Quais são as suas zonas de risco?

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Imagine uma situação de guerra: em zonas de combate é comum aos homens que compõe um exército possuírem treinamento e conhecimento do risco de ataques e campos minados da região. Entretanto, por saber do perigo iminente ao qual estão expostos, permanecem em estado de atenção e alerta, submetendo mente e corpo ao estresse do campo de batalha. Qualquer falha pode lhe custar a vida, de forma que estes homens jamais se expõe a terrenos descampados de peito aberto. Eles são minuciosamente precavidos, rastejam para não serem percebidos. Camuflam-se para não serem notados.

Sempre estão prontos para matar ou morrer, mas taticamente esforçar-se-ão para evitar confrontos sangrentos, usando a inteligência e a antecipação para render seus adversários e conquistar o território. Na guerra há aqueles que vão para a luta e aqueles que planejam as estratégias.  O seu sucesso não é oriundo do triunfo da morte de forças inimigas, mas da conquista do território almejado. Porém quando o confronto é estabelecido, as mortes ocorrem, visto a necessidade de defesa da causa. Soldados em uma guerra não estão ali para defenderem a própria vida, mas uma causa.  Mas afinal, o que esta situação tem em comum com nossas vidas?

Esquecemos que a todo tempo estamos travando batalhas nesta guerra da vida humana, por vezes conosco, mas em grande parte das vezes com outros. Talvez não tenhamos pensado na vida desta maneira, como uma guerra, e até soe como exagero em um tempo que a sociedade está vivendo para garantir meios de sobrevivência como: comer, descansar, relacionar-se, trabalhar, pagar contas, ter certo conforto e se divertir. Estas coisas são básicas e necessárias para a vida cotidiana e não devem ser encaradas como problemas, pois conferem dinâmica à vida. Reclamar desta dinâmica é não querer viver.

O fato é que ninguém consegue conduzir a vida a termo, consumindo-se unicamente nestas necessidades básicas, sem que sejam permeadas pela ação do nosso ser. O ser humano – composto por um corpo que tem razão, vontade, emoções, sentimentos, afetos, sensibilidade – é aquele que deve conduzir e dar forma aos aspectos da vida cotidiana, o que nos faz retomar a alusão que fazíamos à guerra. É conhecido por todos que guerras ocorrem por conflitos de interesses entre partes distintas, o que torna, desta maneira, mais palpável comparar nossa própria vida a esta realidade, tendo em consideração que o dia todo vivemos estes conflitos em meio a nossos relacionamentos, de forma irrefletida, mas vivemos.

Em vista estas condições, estabeleceríamos confrontos, colocando ao outro lado da trincheira alguém que temos dificuldade de relacionamento/e definitivamente não gostamos ou o demônio, mas raramente acusaríamos nosso caráter. Exatamente, quem está ao outro lado da trincheira, nosso maior inimigo, somos nós mesmos! Deveríamos conhecer este inimigo muito bem: em cada fraqueza, cada limitação, cada ponto fraco ou forte. Em meio a nossas reações tempestuosas, será que continuaríamos a agir da mesma forma para ganhar esta guerra, sabendo que nossas ações (de forma consciente ou inconsciente) podem nos ferir gravemente, nos matar ou  continuar sem ter consciência do que se combate?

Conhecer as zonas de risco 

Precisamos conhecer nossas zonas de risco e o que há de cada lado das trincheiras. O demônio é nosso aliado de um lado. Percebemos isto cada vez que optamos por permanecer na guerra buscando sensações de prazer fazendo uso de algum de nossos sentidos (visão, audição, tato, olfato, paladar), ou querendo nos poupar: fisicamente, mentalmente ou espiritualmente em qualquer situação que somos chamados a nos privar, nos sacrificar em beneficio à outro. Isto deforma a missão à qual o homem foi chamado, transformando-o em um rascunho, limitando-o a ser como um animal incapaz de se sacrificar, se doar, de ser livre para se colocar à prova, ficando distante de tomar para si o chamado de Deus: ser imagem e semelhança. Rouba-nos a possibilidade de liberdade em escolher pelo amor.

