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O Presépio e eu

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E na cena de Belém, perguntava-me a mim mesma onde eu estaria. A manjedoura estava vazia, mas eu sabia onde estava o Menino. Ele aguardava, enchendo-Se de amor pela humanidade, no seio Virginal de Maria, aquela que O transmitira ao mundo em obediência ao anúncio do anjo, que lhe disse: Serás a mãe do Salvador… Ela, que transmitia a vida a Jesus sem saber a profundidade do seu sim, sem entender plenamente e guardando tudo em seu coração,… mais tarde, transmitirá vida também a mim… Mas olhava a cena e ainda me perguntava onde estaria eu…

Quanto aos reis, eu sabia onde estavam e o que traziam: ouro, incenso e mirra… sendo sábios, sabiam que seus presentes significavam bem mais que um agrado ao Menino, eram o símbolo e a profecia de Sua Realeza, do Seu Sacerdócio eterno, e também da Sua Missão de curar, redimir e ser Salvador de toda a humanidade… Talvez não soubessem sobre a magnitude desses presentes, dessa esperança em visitar Aquele que viria a ser, diferentemente do que pensavam, o Rei dos Judeus, como foi reconhecido por Pôncio Pilatos… diante de tanta sabedoria e obediência dos reis, eu me perguntava qual seria o meu lugar… qual seria minha oferta na cena de Belém???

Deparei-me então com a figura do pastor… aquele homem jovem, com roupas maltrapilhas, sujas, trazendo ao colo uma pequenina ovelha, muito provavelmente fatigado pelo cansaço de um dia de trabalho sob o sol, afugentando feras que lhe vinham ao encontro para subtrair-lhe animais que estavam a seus cuidados; talvez nem fossem dele, mas ele daria o próprio sangue para protegê-las. Foi a ele, pobre, a quem os anjos apareceram anunciando uma Boa Nova… Ele teve a humildade de, em sua pobreza, deixar tudo para dar Glória a Deus nas alturas… Acolheu sem demora e com grande alegria o anúncio que lhe era feito… Não tinha nada a oferecer, mas deu se a si mesmo… Deu-se com uma alegria tal em reconhecer naquele anúncio, o seu Salvador, sem saber, que era o Salvador do mundo… E eu, onde estaria na cena do presépio?

Foi então que notei a presença dos animais, o estábulo, a noite, as estrelas… Toda a Criação voltava-se para o seu Criador feito gente, e eu, pobre criatura, sem reconhecer a beleza do criado em tudo aquilo que existe… Onde eu estaria nessa cena tão agigantada pela Beleza d’Aquele que a tudo deu ordem e vida?

Enfim, havia ali um homem, de pé. Forte, justo e piedoso. Que acolhera tão bem e firmemente a vontade do Senhor em sua vida. Era José. Homem segundo o coração de Deus, que foi achado digno de ser chamado de pai por Aquele que é o Filho Obediente do Pai Eterno, que existe desde antes de todos os séculos… Quanto a mim, qual seria minha justiça e piedade… Seria eu digna de apresentar-me nessa cena grandiosa, se nem sei qual o meu lugar em meio aos meus?…

Olhei mais um pouco e vi ali um lugar, vazio, à espera de algo… Um lugar para onde todos os olhares estavam voltados. Era o lugar do Menino. Vazio. Pobre. Esperando para ser preenchido. Esperando para completar aquilo que falta à cena. Percebi então que ali era onde eu não estava, mas deveria estar!

Percebi que aquela manjedoura deveria ser o meu coração

Ela deveria receber o Menino Deus, não porque fosse digna, mas porque desde toda a eternidade estava reservada para ser do Altíssimo, d’Aquele que aceitou submeter-se à condição humana para elevá-la, só por Amor. Descobri que, de onde eu estava, eu olhava tudo à minha volta, desejava ter ou ser aquilo que eu não tinha e não era; enquanto isso, o Menino Jesus apenas pedia para deixá-l’O nascer… Pedia para que aquela manjedoura fosse d’Ele, para que assim, tudo o que fosse d’Ele, pertencesse à manjedoura…

E dizia: “Para que o Amor de Minha mãe seja seu, para que a Minha Beleza seja sua, a Minha grandeza, Minha Realeza, para que a Minha Salvação te alcance, para que tudo aquilo que te pertence e diz respeito entre em ordem, é preciso que Eu deite na manjedoura…” Pois quem busca o Reino de Deus em primeiro lugar, tem todas as outras coisas por acréscimo, com perseguições… mas não devemos temer, pois Ele é o Bom Pastor que dá a vida por suas ovelhas… mas, se eu quiser me encontrar em meio aos homens e mulheres santos e justos que acolheram o Menino Deus, eu preciso trilhar um caminho de escuta e atenção para ouvir todos os anúncios de Boa Nova em minha vida…

Tomada de espanto maior ainda, vi que toda a cena de Belém, inclusive o Menino no seio da Santíssima Virgem, olhavam com ternura indizível àquele pequeno e pobre coração, que lutando contra si mesmo, tornara-se uma pequena manjedoura vazia para acolher o Deus da vida…. E assim se fez um feliz Natal…

Raphaela Silva
Consagrada da Comunidade Católica Pantokrator 

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