Os sofrimentos que nos corrigem

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sofrimentos

Quando nos deparamos com os sofrimentos, a primeira pergunta que nos vem é: Por que, meu Deus? Esse questionamento como uma reivindicação sai dos nossos lábios facilmente, porque nos sentimos injustiçados, afinal, somos tão “corretos”. “O que fiz de errado para merecer isso?” Mas, no fundo temos a ilusão de que, porque estamos no caminho de Deus, estamos isentos de sofrimento.

Há alguns dias, estávamos meditando na liturgia semanal, no livro de Jó, e um versículo me saltou aos olhos: “Se recebemos de Deus os bens, não deveríamos receber também os males?” (Jó 2,9).

Na verdade, nós idealizamos uma vida perfeita e sem dores e nos esquecemos de que somos humanos e que uma vida perfeita não existe, que se fosse perfeito já não seria plenamente humana.

Existem sofrimentos que nos edificam, que nos corrigem e que geram santidade quando sabemos vivê-los plenamente, como oferta unida ao próprio sofrimento de Cristo.

Sofrimentos para quê?

Quando as dores, as tristezas e males baterem à tua porta, deves, ao contrário dizer: “para que, Senhor”?

Todo sofrimento, toda dificuldade tem um “para que”; existe algo que o Senhor quer nos ensinar, existe algo que Ele deseja realizar em nossa vida e, como Jó, devemos refletir; não deveria eu aceitar também os males?

O Papa São João Paulo II (Salvifici Doloris, Carta Apostólica sobre o sentido cristão do sofrimento humano, Roma, 1984 n.9) afirma: “O sofrimento parece pertencer a transcendência do homem; é um daqueles pontos em que o homem está, em certo sentido ‘destinado’ a superar-se a si mesmo; e é chamado de modo misterioso a fazê-lo”.

Ele quer nos recordar que somos capazes de transcendência; nós fomos criados capazes de ir além; a aceitação de tudo o quanto a vida nos propõe é muito importante quando tratamos do sofrimento.

Quando mudamos a frase e descobrimos o “para que”, somos capazes de aderir e enfrentar de frente. Jó foi provado e perdeu tudo, mas permaneceu fiel ao Seu Deus e, com louvor nos lábios, entendeu que tudo era uma prova de que estava sendo tentado na fé e na confiança em Deus.

Quantas situações se apresentam, em nossas vidas em que desconfiamos de Deus, de Seu amor, em quantas situações nos sentimos esquecidos por Deus!

Quantas vezes dizemos: “de que adianta ir à igreja e rezar?”

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O maior mal não é o sofrimento, mas o medo de sofrer, porque ele gera um mal ainda maior: quando aceitamos, com louvor e paz no coração, isso nos transforma, nos purifica e nos ensina a amar e dar a vida para o outro de forma desinteressada e com humildade, submetendo todas as  coisas a Deus. Especialmente confiando em Seu amor e bondade.

“Um sofrimento vivido na paz não é mais um sofrimento” nos ensina o Cura d’Ars.

Deus corrige porque nos ama

Deus é absoluto, onipotente, Ele é perfeito em Seus caminhos, o Seu olhar está sempre à frente Ele já sabe o fim.

Não precisamos nos debater, precisamos confiar em Seu amor. Ele sempre tira de um mal um bem maior.

Deus entra em nossa vida muitas vezes através do sofrimento, e muitos dos males que Ele nos permite, são para nossa correção, sim.

Uma doença, uma dificuldade financeira, dificuldades na família, elas vão bater à sua porta ou até mesmo sofrimentos e agonias do dia-a-dia que nos desestabilizam.

Deus tem um “para que”, Deus tem algo que ele deseja te ensinar em cada situação.

Ele é um oleiro, devemos ser barro em Suas mãos maleáveis, que se deixa ser tocado moldado da maneira que Ele deseja nos aperfeiçoar.

A graça de viver o hoje

Deus nos corrige através das numerosas cruzes do dia e assim Ele vai nos moldando: uma dor de cabeça, uma dificuldade em casa, a doença de um filho, uma palavra que nos fere, ficar preso no trânsito quando você está atrasado para fazer algo importante.

O que nos cabe fazer é aceitá-las e em cada uma delas devemos pensar: “o que Deus está querendo me dizer, me ensinar?”

Usei aparelho ortodôntico por três anos. Em cada visita ao dentista, era uma apertada maior, elásticos mais fortes, dor de cabeça etc.

Todo mês, eu dizia: “vou mandar tirar, eu não aguento mais para que tudo isso? Não vale a pena.”

Nestes três anos, observei que eu era capaz de superar minha dor, que o ser humano é capaz de enfrentar diversas situações de incômodo e desconforto; e o principal: a coisa pode ficar muito pior ainda; assim, nós superamos.

De fato, não existe nada melhor do que o outro dia, e como nos diz a Palavra: “a cada dia basta seu cuidado” (Mt 6,34).

Recebemos uma graça para viver cada dia, somos capazes de superar a cada dia, situações novas desconfortantes.

Após três anos, olhar o resultado, o bem que me fez o aparelho, é muito bom! Eu já esqueci todas as enxaquecas que sofri neste tempo.

Um estudante que sofre para concluir o seus estudos, muitas vezes trabalhando durante o dia estudando à noite, ao concluir seu objetivo, esquece tudo o que passou porque valeu a pena toda a luta, esforço.

Precisamos ter uma visão realista da vida, uma vida sem dor ou sofrimento não existe, isso só será possível no céu, os sofrimentos do tempo presente nos moldam para alcançar a vida plena, o céu. Por isso não podemos viver hoje aqui na terra amargurados, cheios de murmuração, frios, sem alegrias, mas devemos viver com o coração cheios de esperança e certeza do céu.

A vida é maravilhosa com tudo aquilo que ela exige de nós. “Uma felicidade sem limites iluminará vossos rostos” (Ap 22,5).

Jaqueline Moreira
Consagrada da Comunidade Católica Pantokrator

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