando alguém ou falando mal de alguém. E quando, por ventura, algum de nós, seus colegas, começava a querer fazer isso com algum comentário sobre alguém, ele tinha o maior tato e habilidade em desviar o foco de nossa conversa da maledicência para um tema produtivo, sem jamais nos chamar a atenção, pois ele não se julgava melhor do que ninguém. Ele simplesmente demonstrava tristeza e mudava de assunto. Com esse gesto singelo, fazia com que nós percebêssemos que estávamos nos excedendo e assim abandonávamos aquela conversa. Possuía grande capacidade de perdoar. Sua retidão de caráter impressionava. Sua simplicidade também…

O que sempre me chamou a atenção no Guido foi a sua mansidão e sua pureza de coração, algo dificílimo de encontrar em nossos dias, em especial em um jovem. Ele testemunhava que, mesmo em meio à realidade mundana, manchada pelo pecado, podemos e devemos ser e viver como quem realmente somos: filhos de Deus. E ele era determinado quanto a isso: devemos ser luz no mundo, sal da terra; o cristão tem que fazer a diferença. E ele, de fato, procurava em tudo viver assim. Guido não tinha respeito humano. O “politicamente correto” não tinha espaço com ele, quando a verdade estava em jogo. Para ele, a verdade era sempre a melhor coisa a se dizer; amar com gestos concretos era sempre a melhor coisa a se fazer.

Hoje em dia, nossas atenções estão voltadas para as aparências; o que importa não é ser, mas parecer; isso porque somos voltados para fora de nós; mas o Guido cultivava a interioridade. Nós estamos muito preocupados com a opinião dos outros. O Guido estava preocupado com a “opinião” de Deus a respeito dele. Investimos muito nas coisas deste mundo. Mas o Guido investia alto no céu!

Guido tinha constantemente um semblante alegre e positivo. Quem olhasse para ele julgava que ele não tinha problemas, que era poupado de tudo, estava sempre feliz. Mas ele vivia interiormente e exteriormente os mesmos dramas e combates que um jovem de sua idade, mas vivia de modo heroico, ou seja, ele era perseverante e determinado no cumprimento de seus deveres cotidianos, procurando em tudo a vontade e os desígnios de Deus.

A tristeza não tinha vez com ele. Parecia que ele conhecia Jesus mais do que nós. E creio que isso é verdade: ele conhecia a Sagrada Escritura como ninguém, sendo capaz de citar trechos bíblicos inteiros e localizá-los na Bíblia com precisão. Mas não se tratava de uma simples “decoreba”: isso era fruto da intimidade que ele tinha com a Palavra de Deus. E mais: ele citava os trechos bíblicos nos quais se inspirava para viver e responder às mais variadas situações da vida; era algo concreto para ele. Aquela Palavra plasmava o seu agir, não era uma teoria bonita para ser admirada, mas uma diretriz para ser vivida. Ele era apaixonado pelas Escrituras. Era uma pessoa de grande fé. Daí vinha a sua força: da Palavra de Deus e da oração. Não havia lugar para o ócio vazio com ele. Se havia um tempo livre na Faculdade, ele aproveitava para rezar. E levava a gente com ele! Era um jovem profundamente orante. Estar ao lado dele transmitia paz, segurança, confiança… De fato, ele exalava o odor de Cristo.

Guido era um grande pregador. Logo no primeiro ano de nossa convivência, ele pediu para vir comigo a Campinas em uma de minhas viagens, para conhecer a Comunidade Pantokrator, desejando pregar em nosso grupo de oração. Rapidamente, providenciei tudo. Ele esteve na Comunidade e sua presença, cheia da vida de Deus, foi uma bênção para nós.

Guido confiava incondicionalmente em Deus e, por conta dessa confiança abandonada, nunca perdia a paz ou desesperava. Ele tinha uma confiança absoluta de que Deus Pai cuida de nós e nos assiste em tudo! Nada tinha o poder de tirar a sua paz e sua confiança em Deus, a sua serenidade. Isso me encantava nele e me impulsionava a fazer o mesmo… Ele fez despertar em mim esse abandono em Deus, fundamentado numa fé ousada e inabalável. Testemunhei a resposta de Deus à sua fé e confiança em muitas dificuldades corriqueiras que passamos juntos: quando eu pensava em ficar ansiosa com a situação (o que sempre foi minha característica), ele logo me dizia que o Senhor iria providenciar a solução para o problema, e que por isso eu não devia perder tempo com preocupações. E era isso mesmo que acontecia…

Você pode me dizer que nada disso é novidade, todos sabemos e já ouvimos que Deus cuida de tudo, que devemos confiar etc. É verdade. Mas nós muitas vezes paramos aí, no que “sabemos”. O Guido ia além: ele vivia como quem acreditava no que Deus dizia. Ele deu vida à Palavra de Deus em sua existência. Pois é isso que Deus faz: quando encontra alguém que deposita n’Ele uma fé autêntica, e que, por isso, age como quem acredita e espera n’Ele, Deus “não resiste” a tamanha confiança filial e atende os apelos desse coração.

Louvo a Deus pelo Guido Schäffer fazer parte de minha história e de minha vida, na qual ele deixou marcas que ficarão para sempre. Hoje, sou uma pessoa, uma consagrada melhor do que era antes de tê-lo conhecido. Sem dúvida, é um privilégio ter tido um amigo que pode vir a ser declarado santo pela Igreja! Difícil descrever em palavras! O Guido é o meu intercessor de todas as horas. Recorro a ele sempre que preciso.

Por tudo isso e por sua existência doada, por sua entrega apaixonada, desmedida e sem reservas pelo Reino de Deus, Guido manifesta ao mundo que Cristo não vale a pena; vale a vida!

Meu amigo, Servo de Deus Guido Schäffer, rogai por nós!

Kátia Maria Bouez Azzi
Consagrada da Comunidade Católica Pantokrator, Teóloga e Filósofa

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