“ Tendes ouvido o que foi dito: ‘amarás teu próximo’ e odiarás o teu inimigo. Eu porém, vos digo: amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos maltratam e perseguem” (Mt 5, 43-44).

Talvez esse versículo seja o mais surpreendente, o mais difícil de ser vivido em toda a Bíblia. Se é difícil amar de verdade os amigos, quanto mais não é amar os inimigos! Mas é precisamente nesse amor sem limites que está a novidade de Jesus.

Sim, Ele nos deu um mandamento novo: “amai-vos uns aos outros. Como eu vos tenho amado, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros” (Jo 13, 44). Se na Antiga Aliança a medida do amor era o amor a si mesmo – amar ao próximo como a si mesmo – Jesus nos dá uma nova medida, o Seu amor por nós. A Cruz nos mostra que em Cristo o amor não tem medidas, pois jamais faremos tanto quanto fez Nosso Senhor na Cruz. Nenhuma situação, repito, nenhuma, exigirá de nós uma renúncia tão grande quanto aquela que o Filho único do Pai fez ao renunciar à sua condição Divina e nascer como homem, e mais, ser humilhado e tido como o pior dos humanos (a cruz era o suplício reservado aos piores criminosos). Esse é o amor que Ele nos deu por referência. Por isso diz Santa Teresinha: “O amor não conhece medidas… quem ama não sabe calcular”.

Na Cruz Jesus confirma o chamado cristão de amar os inimigos pois “eis uma prova brilhante do amor de Deus por nós: quando éramos ainda pecadores (inimigos), Cristo morreu por nós” (Rm 5, 8). Ele morreu, não em favor de gente amiga, mas de inimigos, pois o pecado nos faz inimigos de Deus. É uma ofensa ao Seu Senhorio e uma adesão à obra do maligno, o inimigo de Deus. Jesus morria por aqueles que O maltratavam e O machucavam. O Seu clamor “Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem” (Lc 23,24) e Sua bondade surpreendente ao curar a orelha direita do servo do sumo sacerdote que o prendia (cf. Jo 18, 10) nos prova Seu amor pelos “inimigos”.

E nós, como seguidores de Jesus, somos chamados a amar os inimigos. Uma atitude concreta disso é o perdão. Jesus disse a Pedro que devemos perdoar “até setenta vezes sete” (Mt 18, 21-22), ou seja, na linguagem bíblica, infinitamente. Mas, o que é perdoar?

O que é dar o perdão?

Temos dois verbos que dizem respeito a coisas parecidas: perdoar e desculpar. Os dois falam de uma situação na qual, de alguma forma, fomos ofendidos, machucados, desrespeitados por alguém. Então, como se portar diante dessa pessoa? Para entender, é preciso saber que pesa sobre um malfeitor/pecador a culpa e a pena. A culpa diz respeito à condenação. A pena é a ação reparadora. Pela salvação de Jesus operada em nosso favor, somos perdoados de nossa culpa, mas temos que pagar a pena. Daí a necessidade da  penitência após a Confissão, o Purgatório após a morte e as Indulgências, que justamente atenuam ou apagam as penas dos pecados. Porém, essa reflexão não é sobre a salvação de Jesus Cristo, é sobre o perdão… Vamos retornar ao assunto.

Des-culpar é, uma vez convencido da culpa do outro, revogar minha condenação à pessoa. Mas de alguma forma espero uma reparação ao mal. Por exemplo: “Eu te desculpo, mas espero que você conserte a maledicência que praticou falando de mim”;  “Eu te desculpo, mas espero que você conserte meu instrumento que você quebrou”.

O perdão é mais amplo e profundo. Para começar, o perdão se dá, mesmo sem saber se existiu uma culpa clara. Talvez tenha sido um mal-entendido. O perdão não só revoga a condenação, mas se está disposto a apagar a pena, se isso for possível e se realmente for bom para todos. Um pai pode perdoar o filho, mas, se vê obrigado a cobrar a pena pela travessura do filho, com um “castigo” educador. Mas, por exemplo, esse mesmo pai pode entender que uma misericórdia maior seja mais educadora, então, apaga a pena, deixando o filho livre do “castigo”.

Importante é entender que revogar minha condenação, ou apagar a culpa, não significa necessariamente que a partir de agora eu me sinto bem com você. Pode ser que o perdão não seja suficiente para apagar a ferida, ou mesmo restituir a confiança perdida. Na Cruz, Jesus disse: “Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem”. Isso não significa que Jesus estava se sentindo bem com aqueles que O maltratavam e O machucavam. O perdão significa que, apesar do mal que você me fez, ou me faz, eu quero seu bem. Isso é perdoar!

Por isso a melhor maneira perdoar é o que Jesus fez na Cruz, ou seja, rezar por aqueles que nos maltratam; isso é amar os inimigos. Rezar não significa pedir que o “inimigo” tenha êxito em suas maldades, mas que ele se converta e que Deus tenha misericórdia. Assim, é preciso desejar que na justiça e misericórdia de Deus, esse irmão encontre realmente o bem na sua vida e seja feliz e salvo.

Tenha certeza de que, no perdão, o maior beneficiado será aquele que pode perdoar. Poder dar o perdão a alguém é uma grande dádiva, uma oportunidade de vida. Isso, por três motivos. Primeiro, porque rezamos no Pai Nosso: “Pai, perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. Como somos pecadores, precisamos muito do perdão de Deus, e quando rezamos, a medida que damos para o perdão de Deus, que é todo amor, é o nosso perdão dado. Isso é muito sério!

Rezar pela pessoa que me machucou

O outro motivo é que, quando não damos o perdão e remoemos a mágoa até chegar, muitas vezes, à vingança, nós nos tornamos escravos do mal que nos foi feito, e assim, de alguma forma, nos tornamos escravos do demônio. Dar o perdão a alguém é fazer o bem, muito mais do que para esse alguém, antes, é fazer o bem a mim mesmo. E se esse perdão for dado na oração, em que se reza pelo irmão, é um bem ainda maior. A oração do ofendido tem poder de libertação sobre a vida do ofendido e também do ofensor.

O terceiro motivo decorre do segundo. O perdão tem o poder de curar a mágoa, restaurar a confiança. Eu disse acima que no perdão nem sempre passamos a nos sentir bem em relação ao irmão que nos ofendeu e machucou. No entanto, o perdão, especialmente se vivido na oração, tem o poder de curar as feridas do mal e até transformá-lo em bem maior. Um relacionamento que superou as crises das ofensas e das mágoas é capaz de se tornar uma relação de amor verdadeiro e maduro que eleva as almas à alegria do amor da Trindade.

Amar os inimigos sempre é um desafio. Em algumas situações muito graves, é verdadeiramente um ato heroico de santidade. Todavia, nunca será tanto quanto fez Nosso Senhor por nós. Sempre será possível, e sempre será o caminho do bem, da cura, da paz.

André Luis Botelho de Andrade
Fundador e Moderador Geral da Comunidade Pantokrator

4 COMENTÁRIOS

    • Olá Regina, a paz!
      Ficamos felizes em saber que gostou do texto.
      O perdão é exigente, mas é um chamado de Deus.
      Abraços fraternos

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