O Matrimônio no Carisma El Shaddai – Pantokrator

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Como toda família, os casais da Comunidade Pantokrator são chamados a viver a santidade do sacramento do matrimônio, o que significa abraçar com alegria e fé todos os deveres e graças que este sacramento traz para nossas vidas.

O matrimônio é caminho de santificação, instrumento escolhido desde o princípio por Deus para ajudar o homem a vencer a centralização em si mesmo, o egoísmo, a busca do próprio prazer e abrir-se ao outro, à ajuda mútua, ao dom de si. No exercício do amor e na oferta do dom de si ao outro, os casais, pelo sacramento do matrimônio, devem ser um sinal profético, no mundo, do amor esponsal de Cristo por sua Igreja e da Igreja por Cristo. Esse é um chamado para todo casal cristão unido em matrimônio.

Na Comunidade Pantokrator nós vivemos a realidade das novas comunidades (ou novas formas de vida evangélica). Dentre muitas novidades que as comunidades novas trouxeram para a Igreja, está a consagração de vida de pessoas casadas e, conseqüentemente, a vivência de um matrimônio consagrado. Segundo o chamado de Deus, aqueles que têm a vocação El Shaddai-Pantokrator, consagram sua vida a Deus, no Carisma, para viver mais radicalmente, através dos conselhos evangélicos, o próprio Batismo. A consagração de vida abrange a pessoa toda e, portanto, também abraça a vida matrimonial e familiar da pessoa consagrada.

Pelos votos da consagração, o matrimônio e tudo o que ele implica se torna dom ofertado a Deus através do Carisma e da Comunidade. Isso significa que a consagração confere ao casal consagrado uma dupla missão: a missão própria do sacramento do matrimônio (ser sinal profético do amor entre Cristo e a Igreja) e a missão eclesial que se realiza através da Comunidade na vivência da sua vocação. Para os casais consagrados no Carisma El Shaddai-Pantokrator essa missão implica exalar para o mundo o perfume da fidelidade, também, através da própria família. Essa fidelidade é vivida numa atitude concreta de obediência a Deus através da sua Palavra, dos Mandamentos e das normas Igreja, no âmbito pessoal e matrimonial. Por exemplo: em obediência à Igreja, a vivência da castidade conjugal confirmada pelo voto, na Comunidade, implica viver cada ato conjugal em abertura à vida, preservando a união das finalidades unitiva e procriativa do matrimônio. Para isso, os casais da Comunidade são chamados a viver a paternidade responsável, conforme ensina a Igreja, usando os métodos naturais para espaçar o nascimento dos filhos, quando houver necessidade.

Às vezes pode parecer estranho pensar numa consagração do matrimônio dentro de uma realidade eclesial, já que o matrimônio por si só possui um chamado bastante exigente no zelo, sustento e cuidado que se deve ter à família. Muitos até chegam a pensar que, diante do mundo atual, para que a família seja vivida na essência do seu chamado de santidade, é preciso uma dedicação quase que exclusiva a ela, não restando tempo nem energia para se dedicar a mais nada. É muito comum vermos pessoas antes muito engajadas no serviço da Igreja e depois de constituírem família, passarem a viver na redoma das obrigações e dos prazeres familiares, que são lícitos. Contudo, a família, na perspectiva cristã, não existe para si mesma, ela tem um papel fundamental como igreja, na construção da sociedade. Todos os casais cristãos são chamados a viver a família, inseridos na Igreja, não só como fiéis participantes, mas também como membros atuantes no Corpo de Cristo para a construção do Reino.

Deus deseja a consagração dos casais – conforme tem acontecido nas comunidades novas – e por isso chama-nos à consagração de vida através de um Carisma. “Deus, que de fato chamou os esposos ao matrimônio, continua a chamá-los no matrimônio…” (1). O casal Priscila e Áquila (2), citado no livro dos Atos dos Apóstolos, era um casal que estava a serviço da Igreja de um modo especial, sendo para nós uma referência da consagração de vida dos casais. “É o chamado de Deus que viabiliza a consagração matrimonial”.

