Luto: É preciso sentir

0
luto

Falar sobre luto nunca será algo fácil. Todos nós temos ao nosso redor pessoas importantíssimas, consideradas insubstituíveis em nossa vida. O pensamento de que tais pessoas não viverão para sempre chega a ser vertiginoso. Pensar na possibilidade de que um dia eu possa vir a perder minha mãe, minha esposa ou até mesmo o meu filho, faz apertar o peito só de cogitar. É exatamente por isso que as pessoas, em geral, preferem não pensar ou falar sobre a morte.

Entretanto, pensando ou não pensando sobre ela, a morte vem (e virá para todos nós, em algum momento). E por mais doloroso que seja, não há remédio para esta realidade e ninguém estará imune de sofrer com as perdas de entes queridos. Veja o caso do próprio Cristo, que chorou a morte do seu amigo Lázaro (cf. Jo 11, 35). Também Maria Santíssima sofreu as dores pela morte do seu divino Filho. Portanto, a morte faz parte da realidade humana, sendo consequência direta do pecado (cf. Rm 6, 23).

Um dia iremos morrer

Ao se depararem com a morte de uma pessoa querida, muitas pessoas tendem a insistir na não aceitação. Isto é bastante comum e se explica pela dificuldade em experimentar o sofrimento. Muitos comportamentos podem ser listados em atitudes semelhantes: a recusa em chorar (por considerar o choro como sinal de fraqueza); a rejeição às lembranças ou conversas acerca da pessoa que partiu; a conduta de não querer ficar em silêncio ou sozinha; o esforço exagerado em demonstrar externamente que “está tudo bem”; não conseguir se desfazer ou ao menos lidar com as coisas deixadas pelo ente querido; dentre inúmeras outras atitudes que possuem, como fundo, a recusa interna em aceitar a morte de uma pessoa amada.

Todavia, apesar de compreensível a dificuldade em aceitar a perda, tal recusa se mostrará extremamente prejudicial à pessoa – tanto a médio como a longo prazo. Muito embora ela pense que estará evitando o sofrimento ao não encará-lo, na verdade estará apenas adiando-o e fazendo-o crescer, o que trará consequências futuras.

O luto cura nosso sofrimento

Uma imagem que ajuda a compreender bem esta situação é a da pessoa que sofre um ferimento feio e doloroso na perna. Tal ferimento precisará passar por uma espécie de tratamento, o que poderá acarretar dores intensas e totalmente desconfortáveis. Alguém precisará colocar a mão na ferida, fazer “raspagens”, inserir medicamentos, limpar, aplicar curativos… é evidente que, a princípio, o doente preferiria que ninguém encostasse em sua perna. Porém, após a recuperação, verá sua perna finalmente curada (ainda que a cicatriz possa permanecer para o resto da vida). Agora, imagine se esta mesma pessoa, não querendo “sofrer”, se recuse a tratar a perna. Imagine que, ao invés de medicamentos e curativos limpos, a pessoa enrole uma faixa qualquer, apenas para “esconder” o ferimento. Não há dúvidas de que, após algum tempo, o ferimento ficará maior e mais doloroso do que antes, até chegar ao ponto de ser impossível ignorá-lo.

A pessoa que recusa viver o luto é justamente aquela que, visando “estancar” a dor, evita sentir a perda. As consequências posteriores poderão acarretar, inclusive, patologias somáticas ou psicológicas – o que é atestado convictamente pelas ciências modernas. Isto sem mencionar os problemas de ordem social ou mesmo espiritual, uma vez que um luto não vivido pode se transformar internamente em uma revolta contra o próprio Deus.

Porém, é preciso que se faça uma distinção bem clara. “Luto” não é a mesma coisa de “Perda” (muitas pessoas acabam confundindo). A perda é justamente aquele evento traumático, que foge do nosso controle e que não é desejado por ninguém. O luto, por outro lado, é o processo pelo qual a pessoa toma consciência da sua perda e aprende a se relacionar com ela. A perda é a ferida. O luto é o tratamento. A perda, infelizmente, não depende da nossa vontade. Já o luto, para que seja bem vivido, reclama a nossa adesão.

Como, então, viver bem o luto?

Não há um “manual de regras” preciso e acabado acerca da vivência do luto. Na verdade, dependerá muito do grau de relação havido com a pessoa que partiu e da maturidade da pessoa enlutada. Entretanto, é possível estabelecer algumas condutas comuns a todos os casos.

Em primeiro lugar, há que se convir que todos os que sofrem alguma perda possuem o direito de chorar e de se entristecer.  Parece algo óbvio, mas é preciso ser muito ressaltado. Muitas vezes o choro é associado a uma imagem de fraqueza, principalmente por comentários como “não chore por isso”, “você não deve chorar” ou “seque estas lágrimas”. Pessoas respeitáveis ou que possuem muitos “seguidores” podem pensar que terão a imagem “arranhada” se forem vistas sofrendo.

A pessoa de luto também deve se perdoar. Muitas vezes, a recusa do luto é embasada no fato de não ter dado tempo de pedir ou dar o perdão, o que sem dúvidas alarga ainda mais o sentimento da perda. Porém, isto não deve aprisionar o enlutado. Quando não for mais possível exercer ou receber o perdão, o ideal é que a pessoa se volte para Deus – que é o Senhor das Misericórdias – e busque Nele o alívio dos sofrimentos.

Deus cura todas as feridas

Uma das coisas mais importantes para vivência de um luto saudável (e, infelizmente, uma das mais sacrificadas) é o tempo de silêncio. É justamente no silêncio e na profunda meditação (especialmente na oração) que a perda será melhor processada. No silêncio virão as lembranças e, provavelmente, correrão muitas lágrimas. Se for bem vivido, permitirá que a pessoa se sinta mais à vontade no futuro, para falar com outras a respeito da perda, bem como ajudará a “cair a ficha” acerca da nova realidade.

De todo modo, o maior e principal conselho que se possa dar acerca do luto é que seja vivido em Deus. Para nós, cristãos, a morte não é o fim de tudo. Muito pelo contrário, é apenas o início da vida que realmente importa. O evangelho nos recorda de uma importante promessa de Jesus: “Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” (Jo 11, 25). Não há conforto maior do que saber que há uma vida eterna aguardando pelos justos, onde não haverá mais dor ou necessidade de luto. É verdade que neste mundo os nossos processos de superação de perdas podem durar meses ou até anos. Porém, nos apeguemos firmemente à promessa do Senhor: “(…) E Deus mesmo estará com eles. Enxugará toda lágrima de seus olhos e já não haverá morte, nem luto, nem grito, nem dor, porque passou a primeira condição” (Ap 21, 3b-4).

Rafael Aguilar Libório
Postulante da Comunidade Católica Pantokrator

Deixe uma resposta

Por favor, insira seu comentário!
Por favor, insira seu nome aqui.