Não raramente ouve-se a expressão: ‘Jesus é o esposo de minha alma’. Tal expressão pode provocar incompreensão em alguns ou certo desconforto em outros, seja pela sexualidade, seja pelo estado de vida. De fato, muitos não entendem o que isso significa ter Cristo como esposo da alma. Outros, sendo homens, sentem-se desconfortáveis em afirmar que Jesus é o esposo de sua alma, pois acreditam que esta afirmação pode ferir sua masculinidade. Outros, ainda, pensam que esta expressão é reservada somente àqueles que não se casam por causa do reino dos céus. Mas, seria esta expressão lícita? Tentamos aprofundar o assunto.

Deus se revela como Esposo

A imagem do amor esponsal foi sendo adotada ao longo da história da salvação para expressar o amor de Deus para com o povo e também do povo para com seu Deus.

Tomando a iniciativa, o próprio Senhor que nos amou primeiro (cf. 1 Jo 4,19) utilizou-se da imagem do amor humano entre homem e mulher para ilustrar seu amor pelo ser humano. É o que podemos ler em profeta Ezequiel: “Passando junto a ti eu te vi: estavas na idade dos amores. Estendi sobre ti meu manto e cobri tua nudez; eu te fiz um juramento e estabeleci aliança contigo – oráculo do Senhor Deus. Então ficaste sendo minha” (Ez 16,8). Como vemos na passagem, o Senhor ama seu povo, é atraído por sua fragilidade a qual ele cobre com sua onipotência e estabelece uma aliança. Aliás, o próprio termo aliança utilizado pelo próprio Senhor no Antigo Testamento pode indicar o amor esponsal.

Vale observar que esta linguagem esponsal não é extinta no Novo Testamento. De fato, podemos constatar que Nosso Senhor Jesus Cristo, o verbo encarnado e imagem do Deus invisível (Cf. Cl 1,15), afirmou que realizaria uma nova aliança em seu corpo e em seu sangue (cf. Mc 14,22s), ou seja, ele sustenta a linguagem íntima. Além disso, ele comparou o Reino a um banquete nupcial em Mt 22,1-13. Ainda mais, ele declarou que a vinda do Reino é semelhante à vinda do esposo em Mt 25,1-12. Em outras palavras, o amor esponsal é sinal do que viveremos na eternidade com o Senhor, nas núpcias do Cordeiro (Cf. Ap 19,7-9).

Deste modo, compreendemos que a legitimidade da expressão esponsal começa na decisão bondosa do próprio Senhor de utilizar de uma imagem humana para expressar seu amor sobrenatural para com a humanidade.

A humanidade esposa

Por outro lado, ao longo da história, o povo assimila esta linguagem esponsal e se relaciona com o Senhor como sendo seu amado.

É o que expressa profeta Isaías: “Eu sou entusiasta, sim, estou entusiasmada por causa do Senhor, minha alma exulta por causa do meu Deus, pois ele me vestiu do traje da salvação, ele me envolveu no manto da justiça, qual o noivo que, como um sacerdote, cinge o diadema, qual noiva prometida se enfeita com seus adornos” (Is 61,10). É nítido, nesta passagem, que o povo agradecido pela bondade do Senhor que se debruça sobre ele, assume a linguagem esponsal para expressar sua gratidão.

Em João Batista, aquele que aponta para o Cristo e prepara seu caminho, a humanidade reconhece Jesus como noivo (cf. Jo 3,29). Num casamento em Caná (cf. Jo 2,1-11), a Virgem Santíssima pede a Jesus que aja em favor dos noivos cuja festa está condenada pela falta de vinho. Jesus chama a Virgem de ‘mulher’ e não de mãe. De fato, neste casamento a Santíssima Virgem está como a nova Eva, ou seja, a humanidade que pede ao Esposo o dom da salvação. Ele atende seu pedido agindo como noivo, transformando água em vinho. Mais tarde, aos pés da Cruz (Cf. Jo 19,25), lá está de novo a humanidade representada na Virgem, agora acolhendo o dom da salvação feito pelo Esposo, o novo Adão na Cruz.

Assim, compreendemos que a resposta de acolhida ao dom total do Senhor em favor da salvação da humanidade parece legitimar que o chamemos de esposo de nossas almas.

