Não apenas deseje, decida-se

1

Todos nós temos o desejo de realizar a vontade de Deus em nossas vidas. Quando passamos a caminhar com Cristo, surge em nós a preocupação em agradar a Deus através de nossos atos e ações, queremos crescer no nosso relacionamento com Ele, seguir o caminho de conversão e de maturidade a que Ele nos conduz. Isso acontece, pois essa experiência concreta de Deus nos impulsiona em responder a este amor, mas fazer a vontade de Deus precisamos de decisão.

Dentre tantos significados que o dicionário nos revela acerca da palavra decisão, podemos encontrar os seguintes: determinação, coragem, firmeza. Assim compreendemos que não basta apenas o desejo de realizar a vontade de Deus, precisamos nos decidir por ela, ter persistência para alcançar aquilo que se deseja, ou seja, ser alguém determinado. É preciso encarar os desafios, ir de encontro às nossas limitações e fraquezas, sem receios, confiantes que a graça de Deus nos alcança, e isso é coragem. É preciso ter firmeza para acreditar que Deus nos capacita e, por mais que humanamente nos vejamos incapazes de dar os passos que Ele nos pede, a experiência de fé nos faz crer que é possível.

Determinação determinada

Santa Teresa de Jesus, que viveu tão bem essa decisão em seguir a Cristo, ensina-nos que para fazer a vontade de Deus é necessário ter uma determinação determinada, ou seja, “ter uma grande e muito decidida determinação de não parar enquanto não alcançar a meta, surja o que surgir, aconteça o que acontecer, sofra-se o que se sofrer, murmure quem murmurar, mesmo que não se tenha forças para prosseguir, mesmo que se morra no caminho ou não se suportem os padecimentos que nele há, ainda que o mundo venha abaixo”[1].

A decisão em seguir os planos de Deus implica em fazer uma opção fundamental por Cristo, implica até mesmo em uma certa violência consigo mesmo. É preciso levar a sério nosso caminho de  conversão, caso contrário corremos o risco de ficar apenas no campo dos sentimentos, dos desejos que nunca geram mudança de vida, que não mudam nossas atitudes e comportamentos. (,) Permanecemos como homens que caminham sem sair do lugar, pois ainda não há decisão, falta determinação, falta coragem para mudar e firmeza para manter-se no caminho; trilhamos um caminho de mornidão, de imaturidade e de superficialidade.

A decisão por Deus implica em um constante sair do “eu atual” em direção ao “eu ideal” e isso só é possível se houver uma real decisão por mudança de vida.

A vontade de Deus nas pequenas coisas

“Não pudeste vencer nas coisas grandes, porque não quiseste vencer nas coisas pequenas”[2]. Erra quem se preocupa apenas em fazer a vontade de Deus nas grandes coisas, pois a fidelidade nas grandes coisas é intrínseca à fidelidade nas pequenas coisas.

Obviamente que trazemos em nosso coração o desejo de descobrir quais planos Deus tem para nós, porém é de extrema importância ocupar-se em ser fiel também nas situações cotidianas da nossa vida. Se não há decisão, determinação, coragem e firmeza nas pequenas coisas, não haverá decisão, determinação, coragem e firmeza nas grandes coisas.

É necessário perseverar nas pequenas coisas, que nos preparam para as grandes. Podemos citar um exemplo simples de como isso ocorre: se há em mim o desejo de viver a intimidade com Deus que eu não tenho hoje, de nada adianta (se) me propor a rezar duas horas por dia se eu não consigo rezar ao menos cinco minutos, é preciso decisão e determinação para conquistar aos poucos uma vida de oração frutuosa, mesmo que no início sejam apenas dez minutos. Com o passar do tempo, nossa alma não se saciará com tão pouco tempo e naturalmente o desejo de estar mais na presença de Deus fará com que todo o nosso dia seja uma contínua oração, mas nada acontece “da noite para o dia”, por isso a importância de decidir-se cotidianamente em estar com Deus.

É preciso caminhar

Por isso precisamos ter uma atitude firme com nós mesmos. É preciso estabelecer metas, aceitar que muitas vezes mudar dói, é penoso, mas essencial, pois o próprio Jesus nos ensinou o caminho: “se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” (Mt 16, 25). Precisamos ter em mente que não há chamado sem cruz, sem renúncia; o amor exige renúncia, escolha, exige decisão. Se amamos a Deus, se tivemos realmente uma experiência concreta com Ele, aos poucos, vamos nos conformando à Sua vontade, pois sabemos que somente nela somos verdadeiramente felizes e livres. Essa escolha por Deus nos leva a nos esvaziarmos para que Ele seja o nosso tudo, a mudar as rotas que traçamos, deixando com que Deus nos guie nos caminhos que Ele preparou, sem medos ou receios, na certeza do Seu amor. Eu me decido por Deus em detrimento à minha vontade e aos meus planos, certo de que a Sua vontade é o melhor para mim.

Peçamos ao Senhor a graça da perseverança para que sejamos firmes em nossa decisão por segui-lO, custe o que custar. Que Ele nos dê a graça da coragem, da fidelidade, da fortaleza e da determinação que Santa Teresa de Jesus tanto nos ensina para que, ao final de nossa caminhada neste mundo possamos, assim como São Paulo dizer “combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé” (2 Tim 4, 7).

[1] Escritos de Teresa de Ávila, Edições Loyola, São Paulo, 2001, pg. 363.

[2] Caminho, Josemaria Escrivá, Quadrante, São Paulo, 2016, pg. 252.

Allan Oliveira
Consagrado na Comunidade Católica Pantokrator

1 COMENTÁRIO

Deixe uma resposta

Por favor, insira seu comentário!
Por favor, insira seu nome aqui.