Jejum e dieta: qual a diferença?

1
dieta

Na busca pela boa forma e pelo bem-estar, hoje em dia ganha cada vez mais adeptos a dieta ou o estilo de alimentação denominado “jejum intermitente” como meio para perder peso, melhorar a saúde e facilitar o dia a dia. Você já deve ter ouvido falar dele.

Em linhas gerais, o jejum intermitente consiste em permanecer grandes intervalos de tempo sem se alimentar. Um desses caminhos, por exemplo, envolve pular o café da manhã e não ficar comendo porções de alimento em pequeno espaço de tempo. Há toda uma orientação para que essa prática produza os inúmeros benefícios à saúde geral do organismo que ela promete. Há também outros tipos de dieta alimentar que de algum modo se assemelham ao jejum.

Tecnicamente, jejum é a abstinência de alimentos por certo período de tempo. Mas, historicamente, esse termo foi ganhando sentido espiritual e aplicação no âmbito religioso. Ainda que o jejum intermitente seja designado por este nome, trata-se de uma dieta ou estilo alimentar, se considerarmos seus fins.

Jejum e dieta: finalidades e efeitos diferentes

Como bem definiu há alguns anos o Papa Bento XVI, hoje emérito, nos nossos dias, a prática do jejum parece ter perdido um pouco do seu valor espiritual e ter adquirido antes, numa cultura marcada pela busca da satisfação material, o valor de uma medida terapêutica para a cura do próprio corpo.

Jejuar, sem dúvida, é bom para o bem-estar, pois promove um equilíbrio geral no organismo, mas para os cristãos, é, em primeiro lugar, uma “terapia” para curar tudo o que nos impede de nos conformarmos à vontade de Deus. Assim, quando nos referimos à prática do jejum, este termo tem significado que ultrapassa os benefícios físicos e psíquicos de uma dieta bem feita. De fato, o jejum traz benefícios à saúde. Mas ele possui uma finalidade superior.

O jejum cristão é bíblico. A Sagrada Escritura manifesta, desde o Antigo Testamento, a necessidade de que pessoas se conscientizem de que suas necessidades humanas são dependentes de Deus. Como observa São Basílio (330-379), o jejum foi ordenado já no Paraíso a Adão, quando o Senhor ordena que ele se abstenha de comer o fruto proibido (cf. Gn 2, 16-17). A sensação da fome atua como uma constante lembrança de que se deve ouvir a voz de Deus. Quando eu me privo voluntariamente de um alimento, recobro a consciência de que ele não me basta. Estamos entorpecidos pelo pecado e pelas suas consequências, e neste quadro, o jejum nos é oferecido como um meio para restabelecer a amizade com o Senhor.

… o texto continua após a imagem…

Se Adão desobedeceu ao mandamento do Senhor de não comer o fruto da árvore da ciência do bem e do mal, com o jejum, nós desejamos nos submeter humildemente a Deus, confiando em Sua bondade e misericórdia.

Jesus, no Novo Testamento, ressalta a razão profunda do jejum, ao condenar a atitude dos fariseus, que observaram de maneira escrupulosa as prescrições impostas pela lei, mas o seu coração estava distante de Deus (cf. Mc 2, 18). Ele mesmo dá o exemplo respondendo a satanás, no final dos 40 dias transcorridos no deserto, que “nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus” (Mt 4, 4). O verdadeiro jejum consiste, assim, em comer o “verdadeiro alimento”, que é fazer a vontade do Pai (cf. Jo 4, 34). A prática do jejum segundo essa reorientação de Jesus está muito presente na primeira comunidade cristã (cf. At 13, 3; 14, 22; 27, 21; 2Cor 6, 5).

Jejuar não é apenas estar disposto a enfrentar e aceitar a fome ou fraqueza como renúncia à alimentação, mas, sobretudo, aceitar a vontade e o senhorio d’Aquele que é o verdadeiro Alimento. Jejuar é uma expressão concreta que exterioriza uma necessidade interior da Providência de Deus.

O jejum e a dimensão do sacrifício

Uma das grandes diferenças entre a dieta e o jejum é a dimensão do sacrifício.

Em toda dieta há, sim, certo sofrimento, certa privação que a pessoa aceita viver, tendo em vista a sua meta: perder peso, melhorar a saúde física, a estética etc. Mas não há a dimensão do sacrifício propriamente dito. A palavra “sacrifício” significa oferta feita à divindade. Sacrificar é oferecer algo para Deus, seja como penitência, seja em ação de graças. O que caracteriza o jejum é justamente essa dimensão espiritual.

Com o jejum, o corpo se alia à alma, e os dois permanecem em oração. A prática do jejum contribui para conferir unidade à pessoa, corpo e alma, ajudando-a a evitar o pecado e a crescer na intimidade com o Senhor. Esse sacrifício do jejum se converte numa saudável purificação voluntária daquele que deseja se despojar do homem velho para viver a vida nova em Cristo.

O jejum ajuda a estimular o nosso desejo pelos bens espirituais. Na sociedade do bem-estar que busca o conforto, é importante guardar o espírito disponível para Deus. O jejum ajuda o cristão a não viver para si mesmo, mas a sair de seu universo de interesse em direção às necessidades dos outros. 

O jejum, uma escola de liberdade

O jejum é uma escola de domínio de si e combate espiritual. Quem sabe controlar seus apetites é capaz de dominar seus desejos. Vivemos numa sociedade envolta na atmosfera relativista e materialista. O jejum é uma reação a isso.

Trata-se de uma prática ascética importante, uma arma espiritual para lutar contra qualquer eventual apego desordenado a nós mesmos. Privar-se voluntariamente do prazer dos alimentos e de outros bens materiais nos ajuda a controlar os apetites da natureza ferida pelo pecado, cujos efeitos negativos atingem toda a personalidade humana.

Com o jejum adquirimos equilíbrio em nossa relação com a comida e nos libertamos da gula, que gera uma desordem em nosso interior, trazendo consequências nefastas sobre nossas vidas.

Jejuar é um ato de fé e liberdade. Somos chamados a ser livres, mas muitas vezes nos tornamos escravos. O jejum nos leva a ter uma postura de autonomia em relação aos alimentos e, em consequência, em relação a tudo o que poderia nos escravizar: pessoas, ideologias, bens materiais, dinheiro, sucesso, sonhos…

Enfim, o jejum é saudável, mas ele beneficia principalmente a saúde espiritual, que, na verdade, é fonte promotora da saúde física.

Kátia Maria Bouez Azzi
Consagrada da Comunidade Católica Pantokrator, Teóloga e Filósofa

1 COMENTÁRIO

Deixe uma resposta

Por favor, insira seu comentário!
Por favor, insira seu nome aqui.