Perder para ganhar

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Crescer em um tempo em que a mentalidade do ganhar é tão forte torna desesperador o pensamento das perdas.

Tudo gira em torno dos ganhos, de somas.

Valem quantas amizades você tem, quantos cargos já assumiu, quanto ganha de salário, quanto investe, quanto economiza, quanto poder possui.

Mais vale aquilo que você possui do que o que não possui.  Chega a ser uma escravidão. Nós livremente nos permitimos ser algemados. E aqui não estou dizendo que se programar para ter uma boa situação financeira seja errado. Aqui, refiro-me a ter equilíbrio.

As comparações

Naturalmente, podemos ser pessoas que não têm a iniciativa de possuir em demasiado. Mas, pela influência da cultura, acabamos inconscientemente sendo seduzidos por esse desequilíbrio.

Nunca estamos satisfeitos com o que possuímos: a grama do vizinho sempre é mais verde que a nossa, já dizia o ditado popular.

Tal pessoa tem determinado carro, determinada casa, determinado trabalho, determinada fama. Há também aquelas comparações que ultrapassam os bens materiais. Meu primo tem tantos filhos, meu vizinho recebeu muitos cumprimentos no seu aniversário, meu amigo é mais amado etc. E em todos esses exemplos, aparece como complemento a frase: “mais do que eu!”

Duas situações podem ser consequência dessas comparações.

A primeira: fazer-se de vítima, colocar-se na postura de pobre coitado: porque eu não tenho condições disso, não consigo fazer aquilo, não tenho inteligência, não tenho quem possa me indicar para determinado trabalho. E assim por diante.

A segunda: “Se ele consegue, eu também consigo” ou “eu sou melhor do que ele”.

Em ambas as situações é extremamente preocupante o que as pessoas fazem quando são envolvidas pela comparação. No primeiro caso, a pessoa passa a deixar de acreditar em si mesma, e com isso desiste de tentar e de se aperfeiçoar, colocando-se abaixo das capacidades que realmente possui. No segundo caso, as pessoas podem dar mais do que têm condições de responder e se afundam em dívidas, a fim de provar, supostamente, ao outro que são aquilo que de fato não são, por uma imposição criada por elas mesmas.

O desequilíbrio instalado gera cegueira, que impede de enxergar o sentido que existe nas perdas e nos ganhos.

A perda que me aproxima de Deus

Sou formada em Direito, devidamente inscrita na Ordem dos Advogados do Brasil, portanto, podendo exercer minha profissão livremente.

Meu sonho sempre foi o de ser advogada. Deus, em Sua maravilhosa bondade, me permitiu realizar esse sonho. Diferente dos meus colegas de classe, eu não tinha um pai empresário, dono de empresa que bancasse minha faculdade. Louvo muito a Deus por Ele não ter permitido que isso acontecesse! Certamente eu não teria entendido todo o ensinamento que Deus me deu com tudo isso. Enfim, foi necessário renunciar a boas noites sono, ao tempo com meus amigos, em razão das horas de estudo. Foram festas as quais não fui, foi o tempo com meus familiares de que não desfrutei. Mas, a cada perda, o sentido ganhava força: era para concluir minha faculdade, realizar o sonho.

Deus permitiu que eu vivesse tudo para realizar meu sonho; permitiu a minha aprovação na OAB. Ele me deu um escritório de Advocacia e, quando digo que me deu, é no sentido propriamente dito. Colocou duas pessoas que abandonaram a profissão me presenteando com o escritório, com todos os bens materiais dentro, sem me cobrar nada.

Ele sempre é bom, mas tudo isso foi necessário para que Ele me pedisse algo que eu fosse capaz de dar. Ele me pediu a profissão. Pediu que eu a perdesse para ganhar algo que nem nos meus melhores sonhos eu poderia mensurar.

A perda, a entrega da minha profissão, foi necessária para que eu pudesse testemunhar a alegria de me doar totalmente a Ele em busca de ganhar a vida eterna.

“O Reino dos Céus é também semelhante a um tesouro escondido num campo. Um homem o encontra, mas o esconde de novo. E, cheio de alegria, vai, vende tudo o que tem para comprar aquele campo”  (Mt 13,44).

Deus não vai te pedir o mesmo que pediu a mim. Ele pede de acordo com a capacidade, com a vocação, o chamado de cada um.

Mas, quais são as perdas que Ele te pede para poder te dar os ganhos d’Ele?

Qual é a sua disposição para vender seus tesouros a fim de ganhar a terra mais preciosa?

Ele não te rouba nada, mas te dá Tudo!

Jéssica Feitosa Fernandes
Postulante da Comunidade Católica Pantokrator 

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