Home Artigos Pantokrator O que significa ,para o cristão, a quarta - feira de cinza?

O que significa ,para o cristão, a quarta – feira de cinza?

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Mais do que um mero gesto litúrgico, as cinzas recordam ao homem que, no fim das contas, ele é só um homem.

Apesar de ser celebrada há muitos séculos, a imposição das cinzas sobre os fieis ainda causa muitos questionamentos e interpretações equivocadas. Lembro-me de uma vez em que um colega me perguntou se os católicos celebravam a quarta-feira de cinzas para pedir perdão pelos pecados cometidos no carnaval. É evidente que este meu colega – que não possuía religião – não possuía obrigação de conhecer as minúcias das celebrações cristãs. Entretanto, o grande problema surge quando os próprios católicos não tomam consciência da importância e da profundidade desta mencionada celebração.

A quarta-feira de cinzas abre o período da Quaresma, no qual o cristão deverá se preparar para celebrar dignamente a Páscoa. Vale dizer que as cinzas são feitas com os ramos das palmeiras que se usaram na Procissão de Ramos do ano anterior.

Resumidamente, as cinzas são um lembrete importante ao homem, indicando-lhe que esta vida atual não durará para sempre. O próprio Deus, no livro do Gênesis, ressaltou a Adão: “(…) Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de que foste tirado; porque és pó, e pó te hás de tornar” (Gn 3,19).

Tendo sempre isso como norte, o povo hebreu transformou as cinzas em sinal de conversão. Há vários episódios no Antigo Testamento em que, para demonstrar arrependimento pelos seus pecados, o povo se cobria de cinzas ou se sentava sobre elas. É como se, ao ver aquele sinal, os penitentes se recordassem da insensatez do seu pecado e da fraqueza da vida humana. Vê-se isso nos livros de Jonas, Ester, Jeremias, dentre muitos outros.

O ESQUECIMENTO DA MORTE

Se pudéssemos observar de perto a vida das pessoas alguns séculos atrás, veríamos situações que poderiam nos chocar. A medicina ainda não era avançada, e as leis não eram bem evoluídas. Muitos dos séculos foram marcados por guerras e pestes, de modo que a expectativa de vida das populações se mostrava pessimista. Em outras palavras, as pessoas que viviam nestes tempos eram obrigadas a encarar a morte quase todos os dias, seja de vizinhos, amigos ou parentes próximos. Não era preciso nenhum esforço para que as pessoas se dessem conta de que: “Uma hora ou outra será a minha vez!”.

Mas o tempo passou. Apesar de ainda existirem crimes e doenças, é inegável que o desenvolvimento tornou a vida das pessoas mais confortável e duradoura. A maior parte das doenças possui tratamento conhecido, e as guerras viraram exceção. Os enfermos terminais já não precisam ser tratados em casa e as legislações criam regras visando a segurança das pessoas. Tudo isso é muito belo, de fato. Porém, surge automaticamente um problema, que muitas vezes passa imperceptível: As pessoas estão se esquecendo de que vão morrer.

Li recentemente, em um noticiário, que alguns cientistas estariam trabalhando para desenvolver um robô para abrigar o cérebro de uma pessoa, a fim de que ela não chegasse a morrer. Em outro lugar, li também sobre um homem rico que estaria planejando congelar seu corpo em um laboratório para esperar o momento em que a ciência pudesse reavivá-lo. Tais casos parecem exagerados e distantes da nossa realidade, mas não são. Pergunte a si mesmo: Quantos dos seus amigos já deixaram preparado o lugar e o modo do futuro sepultamento? Quantos deles procuram deixar tudo em ordem (como os perdões, as dívidas) por não saberem quando vão morrer?

São João Bosco nos conta uma história interessante, e que deveria nos ficar como aprendizado. Diz que numa tarde, um padre viu alguns garotos jogando bola e chamou um por um para perguntar o que eles fariam se soubessem que iriam morrer dentro de meia hora. Um deles se assustou e disse que iria correndo para a capela rezar. Outro, disse que iria prontamente se confessar. Um terceiro, afirmou que pediria perdão à sua mãe por algumas ofensas não resolvidas. Domingos Sávio, o último deles – que futuramente seria declarado santo – não demorou para responder: “Eu continuaria jogando bola”. Esta é a verdadeira mentalidade de um santo! Não deixar para “amanhã” as conversões e os arrependimentos que poderão me tirar o céu! É estar constantemente pronto para o julgamento celeste! É saber que sua vida é frágil, e que a qualquer momento poderá ser perdida.

E este é o grande significado da quarta-feira de cinzas – tão importante nos tempos modernos. Veja: nem os mais ricos e poderosos do mundo conseguem evitar a própria morte. Ainda que a pessoa seja a mais cuidadosa e atenta, não é possível prever quando será surpreendida por uma doença, colidida por um carro ou mesmo acertada por um raio.

Mas não se engane. Esta recordação da morte não deve conduzir a um desespero ou a um desânimo. Muito pelo contrário! A Santa Igreja nos ensina que fomos feitos para a santidade. Deus nos criou para passar a eternidade vivendo a mais plena das felicidades. A lembrança sobre a morte deve nos conduzir a uma sincera contrição, nos fazer lembrar que os pecados não valem a pena e que Deus é o único que tem Vida verdadeira para nós.

Portanto, ao receber sobre sua cabeça o sacramental das cinzas, o católico não está apenas cumprindo um rito antigo e peculiar. Está sendo convidado a contemplar a fragilidade da sua condição humana e lembrar que este precioso tempo que temos até a morte deve ser investido para a honra e glória do nosso Senhor Jesus Cristo.

Um forte abraço!

Rafael Aguilar Libório
Discípulo da Comunidade Católica Pantokrator

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