Livre Arbítrio: Até que ponto vai minha vontade e a vontade de Deus?

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Será que sou verdadeiramente livre? Existe algum “plano perfeito” para a minha vida ou tudo é mero fruto do acaso? Estou preso a um destino escrito por alguém? Todas essas questões são complexas e merecem certa reflexão. Que tal explorarmos 07 fatos seguros sobre o livre arbítrio? Vamos lá…

1º Fato: O livre arbítrio é um mistério 

Embora possamos fazer inúmeros estudos científicos e filosóficos sobre o tema, jamais conseguiremos (nesta vida) chegar a um conhecimento completo e definitivo sobre essa realidade metafísica. É importante diferenciar o que significa “Mistério” e o que é “Enigma”. Ambos revelam algo que, em princípio, não possui uma solução.

Porém, no enigma, a pessoa consegue chegar à verdade através de sua própria força e inteligência. Já no mistério, as qualidades humanas não serão suficientes para se alcançar a verdade, sendo necessário que Alguém a revele.

O livre arbítrio não é um enigma. Muito pelo contrário, é uma realidade de difícil compreensão e que só conheceremos através do pouco que nos foi relevado por Deus. Para nos auxiliar, temos os ensinamentos da Santa Igreja, que nos revelam pontos importantes e seguros daquilo que já foi desvendado acerca do Mistério.

Portanto, não ache que você encontrará um “manual completo do Livre Arbítrio”, ou um guia prático para tirar todas as dúvidas. Acredite: os pontos mais interessantes estão sendo guardados por Deus, para serem revelados só no céu.

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2º Fato: O livre arbítrio é um presente especial criado e entregue por Deus

Muita gente reclama do livre arbítrio, pelo fato de que ele pode nos levar ao Inferno. Isso, realmente, é um fato. É verdade, também, que o Senhor poderia ter nos criado sem a opção de pecar.

Contudo, aqui está a verdade mais importante: Sem liberdade, não existe verdadeiro amor! A liberdade pressupõe renúncias, decisões, prioridades. Ora, se fôssemos meros “robôs”, de fato, não iríamos para o Inferno, mas também não teríamos a chance real de amar nosso Senhor.

Nesse sentido, o livre arbítrio é um dom através do qual temos a oportunidade de retribuir (ao menos uma fagulha insignificante) o amor devorador que recebemos do Criador!

3º Fato: Não devemos confundir “destino” com “desígnio” de Deus

Você já deve ter ouvido uma história de que todos nós temos um destino já escrito, e que não importa o que façamos, não temos uma liberdade real para fugir dele. Pois é, isso tudo é besteira. O nosso livre arbítrio nos permite, sim, escolher nosso próprio “destino”.

Mas isso não quer dizer que Deus não tenha qualquer participação na história. Muito pelo contrário, Deus tem um plano maravilhoso para cada um de nós. Ao nos criar, com todas as características que nos são próprias, Deus já escolhe um caminho por onde seremos plenamente felizes. Esse plano de Deus pode ser chamado de “desígnio”. Desígnio significa “desenho”.

A grande diferença entre o destino e o desígnio de Deus é que, embora o Senhor nos prepare um caminho perfeito e planejado, Ele não nos obriga (em nenhum momento) a trilhar a Sua Divina Vontade. Em outras palavras, somos livres para desenhar uma história diferente da d’Ele. Um exemplo: o Concílio Vaticano II afirmou que Deus designou todos os homens para a santidade. Porém, infelizmente, muitos são os que rejeitam os planos do Senhor e optam por uma vida nefasta longe d’Ele…

4º Fato: É possível conhecer os desígnios de Deus para nós 

Se seguirmos fielmente os desígnios de Deus, seremos plenamente felizes e realizados (como foram os inúmeros santos festejados pela Igreja). Desse modo, não teria nenhum sentido que Deus nos desse um caminho de felicidade e o mantivesse escondido de nós. Isso não é compatível com o Senhor, que Se revela como o próprio Amor (cf. 1 Jo, 4,8).

Entretanto, não pense que esse “plano” chegará a seu e-mail, ou que aparecerá nos storys do seu Instagram. Também não pense que você alcançará as respostas por algum esforço psicológico ou racional (não é um enigma, lembra?). Nós somente encontraremos a vontade pessoal de Deus para nós através de profunda oração e intimidade com Ele.

Também não me refiro a 05 minutos de diálogo superficial na porta da igreja. A oração íntima e pessoal deve ser constante, humilde e persistente. Pode-se (na verdade, deve-se) adicionar os Sacramentos a essa fórmula e, quem sabe, um direcionamento espiritual.

Com fé, e na intimidade com Deus, conseguiremos ter respostas seguras sobre o nosso estado de vida (se devo casar, ser um sacerdote, um celibatário), sobre nossa vocação na Igreja (se em uma paróquia, uma comunidade consagrada, uma ordem religiosa), sobre o uso dos nossos dons (como pregador, ministro de música, intercessor), dentre tantas outras escolhas pessoais.

Seja como for, duas certezas já podemos ter desde o início: somos designados a ser filhos de Deus (através do Batismo) e a ser verdadeiro homem ou mulher (conforme o sexo de cada um).

5º Fato: Não devemos nos desesperar pelas escolhas passadas. 