A consagração insere o casal numa especial disposição e abertura para viver o serviço do Reino. O papa João Paulo II disse, na Exortação Apostólica Familiaris Consortio, que a evangelização depende em grande parte da igreja doméstica, a família. No parágrafo 49, diz: “Entre os deveres fundamentais da família cristã estabelece-se o dever eclesial: colocar-se a serviço da edificação do Reino de Deus na história, mediante a participação na vida e missão da Igreja”. Uma família autenticamente cristã não pode viver simplesmente como uma comunidade doméstica ‘salva’, mas deve também viver a sua dimensão de comunidade ‘salvadora’. O casal consagrado se insere de forma especial nesta missionaridade da família colocando o seu dom como oferta para o serviço do Reino através da Comunidade. O desejo de Deus para nós é que possamos proclamar: “Quanto a mim, eu e minha casa serviremos ao Senhor” (3).

Diante disso, a consagração dos casais testemunha o chamado essencial da família na Igreja. Anuncia a todos que é possível construir uma família santa, dedicando-se também ao serviço eclesial através de um compromisso autêntico. Além disso, revela que o engajamento da família na Igreja se torna fonte de sustento e auxílio para que a própria família atinja plenamente o seu chamado e a sua realização.

Os deveres do matrimônio são a primeira missão da família e para cumpri-la é preciso ter plena consciência deles. O casal consagrado precisa estar atento a isso porque precisa ser testemunha de família fiel na sua própria missão. Para conjugar a missão própria da família com os compromissos da consagração, é preciso que o consagrado tenha disposição para viver um constante o sacrifício de amor, de forma que a sua doação à Igreja, através da Comunidade, não lese a vida familiar, mas ao contrário, aprimore-a.

Na Comunidade, os casais vivem o sacramento do matrimônio conscientes de que este estado de vida é um dom que lhes foi dado por Deus para o amor. Entendem que o matrimônio não é um fim em si mesmo, mas um meio, para que, através dele, possam servir a Deus, à Igreja e à humanidade. Assim são chamados a viver e expressar o amor de Deus nos dons próprios do matrimônio: o amor criador, a paternidade de Deus e a sua capacidade de gerar vida, sendo para os irmãos sinal do amor esponsal de Cristo pela Igreja e sustento de amor e equilíbrio humano no qual o Espírito une os esposos (4).

Os casais buscam viver intensamente as relações familiares abertos para doação de si próprios no amor e na caridade, buscando a pureza de Cristo que renuncia a si mesmo para doar-se aos homens e a Deus. Todavia, o consagrado não restringe o seu amor, dom de comunhão, à família (cônjuge e filhos), mas dirige-o para todos os filhos de Deus, reconhecendo que a sua família faz parte da grande família de Deus, na qual todos são irmãos. A abertura e o alargamento na doação do amor ensinam-nos a amar verdadeiramente os nossos familiares. Assim testemunhamos, numa sociedade individualista, que a família – por ser escola de amor – ao invés de nos tornar fechados em nós mesmos e no nosso mundo particular, de supervalorizar nossos amados em detrimento dos outros, torna-nos capazes de abrir-nos para o mundo e suas necessidades para aí amar verdadeiramente todos os amados do Pai. Nesse sentido, a fidelidade incondicional na família é vivê-la autenticamente sem ficar preso nela e nas pessoas que a constituem, para, justamente, a partir dela, sermos capazes de amar o mundo e de sacrificarmo-nos para a construção do Reino de Deus.

A vida comunitária na qual estamos inseridos através de uma intensa vida de oração, fraterna e apostólica, nos ensina e nos ajuda a viver como autêntica família nosso chamado e missão de fidelidade.

A vivência do Carisma se traduz no cotidiano da vida dos casais, tornando-os capazes de se abandonarem confiantemente aos desígnios de Deus, numa atitude filial de dependência, para viverem com simplicidade e alegria todo contexto da vida familiar. Amando as pequenas coisas, especialmente as atividades do dia-a-dia familiar, encontram Deus através delas e santificam-nas fazendo da vida diária motivo de encontro e fidelidade a Deus. Vivendo todas as coisas no amor e por amor, eles recapitulam em Cristo toda vivência familiar, especialmente os relacionamentos. Perseverando na oração, desenvolvem uma fé profunda, crescem o amor sem medidas, aprendem a acolher com serenidade os sofrimentos da vida familiar e a viver a radicalidade dos valores evangélicos no lar. No exercício constante das virtudes da fé, esperança e caridade, tornam-se sinal profético de família fiel ao projeto do Pai.

(1) Exortação Apostólica Familiaris Consortio, n51.

(2) At. 18.

(3) Js. 24,15.

(4) Cf. Estatutos da Comunidade Católica Pantokrator, n. 214a.

Luciane Cristina Mendes Bidóia
Consagrada na Comunidade Católica Pantokrator

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