O Deus de toda a beleza

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           Gostaria de propor agora algumas reflexões sobre o chamado e a beleza[2]. Ambas as palavras são parecidas em grego: kalós quer dizer belo e Kalein, chamar. Há uma harmonia profunda entre o que dissemos a propósito de Deus que chama e o mistério da beleza. Dionísio o Areopagita tem esta frase: “Deus chama (kaloun) todas as coisas a si e por isso se diz que é kalós (beleza)”[3]. A beleza que toca o coração do homem é uma analogia sugestiva para evocar Deus que chama.           

            A beleza chama. Não deixa ninguém indiferente, desperta um desejo. “Deus chama a si todas as coisas, tal como o desejável chama a si o desejo”[4]. Na medida em que provoca admiração, convida também a uma escuta. E é convite a uma resposta: a admirar, louvar e, em troca, amar a beleza que, ao manifestar-se, nos solicita. Essa resposta nos é dada: se respondemos ao chamado da beleza, não é por nós mesmos. O movimento que nos leva a ela e nos faz dar-lhe graças não procede de nós, mas dela, e nós só podemos consentir nela (ou resistir-lhe…). Não somos nós que fabricamos o amor que a beleza provoca em nós, mesmo nos casos em que nos toca e comove por vir ao encontro de uma expectativa da nossa parte.

            Em toda a verdadeira beleza, como em Deus, há também pureza, desinteresse e generosidade. Uma coisa bela não o é para si mesma, mas para os que a contemplam e nela se rejubilam. Não há nada pior que uma beleza narcisista. A beleza é generosidade oferecida à alegria de um outro.

O DEUS DE TODA A BELEZA

            Compreendemos também que esse chamado é sempre infinitamente mais rico que qualquer resposta, e que nenhuma resposta pode esgotá-lo nem corresponder-lhe plenamente. Não podemos estabelecer um limite ao chamado ao amor que a Beleza essencial nos dirige. O que o chamado da beleza nos pede – um chamado que é também chamado da verdade e do bem[5] – não se reduz a uns atos particulares que poderíamos enumerar numa lista exaustiva: é, em última análise, a doação total da nossa pessoa. Por isso, se o chamado é infinitamente generoso, também é capaz de despertar na pessoa disponível uma generosidade sem limites, o dom total de si mesma: a medida do amor a Deus é amá-lo sem medida.

Na resposta a esse chamado ao amor, perdemo-nos e ao mesmo tempo nos encontramos:

“O chamado que a beleza nos lança chama-nos também a nós mesmos, para que nos tornemos verdadeiramente nós mesmos. Ao destinar-nos a ela, destina-nos à promessa contida no nosso ser”.[6]

Possa cada um de nós enamorar-se da beleza de Deus, perder-se nela para encontrar-se!

Kátia Maria Bouez Azzi
Consagrada da Comunidade Católica Pantokrator, Teóloga e Filósofa

[1] Estas reflexões estão inspiradas no livro de filosofia de JEAN-LOUIS CHRÉTIEN, L’appel et la reponse, Ed. Minuit, 1992.

[2] DIONISIO, De divinis nominibus, IV, 7. Cit. por Jean-Louis Chrétien, op. cit.

[3] ULRICH DE ESTRASBURGO, teólogo do séc. XIII. Citado em op. cit, p. 27.

[4] Deus é simultaneamente a beleza, a verdade e o bem. Damos aqui prioridade à beleza porque talvez a verdade e o bem nos atraiam por serem belos.

[5] JEAN-LOUIS CHRÉTIEN, op. cit, p. 23.

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