O trabalho e a santificação do homem

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trabalho

Muito se fala sobre como o cristão deve se portar no ambiente de trabalho, a premissa “o trabalho dignifica o homem”, não somente tem seus fundamentos bíblicos, mas também já foi objeto de discussões filosóficas que, diga-se de passagem, são um assunto que ainda pode ser muito explorado.

O fato é que para nós cristãos, o trabalho não apenas dignifica, mas também é via de santificação. Infelizmente, as transformações sociais e algumas correntes de pensamento acabaram por atribuir ao trabalho um caráter negativo, considerando-o como um fardo, um peso.

Muitos se utilizam até das Sagradas Escrituras para justificar o trabalho como um castigo infligido aos homens: “Porque ouviste a voz de tua mulher e comeste do fruto da árvore que eu te havia proibido comer, maldita seja a terra por tua causa. Tirarás dela com trabalhos penosos o teu sustento todos os dias de tua vida” (Gn 3,17).

Mas Jesus, em sua missão salvadora, também recapitulou e ressignificou o trabalho. Muitas vezes ficamos presos apenas aos últimos 3 anos da vida de Jesus, nas suas pregações, seus milagres e no sofrimento de sua Paixão (os estudiosos denominam este período de Vida Pública de Jesus).

Ou seja, deixamos passar despercebidos os outros trinta anos de sua Vida Oculta, ou ainda nos deixamos levar apenas pela curiosidade em saber o que teria feito o Filho do Homem durante este tempo.

A questão é que Jesus não fez nada de extraordinário (ou se fez não nos é permitido saber), além de ser obediente e trabalhar, exercendo o ofício ensinado por seu pai adotivo São José (patrono do trabalho e dos trabalhadores). Este, por sua vez, é chamado de justo pelo evangelista Mateus. Pronto! Temos aqui pistas de como o cristão deve se portar.

O trabalho e a missão social do homem

O primeiro passo então é ser justo, e o que é ser justo na vida profissional? Ser justo é dar ao outro aquilo que lhe é de direito, portanto o cristão deve se esforçar para ser o melhor empregado/ empreendedor/ patrão que ele pode ser. Entregando um serviço de excelência, qualidade e no menor tempo possível.

São Josemaría Escrivá, em uma entrevista, exorta que “todo o trabalho profissional exige uma formação prévia e depois um esforço constante para melhorar essa preparação e acomodá-la às novas circunstâncias que apareçam”.

Este pensamento da função social do trabalho também é discutido por São João Paulo II, na introdução da Encíclica Laborem Exercens:

“É mediante o trabalho que o homem deve procurar o pão quotidiano e contribuir para o progresso contínuo das ciências e da técnica, e sobretudo para a incessante elevação cultural e moral da sociedade, na qual vive em comunidade com os próprios irmãos. E com a palavra trabalho é indicada toda a atividade realizada pelo mesmo homem, tanto manual como intelectual, independentemente das suas características e das circunstâncias, quer dizer toda a atividade humana que se pode e deve reconhecer como trabalho, no meio de toda aquela riqueza de atividades para as quais o homem tem capacidade e está predisposto pela própria natureza, em virtude da sua humanidade”.

Podemos entender que a missão do homem vai muito mais além do que acordar cedo todas as manhãs e exercer suas atividades de maneira automática. O trabalho do homem precisa sim ser um bem para a sociedade, como exorta São João Paulo II.

Afinal, como um cristão trabalhador deve ser?

Partindo destas colocações, o bom cristão precisa exercer um trabalho impecável como São José, sendo justo com o ordenado que recebe, entregando tudo com a máxima primazia; precisa trabalhar duro como Jesus, não ser preguiçoso, nem procrastinar as atividades do dia, acumulando tarefas para o dia seguinte.

Ainda como Jesus, ser obediente às suas autoridades, respeitando-as, contribuindo para a melhoria no ambiente de trabalho. Jesus permaneceu em silêncio nos seus anos de sua vida oculta, assim também nós devemos ser. Um bom cristão trabalhador jamais se envolve em fofocas, nem usa de sua boca para denegrir seus colegas de trabalho ou seus superiores.

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Isso não significa, que não se pode reivindicar melhorias, mas o cristão que exerce seu ofício com excelência, guiado pelo Espírito Santo, certamente agirá com maturidade e sabedoria. Desta forma, indubitavelmente, será um ponto ao seu favor.

Assim, guiados por esses conselhos bíblicos, pela sabedoria dos santos e espelhados na figura Jesus, passamos a olhar o trabalho como via de santificação, tornando santa a atividade de trabalhar. Realizando tudo por amor a Deus, em união com Cristo, com a maior perfeição que possamos conseguir. Consequentemente, uma pessoa que possui tal postura reta santifica os seus colegas, com sua vida; as pessoas precisam enxergar Deus no cristão.

Seguindo o exemplo de Cristo

A escolha pelo seguimento de Cristo deve ser coerente com todas as áreas da nossa vida. São Josemaría Escrivá diz que “um bom indício da retidão de intenção, com a qual deveis realizar vosso trabalho profissional, é precisamente o modo como aproveitais as relações sociais ou de amizade, que nascem ao desempenhar a profissão, para aproximar de Deus essas almas”.

Um cristão que é um mal trabalhador, que atrasa ou falta, não entrega seu trabalho ou o faz de qualquer jeito, contamina seus colegas com murmurações e fofocas.

Do mesmo modo um empregador, que não dá aos seus trabalhadores condições dignas para exercerem suas tarefas ou não lhes paga o justo salário, é contratestemunho e não pode ser digno de se dizer seguidor de Cristo.

Tais atitudes são um desserviço para Igreja e para os homens, afastando as pessoas da beleza que é seguir a Cristo e seus ensinamentos. Isso em nada colabora com a evangelização, pelo contrário, podem ser vias de condenação e desgraça para si e para os outros.

O local de trabalho é, sem dúvidas, o nosso espaço teologal, nosso campo de apostolado, nele precisamos olhar para as pessoas que Deus colocou junto de nós como missão, mas isso é um assunto para uma outra discussão (risos). Por ora, fica a reflexão: santificar o trabalho, santificar-se no trabalho e com o trabalho.

Renata Tonon
É jornalista, casada, mãe  e consagrada da Comunidade Católica Pantokrator

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