Música e espiritualidade

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E sempre que o espírito mau acometia o rei, Davi tomava a harpa e tocava. Saul acalmava-se, sentia-se aliviado e o espírito mau o deixava.” 1Samuel 16,23

Apenas a música era capaz de acalmar o coração do rei e expulsar o demônio que o atormentava. Porém não era qualquer música. Tratava-se do som da harpa manuseada por Davi que, de pobre pastor de ovelhas, tornou-se rapidamente músico exclusivo do rei. Saul exigia a presença de Davi em seu palácio pois sabia que apenas ele poderia retirá-lo, ainda que momentaneamente, do seu estado de aflição. E você é tão exigente como o Rei Saul quando o assunto é escolher uma música para ouvir?

Hoje, graças à acessibilidade que a tecnologia nos oferece, basta um celular e uma boa conexão e, de repente, sem que a maioria de nós possa ter refletido sobre isso, somos apresentados a um repertório quase infinito de músicas de todos os estilos e de todas as épocas. Apenas com um aplicativo como, por exemplo, o Spotify e – Surpresa! – nos tornamos muito mais poderosos do que Saul no auge do seu reinado. Podemos escolher, no momento em que queremos, quantas vezes desejarmos ouvir uma ou dezenas de músicas da nossa preferência.

No entanto, onde nossas preferências nos levam? O que fazemos com tamanho “poder” que é entregue tão facilmente em nossas mãos? Imagine uma música como uma chave. No YouTube, podemos nos perder com o tamanho incalculável de chaves que é apresentado. Existe uma chave que pode abrir em seu interior uma porta para a paz, para a alegria, ou uma porta para a tristeza, para a dor, ou quem sabe ainda para a violência, para a erotização, para a depravação… Que porta você escolheria abrir hoje?

A música fornece um acesso privilegiado; se você não entendeu isso ainda, cuidado. Posso falar isso com autoridade, pois sou músico e um excelente espectador e ouvinte. Talvez um dos meus hobbies preferidos seja ouvir música. Mas o que há de tão fascinante nisso tudo, capaz, por exemplo, de fazer com que adolescentes curtam tão assiduamente fones de ouvido? É simples: a música te fornece um acesso rápido ao mundo de dentro, ao seu interior, um mundo complexo e invisível onde moram nossos sentimentos e nossas emoções.

Imagine a afetividade do ser humano, sua capacidade de amar e receber amor, englobando todo o ser, emoções e sentimentos, como sendo uma camada mais exposta da pele. No fundo, quando você ouve uma música, você está expondo seu mundo de dentro, seu mundo secreto, a uma série de estímulos exteriores, bons ou ruins, sadios ou maléficos. Sua pele se encontra exposta e sua sensibilidade à mostra. Cada música que você ouve é capaz de trazer à tona, por meios de estímulos que ela cria, sentimentos, emoções, lembranças e desejos ocultos em seu coração. É preciso entrar em nosso mundo interior, porém, se você pudesse selecionar, que porta você abriria e que estímulo você escolheria?

“Pôs-me nos lábios um novo cântico, um hino à glória de nosso Deus. Muitos verão essas coisas e prestarão homenagem a Deus, e confiarão no Senhor.” Salmo 40,3

A porta que com maior urgência deve ser aberta em nosso interior é aquela que fornece a Deus acesso ao nosso coração, ao mundo do nossos sentimentos, emoções e lembranças. Devemos não somente abri-la, mas escancarar a porta do nosso coração à Cristo, como afirmou São João Paulo II.  Por isso, é de suma importância selecionarmos música cristãs, católicas, para que todo nosso ser se volte para Deus, nosso Senhor.

É importante que as bibliotecas dos nossos dispositivos estejam repletas de músicas católicas que estimulem nossa sensibilidade de forma positiva, levando-nos a uma experiência sensível com nossa fé. Dadas as devidas proporções e através de um sério discernimento que visa avaliar compatibilidade da letra e da melodia junto à doutrina e ao magistério da Igreja, a música, bem como qualquer expressão de arte, deve ser um meio amplamente usado para facilitar e intensificar nosso encontro pessoal com Cristo.

Contudo, assim como a música tem o poder de afastar os demônios, ela também possui o poder de atraí-los. Nossa vida não pode ser uma estação de rádio (com respeito a esse segmento), repleto de estímulos aleatórios e discursos desconexos. Não, nunca é apenas uma música. Você possui afetividade, sentimentos, emoções, desejos, lembranças, sente medo, raiva, amor, ódio… Você é um sistema belo e complexo, criado por um Artista Onipotente, e nada, absolutamente nada, é um fato isolado em você. Tudo faz parte de um quebra cabeça maior e maravilhoso, onde as peças só fazem sentido se estão juntas, e no centro de tudo isso há Deus.

Através de uma música, podemos receber estímulos negativos que nos desviam da verdade de quem somos. Somos filhos de Deus, redimidos em Cristo e, portanto, dignos, justificados pela fé. Qualquer expressão artística que possa ferir nossa dignidade deve ser imediatamente excluída do nosso dia a dia. Somos, por assim dizer, o que escutamos. E quanto as músicas que você ouve, essas te recordam do seu chamado à santidade?

Leandro Andrade
Discípulo da Comunidade Católica Pantokrator 

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