Patriotismo, Valores e Fé

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Na maioria esmagadora dos filmes americanos sempre encontramos uma bandeira dos Estados Unidos. O povo americano é patriota, usam camisetas, possuem símbolos em suas casas, enfim, valorizam a sua pátria, a sua nação e demonstram o seu patriotismo. Aqui no Brasil, até pouco tempo atrás, o povo usava a camisa verde e amarela a cada quatro anos, em época de Copa do Mundo. Será que somos um povo patriota?

Longe de mim comparar nosso país com o povo americano, ou querer que todos sejam patriotas como eles. A comparação utilizada serve apenas para demonstrar o quanto precisamos melhorar quando o assunto é valorizar aquilo que temos, aquilo que possuímos. Precisamos sim cultivar o patriotismo em nós.

O patriotismo é um sentimento que nos leva a amar e respeitar nossa pátria e seus símbolos. Mas não só isso, ser patriota não é apenas assistir o desfile do dia 7 de setembro ou usar uma camisa da seleção brasileira. O patriota é aquele que ama seu país, que valoriza sua história, cultura e terra. Aquele que luta pelo bem comum e cultiva a solidariedade.

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Fé e Patriotismo

Como cristãos precisamos cultivar a vivência do patriotismo. Não há mal algum em ser patriota, pelo contrário, o patriotismo está incluído no quarto mandamento da lei de Deus. O primeiro dos últimos sete mandamentos que tratam nossas relações com o mundo e com o próximo. O quarto mandamento nos ordena que devemos “honrar pai e mãe”. A relação deste mandamento com o patriotismo é tratada por São Tomás de Aquino em sua Suma Teológica:

“O homem se torna um devedor para os outros homens de várias maneiras, de acordo com suas várias qualidades e os vários benefícios recebidos deles. Em ambos os casos, Deus ocupa o primeiro lugar, pois Ele é supremamente excelente e é para nós o primeiro princípio do ser e do governo. Em segundo lugar, os princípios de nosso ser e governo são nossos pais e nosso país, que nos deram nascimento e nutrição. Consequentemente, o homem é devedor principalmente a seus pais e a seu país, depois de Deus. Portanto, assim como pertence à religião dar culto a Deus, também pertence à piedade, em segundo lugar, dar culto aos pais e ao próprio país”[1]

Seguindo o raciocínio do santo podemos afirmar que o patriotismo é um dever de todos, exigido pela própria natureza, vivência da piedade e devoção demonstrada àqueles que cooperam com Deus para o nosso bem. O Cardeal Raymond Burke nos ensina que o patriotismoé uma forma de caridade pela qual vivemos plenamente a verdade de nosso ser em seu relacionamento com Deus e com o resto de Sua Criação”[2], e continua ao afirmar que pela virtude da piedade temos o dever de amar a Deus, aos pais e à Pátria.

O patriotismo é um sentimento que reúne as diversas gerações de uma nação. Através dele “os jovens criam raízes no solo do velho e do velho para enxertar suas experiências nos jovens… a casa é uma lugar onde o dia de passagem faz parte de longas eras passadas e futuras”[3]. Deus nos trouxe à vida no seio de uma família e em uma nação para que ali fôssemos educados pelos pais e formados em uma identidade cultural e histórica.

Toda autoridade vem de Deus

São Paulo nos afirma em sua Carta aos Romanos que devemos nos submeter às autoridades constituídas, “pois não há autoridade que não venha de Deus, e as que existem foram estabelecidas por Deus”[4]. Neste sentido o patriotismo se traduz também pelo reconhecimento da boa ordem que Deus colocou em uma sociedade ao instituir autoridades civis como imagem do poder divino. Aqui podemos perceber a manifestação da providência de Deus, que confia aos homens o cuidado daquilo que é público.

Àqueles constituídos em autoridade cabem respeitar a lei de Deus, promovendo o bem comum. Devem ser honrados não pela sua humanidade, mas pela autoridade a eles confiada, que provém de Deus.

Patriotismo e Valores

Como autoridades constituídas por Deus, os governantes têm o dever de respeitar a moralidade e os valores cristãos. Esse dever se traduz na promulgação de leis que garantam a dignidade, o respeito aos bons costumes, a inviolabilidade do direito à vida, à saúde, à liberdade. Por isso o cristão verdadeiramente patriota não tem a obrigação de obedecer a comandos que sejam contrários à lei moral, pois “se seus mandamentos forem iníquos ou injustos, não devem ser obedecidos, pois nesse caso eles não governam de acordo com sua autoridade legítima, mas de acordo com a injustiça e a perversidade”[5].

Muitos governantes, contrariando a máxima de que toda autoridade provém de Deus, promulgam leis contrárias à moral e aos bons costumes, que ferem a inviolabilidade do direito à vida desde a concepção ao momento da morte natural, leis que afrontam contra os valores da família, entre outras fomentando sociedades dominadas pela cultura de morte, antifamiliar e anti religiosa afrontando a ordem natural da criação de Deus.

A vivência da virtude do patriotismo nos dias atuais enfrenta um grande desafio que é “mostrar o devido respeito a nossa pátria e ao seu governo, recusando-se, ao mesmo tempo, a cumprir leis injustas”[6]. Mas é um desafio possível de ser vivido, pela graça de Deus, que nos leva a testemunhar nossa fé, a defender nossos valores e viver o patriotismo na luta por uma nação que tenha Deus como o centro de toda as coisas.

Como leigos somos chamados a, heroicamente, viver nossa fé em uma cultura tantas vezes secularizada testemunhando a verdade. Ainda que essa vivência exija de nós “o martírio branco da indiferença, do ridículo e da perseguição, e mesmo, em algumas circunstâncias, com o martírio vermelho da morte[7]. Esforcemo-nos na vivência da virtude da coragem, da fortaleza, da piedade e do patriotismo a fim de que elas nos levem a amar o nosso país. Que lutemos pelo bem comum, por uma sociedade que valorize a vida, a solidariedade, a dignidade e reconheça a Deus como fim último de todas as coisas.

Por fim, roguemos a Deus pelos nossos governantes, para que reconheçam que toda autoridade que possuem provém de Deus, que confiou a cada um deles o cuidado das coisas comuns e do bem estar social. Que Ele faça surgir em nossa nação pessoas vocacionadas a essa missão, homens e mulheres à serviço do povo, que respeitem a lei de Deus e que não se comprometam apenas com seus próprios interesses ou vaidades.

Allan Oliveira
Consagrado da Comunidade Católica Pantokrator

[1] São Tomás de Aquino, Suma Teológica
[2] Raymond Leo, Cardeal Burke, Palestra “Piedade Filial e Patriotismo Nacional como Virtudes Essenciais dos Cidadãos do Céu no Trabalho na Terra”, proferida em 17 de maio de 2019 no “Rome Life Forum 2019
[3] Ídem
[4] Carta de São Paulo aos Romanos 13, 1-9
[5] Catecismo Romano, pág. 416
[6] Raymond Leo, Cardeal Burke, Palestra “Piedade Filial e Patriotismo Nacional como Virtudes Essenciais dos Cidadãos do Céu no Trabalho na Terra”, proferida em 17 de maio de 2019 no “Rome Life Forum 2019
[7] Ídem

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