Os desafios da adolescência cristã

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Testemunhar e buscar viver o amor de Jesus atualmente é difícil em todos os espectros da vida de um cristão, o ataque não é pequeno e sempre se está suscetível à sedução do pecado. Isso ocorre em todas as idades, mas acredito que na adolescência a coisa aperta um pouco mais. Digo isso porque sou adolescente e cristã, por natureza é uma fase em que vivemos muitas incertezas, nos sentimos incompreendidos e muitas vezes sozinhos, há muitas dúvidas e pouco autoconhecimento e maturidade. Se essa bagunça emocional já é uma característica própria da adolescência, quando somamos uma perspectiva cristã, a situação se complica um pouco mais.

Nasci em uma família muito cristã, meus pais são membros consagrados da Comunidade e desde pequena eu cresci em um ambiente com uma espiritualidade muito forte; nasci no colo do Amor Ciumento. E esse amor por Jesus – e o amor que Ele tinha por mim – sempre estava comigo, seja pelo incentivo dos meus pais e do meio em que estava, ou pela minha própria sede. Assim foi, até que eu comecei a conviver com pessoas com valores e crenças – ou descrenças – extremamente distintas da minha. Por um lado foi bom porque eu aprendi a conviver com o diferente, o problema foi que o diferente começou a me afetar, profundamente.

Não quero dizer que não podemos tecer questionamentos, Deus não quer filhos alienados que se sintam obrigados a segui-Lo. O cristianismo e a busca pela santidade são uma escolha, uma escolha séria que deve partir da contrição do coração daquele que ama Jesus; mas quando os questionamentos começaram a alterar a minha essência e a Verdade na minha vida, o relativismo se instaurou. E aí que está o maior desafio do adolescente cristão: a capacidade de relativizar. Quer-se muito amar a Deus, mas sem abrir mão das vaidades, das ficadas, das amizades tóxicas e das futilidades – sem abrir mão do mundo.

Quando eu escutava em pregações e em retiros como o mundo nos afastava de Deus, que era risco para a adolescência cristã, eu ficava um tanto perdida, porque ou parecia algo extremamente abstrato, ou que eu tinha que abrir mão de toda minha vida que não englobava a Igreja. Mas não é isso, o tal do Mundo é aquilo que te afasta de Deus. Nossa, mas isso é um preconceito! Pode ser até uma generalização, mas a maioria das experiências mundanas que temos é demasiada, não é regrada e nos afasta de Deus. Ele criou o mundo para ser um reflexo do seu amor, mas hoje é regido principalmente pelo pecado.

Buscando Deus

Eu fiquei bem confusa com isso, porque eu me pegava pensando que por querer uma juventude santa, eu era privada da adolescência normal, que de certa forma Jesus arrancava a minha felicidade. Então, a minha forma de escapismo era a relativização, já que eu não faço as coisas ruins e pérfidas que os adolescentes do mundo fazem, qual é o problema em assistir tal série ou ler tal coisa, ou frequentar “X” lugar? Eu arrumava justificativas para ser coerente e cair na tentação, além do mais eu já era uma adolescente que era de Jesus, Ele já me privava de tantas coisas, não podia me privar da única forma de estabelecer contato com os outros adolescentes “comuns”.

Além de relativizar e de isso ser um baita orgulho, eu comecei a banalizar o amor do Pai, como se eu fizesse um favor a Ele em amá-lo, fora a minha dramatização adolescente natural. E ao invés de justificar os meus pecados e me comparar com os outros adolescentes, eu deveria me questionar se esses “jovens pagãos” estariam vivendo as mesmas coisas se conhecessem a verdade que eu conheço. Porque eu conheço o Jesus que é a Vida, mas eles não. Eu não tenho justificativa. Pode parecer duro, mas, por sermos jovens, achamos que a conversão está lá longe, que ainda tem muito tempo, que é muito radicalismo, que somos apenas inconsequentes, mas se realmente amamos a Deus, nossa busca de santidade deve ser agora, mesmo que com nossas imaturidades, dramas e incertezas. E isso só acontece quando fazemos uma experiência verdadeira do amor de Deus.

Sim, eu sei que muitas vezes nos sentimos sozinhos e isolados, porque há sim um conflito de valores muito grande, não é uma coisa fácil. Às vezes, somos rotulados somente por acreditar, às vezes, dá vergonha de demonstrar a nossa fé, porque hoje parece que ser cristão – acreditar em um Deus – é retrógrado, superficial e brega. Por mais que tenha todas as adversidades, ser um adolescente cristão traz alegrias que a efemeridade das festas e das ficadas não trazem. Jesus completa o nosso coração e só Ele pode proporcionar a nós a adolescência mais sadia de todas.

Eu sei que pode parecer batido e eu mesma achava um tanto brega quando as pessoas falavam que Jesus era a verdadeira alegria, porque Jesus não era o cara que eu gostava, Jesus não era a festa que todas as minhas amigas iam e eu não, Jesus não era a série que eu sabia que era ruim, mas que eu queria assistir de todo jeito porque estava em alta. Jesus, muitas vezes, não assume a forma que nós gostaríamos que Ele assumisse, mas Ele está nas maneiras mais sucintas do nosso cotidiano. Ele está naqueles acontecimentos, nos gestos que vão trazer a alegria eterna para nós. Não pense que uma adolescência com Cristo é uma negação a um estilo de vida, é, na realidade, a forma mais autêntica de viver aqui, esperando o céu.

Se você é um adolescente e se sente sozinho por querer Jesus, saiba que há muitos que lutam como você, por mais que pareça que o mal protagonize em nosso cotidiano, saiba que você não está sozinho e acredite firmemente que apenas o seu jeito de viver, sem precisar de muitas palavras, toca a vida de um tanto de gente.

Ana Clara Gonçalves
Engajada na Comunidade Católica Pantokrator

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