Oséias e Paulo: prefiguração e confirmação de Jesus esposo

O profeta da esposa infiel parece prefigurar em sua vida a obra de Cristo esposo. Já o apóstolo das nações parece atestar e incentivar a expressão esponsal na relação com Cristo.

O Senhor pede a Oséias que se case com uma prostituta para que ele lhe ensine a fidelidade: “Vai, toma para ti uma mulher que se entrega à prostituição e filhos de prostituição, pois a terra se prostitui continuamente, afastando-se do Senhor” (Os 1,2). A mulher é tomada em casamento, mas mesmo casada custa a se desprender de seus amores: “Ela dizia: ‘Quero seguir meus amantes, os que me dão o pão e a água, a lã e o linho, o azeite e as bebidas’” (Os 2,7). Contudo, o Senhor convida o profeta a não desistir dela, mesmo que tenha que prendê-la e feri-la: “Eis porque fecharei o teu caminho com espinheiros; eu lhe oporei uma barreira e ela já não encontrará as suas veredas. Ela irá ao encalço dos seus amantes sem os alcançar; ela os procurará sem os encontrar; e dirá: ‘Voltarei para o primeiro esposo, pois então eu era mais feliz do que agora’” (Os 2,8-9).

Desta forma, o profeta encarna na vida dele o amor esponsal de Deus pela humanidade: “Pois então vou seduzi-la. Eu a levarei ao deserto e falar-lhe-ei ao coração. “Tu me chamarás meu marido’. Eu a noivarei contigo para sempre, eu noivarei contigo pela justiça e pelo direito, pelo amor e pela ternura. Eu noivarei contigo pela fidelidade e tu conhecerás o Senhor” (Os 2, 16). Ele é prefiguração de Cristo que ‘se casa’ com a humanidade, tomando-a para sempre, libertando-a de suas infidelidades na cruz e introduzindo-a nos céus em sua Ascensão.

Paulo afirma na carta aos Efésios que a relação de Cristo com sua Igreja é uma relação esponsal: “Maridos, amais vossas mulheres como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela; ele quis com isto torná-la santa, purificando-a com a água que lava, e isto pela Palavra; ele quis apresentá-la a si mesmo esplêndida, sem mancha nem ruga, nem defeito algum; quis a sua Igreja santa e irrepreensível” (Ef 5,25s). Ora, trata-se da relação da Igreja como todo e não de um membro específico.

Desta forma, entendemos que o batismo nos insere todos os batizados nesta relação esponsal com Cristo, somos suas esposas.

Conclusões

Com esta breve retomada bíblica, concluímos que a expressão esposo da alma evoca o amor exclusivo e total que o Senhor tem por nós a ponto de dar sua vida para nos resgatar do pecado e da morte.

Em seguida, deduzimos que afirmar que Cristo é o esposo de nossas almas é totalmente legítimo. De fato, o Senhor mesmo utilizou esta imagem na antiga e na nova aliança e São Paulo afirma que esta imagem é a imagem do amor misterioso com o qual o Senhor ama a Igreja.

Consequentemente, a imagem traz uma realidade da fé e não carnal. De fato, estamos falando da Igreja, realidade espiritual daqueles que foram resgatados pelo sangue do cordeiro. Sendo assim, não se trata de uma relação com Cristo somente com as mulheres, trata-se de uma relação de Cristo com todas as almas conquistadas e resgatadas por ele. Em outras palavras, mesmo os homens podem viver com Cristo um relacionamento esponsal pela fé.

Com isso, podemos deduzir também que, ainda que aqueles que não se casam pelo reino, os chamados celibatários consagrados, são um anúncio explícito desta realidade para toda Igreja, esta realidade não está restringida a eles. Eles apontam aquilo que todos devem buscar espiritualmente nesta terra e que todos viverão um dia no céu. Porque, realmente, o Senhor afirmou que “na ressurreição, as pessoas não casam nem são dadas em casamento” (Mt 22,30).

Caso você ainda não tenha experimentado, busque relacionar-se com Cristo com uma espiritualidade esponsal, dedicando-se a ele não somente como sendo seu servo, mas dando a ele todo o seu coração!

Padre Luiz Henrique Ferreira
Consagrado da Comunidade Católica Pantokrator

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