O significado do “martírio branco” nos nossos dias

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Até onde você estaria disposto a ir em nome de Cristo? O que você renunciaria por Ele? Você estaria disposto a servi-l’O e amá-l’O até o martírio?

A nossa Igreja sempre foi marcada por incontáveis atos heroicos. No início de sua história (especialmente nos quatro primeiros séculos), a Santa Igreja experimentou terríveis períodos de perseguição. Era vista como inimiga do poderoso Império Romano, de modo que ser cristão equivalia a crime sujeito à pena de morte. Os fieis eram muitas vezes arrastados diante das autoridades e possuíam duas simples opções: ou acendiam incensos e prestavam adoração aos deuses pagãos (renunciando a Cristo) ou permaneciam na “teimosia” de adorarem a este Homem-Deus e assim eram condenados às mais duras atrocidades – sem qualquer direito de defesa e sem terem feito nenhum mal.

É emocionante ler os relatos dos martírios. Pessoas intrépidas, decididas, confiantes. Os mártires não faziam caso dos padecimentos a que estavam condenados, pois sabiam que trocavam uma vida curta pela felicidade eterna! Os inimigos de Deus sempre foram muito “criativos” nas torturas e formas de matar os cristãos: ora queimavam em fogueiras; ora soltavam ursos e leopardos famintos para atacá-los; além de decapitações, flechadas, crucifixões e todo gênero de maldades.

Todos os santos apóstolos, com exceção de São João, foram martirizados. Os primeiros papas da Igreja seguiram esse mesmo caminho, assim como os mais antigos bispos. Contudo, algo de milagroso e inexplicável acontecia. O escritor Tertuliano (que morreu no século III) destacou uma frase que se tornou célebre: “O sangue dos mártires é semente de novos cristãos”. De fato, aqueles testemunhos arrastavam mais e mais pessoas para Deus. São numerosos os casos de guardas e carrascos que, vendo a decisão firme dos heróis cristãos, se converteram. A nossa Igreja está alicerçada no testemunho de sangue dos santos que entregaram literalmente a vida para seguir os passos do Mestre.

Esse tipo de sacrifício, de morrer pela Igreja ou pelo Evangelho, nós chamamos “martírio vermelho”. Ele ainda acontece (e muito) nos dias atuais, especialmente em países da África, da Ásia e do Oriente Médio. Milhares de pessoas morrem todos os anos pelo simples fato de serem cristãs.

Mas e nós, do Ocidente? Não seríamos também chamados ao martírio? A resposta é SIM, conforme as palavras do próprio Cristo: “Se alguém quer vir após mim, renegue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me” (Lc 9, 23). Ao falar de “cruz”, Jesus está nitidamente falando de martírio. E isto não significa exclusivamente “martírio vermelho”.

De maneira geral, martírio significa tornar Jesus Cristo o Senhor de tudo. Ou seja, tudo aquilo que se colocar em oposição a Deus é automaticamente desprezado pelo mártir, por maior e mais importante que possa parecer. Dessa maneira, por mais que a vida seja um dom belíssimo, o mártir possui a consciência de que ela não é nada perto do Rei dos reis.

Seguindo essa linha, nós também somos chamados a ser mártires nos dias atuais. Sim, somos convidados a colocar o Cordeiro no trono das nossas vidas e submeter tudo a Ele. Isso se torna ainda mais significativo no mundo pós-moderno, em que a fé e a religião cristã têm sido atacadas de todas as formas. A pessoa devota é tachada como inimiga do progresso, ofendida de todos os lados, chamada (no melhor das vezes) de retrógrada ou ultrapassada.

Infelizmente, assim como o Império Romano se mostrou um feroz perseguidor dos cristãos, o mundo atual (com todas as suas bandeiras e ideologias) também elegeu os amigos de Jesus como sendo os “vilões”. Se o católico ousa defender a existência de uma Verdade, é automaticamente achincalhado; se defende a família como instituição criada e querida por Deus, é tachado de intolerante e ridículo; se prega uma autêntica moral e valores sólidos, é considerado fanático e radicalista. O mundo moderno declarou guerra à Cruz e a todos aqueles que se abrigam embaixo dela.

Nesse sentido, se você for um católico fiel à sua Igreja, pode ser que você não perca sua vida como os primeiros cristãos, mas é provável que perca o emprego; pode ser que não chegue a derramar seu sangue nas arenas de sacrifício, mas possivelmente será caluniado, desonrado e injustiçado por se autoproclamar cristão.

Se antigamente os heróis de Cristo o proclamavam Senhor colocando-O acima de suas vidas, hoje nós somos chamados a também proclamá-l’O Senhor, colocando-O acima dos nossos bens materiais, dos elogios do mundo, das mentiras inventadas, de projetos e, principalmente, de humilhações. Se antes os nossos irmãos viviam o “martírio vermelho”, hoje somos chamados a viver um autêntico “martírio branco”.

O testemunho

Pode parecer pequena essa nossa missão, se comparada com a daqueles mártires do Império Romano. Porém, acredite: o fiel convicto e inabalável, disposto a perder tudo em nome da Igreja, faz sorrir o Coração de Deus. O mais bonito é que, do mesmo modo que o sangue dos mártires era semente de novos cristãos, assim também as nossas humilhações, renúncias e fidelidades incondicionais fazem brotar no mundo sementes de novos amigos do Senhor. Que mistério extraordinário! Significa que, ao viver de maneira santa e inegociável a sua fé, você pode estar contribuindo espiritualmente para a salvação de uma pessoa que você nunca viu.

A tendência é que as exigências do martírio atual sejam cada vez maiores. Muitos casais cristãos sacrificam uma vida de luxo e prazeres para se abrirem a famílias numerosas; muitos fieis inteligentíssimos sacrificam sonhos e grandes empregos para não ferirem a moral cristã; católicos universitários se expõem ao ridículo, ao defenderem a Santa Mãe Igreja; canais de mídia tradicionais humilham diariamente a fé e a crença da religião dos apóstolos.

De todo modo, independentemente da cor do martírio (seja vermelho, seja branco), o que realmente importa é submeter todas as coisas aos pés de Jesus. É ele quem dá força aos mártires, quem aumenta a coragem dos perseguidos e quem ensina o verdadeiro heroísmo. O verdadeiro católico fiel não se entristece pelas renúncias que é obrigado a fazer em nome de Cristo; ao contrário, sabe que trocou um campo simples por um tesouro inigualável (cf. Mt 13,44).

Sejamos, portanto, católicos fieis, preparados para o martírio que o mundo nos exigir. Seja qual for o bem a ser renunciado, jamais se comparará ao nosso Rei! Tenhamos sempre em vista a promessa maravilhosa feita pelo Mestre: “Bem-aventurados sereis quando vos caluniarem, quando vos perseguirem e disserem falsamente todo o mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus” (Mt 5, 11-12).

Rafael Aguiar Libório
Postulante da Comunidade Católica Pantokrator

2 COMENTÁRIOS

  1. Meu Deus Rafael que alegria! Vc aprendeu com o mestre Josafa, sou fã do seu pai por sua inteligência e autenticidade.
    E vc está no caminho certo irmão!
    Parabéns é uma grande alegria ler um artigo desses com tanta profundidade e verdade!
    Graças a Deus por sua vida

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