Grande aflição possuem as pessoas que descobrem tarde demais sobre o desígnio pessoal. Muitas passam boa parte da vida se sentindo abandonadas ou esquecidas por Deus. Quando finalmente descobrem que possuem um caminho planejado “sob medida”, se desesperam por já terem escolhido caminhos diversos – muitos dos quais, certamente, não estavam nos planos divinos.

Às vezes se casaram sem nenhum discernimento, gastaram os dons em pecados, adquiriram vícios terríveis, e assim por diante. Porém, não há motivos para pânico. Nosso Deus é o Soberano do universo, maior do que todos os problemas é capaz de tudo reordenar.

Ao contrário do que muitos pensam, o Senhor não abandona o homem após este recusar seguir o desígnio divino; muito pelo contrário, Deus imediatamente tira um “plano B” da manga! É muito provável que a pessoa não se realize na mesma forma que se realizaria se seguisse o plano originário de Deus, mas nem por isso perde a capacidade de ser feliz e santa!

Para aqueles que se desviarem também do “B”, Deus apresenta o “C”, o “D”… E, fique tranquilo, meu irmão, que o alfabeto de Deus possui muito mais do que meras 24 letras.

6º Fato: O papel de Deus não se limita a “escrever desígnios”

É evidente que não. Muitos pensam que Deus já não age mais no mundo ou nas pessoas, sob a alegação de que “Ele já fez tudo na Criação; agora, é com o homem”. Essa ideia é muito mais perigosa e séria do que parece; e pode levar a dois grandes problemas.

O primeiro deles é que as pessoas deixam de rezar, pois já não acreditam mais na ação do Senhor; e o segundo problema é que as pessoas passam a acreditar que possuem força suficiente para ser santas sozinhas, sem qualquer ajuda do alto.

Deus não apenas planeja nossa história como nos concede os meios e os instrumentos necessários para que possamos aderir a esse desígnio. A essa intervenção divina na nossa alma nós chamamos “graça atual”, que nos é concedida todos os dias.

Porém, estarão mais sensíveis a essa graça (e, portanto, serão mais tocados e transformados por ela) aqueles que se encontram em íntima ligação com Deus, através da oração e dos Sacramentos.

Sem a graça de Deus, é impossível chegar à santidade. É exatamente por isso que precisamos pedir essa graça e estar preparados para recebê-la.

Deus também pode agir de maneira clara e extraordinária em alguma situação visível, cuja explicação seja impossível para as ciências deste mundo. A isso nós damos o nome de “milagre”. Não se deixe enganar por mentiras modernistas: milagres existem, sim, e estão expostos aos montes na história da Igreja.

Porém, diferentemente do que acontece no derramamento de graças (que é algo invisível e ocorre abundantemente), os milagres são mistérios extraordinários, ou seja, não se veem em todos os lugares e momentos, mas somente quando Deus quer.

7º Fato: É possível conciliar nossa vontade com a vontade de Deus

É muito difícil a alguns cristãos – especialmente aqueles em fase de conversão – entender que a vontade de Deus é sempre boa. Isso se torna um desafio quando nos é pedido algum sacrifício ou renúncia. Muitas vezes não compreendemos por que nossos planos, que nos parecem tão santos e puros, tantas vezes não se mostram também como planos de Deus.

Aqui entra, mais uma vez, a nossa capacidade de amar. Se o livre arbítrio não nos exigisse tanto, não teríamos preciosas oportunidades de provar o nosso amor e a nossa fidelidade a Deus, como ocorreu com Abraão ao entregar seu filho Isaac (cf. Gn 22, 1-18), ou com a Santíssima Virgem, ao dizer “sim” ao plano salvífico de Deus (cf. Lc 1, 28-38).

Todavia, a história dos santos nos ensina algo muito valioso e reconfortante. Quanto mais íntimos e apaixonados por Deus nós somos, mais ficamos parecidos com Ele. Ocorre mais ou menos da mesma forma quando passamos muito tempo na companhia de algum amigo próximo. Sem que percebamos, acabamos aderindo a alguns comportamentos desse amigo, como o jeito de falar, a risada, alguma gíria, e assim por diante. Do mesmo modo, quando temos uma vida de oração profunda e uma frequência considerável aos Sacramentos, acabamos (com o auxílio da graça) “pegando o jeito” do Senhor.

Santa Teresa D’Ávila nos ensina que, ao chegarmos a determinada “morada” (ou ponto de conversão), nossa vontade estará colada à Vontade de Deus, de modo que não se saberá mais distinguir uma da outra.

Livre para amar

Muito mais poderia ser dito a respeito do livre arbítrio, da vontade de Deus, da nossa liberdade ou da intervenção divina. Certamente, é um tema que levanta dúvidas e discussões infindáveis, inclusive entre os teólogos cristãos. Poderia ser falado a respeito do livre arbítrio dos anjos, da estrutura da alma humana, sobre as consequências morais da nossa liberdade, dentre tantas outras minúcias.

Entretanto, de tudo isso, somente uma coisa deve ficar clara (e, se tiver ficado, toda essa reflexão terá valido a pena): Nós fomos feitos para o amor e temos a livre opção de aderir ou não a esse mesmo amor. O nosso livre arbítrio é respeitado pelo Senhor e pode nos levar à plenitude da vida eterna, ou ao Inferno angustiante da ausência do Senhor.

Deus te abençoe, meu irmão.

Rafael Aguilar Libório
Postulante da Comunidade Católica Pantokrator

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