Nossa inconsequência, irreflexão, “fazer só o que é gostoso” coloca em uso cada pequena arma que o demônio nos dispõe. Desta forma, optamos por matar, a cada mal escolha, o “eu” verdadeiro capaz de se apossar do chamado de Deus. Ao outro lado da trincheira, está Cristo, nosso Salvador, Aquele à quem imitando e amparados pela graça podemos ser o que Deus nos chama a ser!  Descobrimos assim a beleza e a grandeza de nosso chamado. Conduzidos por Ele, através do Espírito, somos impulsionados corajosamente a usar a inteligência e vontade, e no caminho do autoconhecimento travamos as batalhas necessárias conquistar os território nesta trajetória rumo ao céu, conhecendo o que realmente nos faz feliz.

“Por isso, se tua mão ou teu pé te fazem cair em pecado, corta-os e lança-os longe de ti: é melhor para ti entrares na vida coxo ou manco que, tendo dois pés e duas mãos, seres lançado no fogo eterno. 9.Se teu olho te leva ao pecado, arranca-o e lança-o longe de ti: é melhor para ti entrares na vida cego de um olho que seres jogado com teus dois olhos no fogo da geena.” (Mt 18, 8-9)

Para prepararmo-nos para esta guerra precisamos:

  1. Ter consciência que por herança estávamos ao lado errado da trincheira: O pecado original nos roubou a liberdade, fazendo-nos viver como animais sem o uso da razão e da vontade. Entenda, que quando me refiro a animais, não é em um termo pejorativo, mas apenas reconhecendo que a capacidade humana é infinitamente superior. É verdade que através do batismo somos reconciliados, porém há um caminho a percorrer para que sejamos purificados de todas as nossas tendências e fraquezas, e com o uso da razão e vontade, abandonar os apelos de nosso apetite sensível/concupiscível e passar a fortalecer o apetite racional/irascível que nos conduz na conquista de bens árduos, ainda que soframos com desconfortos ou profundamente.

Somos nosso maior inimigo! Cedemos a nossa própria carência e desejo o tempo todo. Comemos mais do que precisamos e o que não é necessário, perdemos todos os dias para o modo soneca do despertador que programamos, e justificamos nossas quedas com erros dos outros! Outros podem ter errado conosco, sim e daí? Erraram com Cristo e não vemos nenhum relato nas escrituras dEle chorando sua dor de cotovelo. Temos Cristo como modelo de homem, ser humano. Nossa medida é alta justamente para não ficarmos dando atenção a detalhes sem importância. Estamos apegados as nossas fraquezas, quando deveríamos estar contando com a força de Deus e nos determinando na busca do como mudar nossos hábitos ruins que nos conduzem a queda.

  1. Conhecer nossa real disposição em travar batalhas e escolher o lado da trincheira para permanecer: Precisamos ser honestos conosco e identificar que há duas tendências (comum a todos seres humanos) com as quais não podemos bater de frente, mas que as venceremos pouco a pouco em cada batalha: Preguiça e Orgulho. Não há um “modus operandis” para vencer a preguiça, ou parar de nos importarmos com as ações dos outros. Vamos nos determinando a ser e assim fazer um pouco mais a cada dia! Precisamos identificar dentro de nós se mesmo com tudo nos puxando para o lado oposto desta guerra, desejamos ser amparados na graça de Deus e nos colocar na luta e independente de quantas batalhas percamos, independente dos ferimentos, nos determinaremos a ir em busca da conquista deste território chamado liberdade? Com uma meta por vez, e sendo extremamente determinados em cumpri-la, chegaremos ao nosso destino.

  1. Analise seu inimigo: Faça um mapeamento dos riscos, dos pontos fracos e fortes para avançar na conquista: Quais são nossas fraquezas? Em qual ponto sempre caímos? Quais são nossas tendências? O que as despertam? Se levarmos estas análises a sério esta lista será cada vez maior, o que não é ruim. Isto demonstra que estamos empenhados, rastejando sorrateiramente dentro de terras inimigas e esta análise deve fornecer informações para desenvolvimento do planejamento tático, para movimentar-nos e vencer a batalha.

Em contrapartida, somos criaturas humanas criadas por Deus, portamos dons e é fundamental que os reconheçamos para desenvolvê-los e aplicá-los enquanto permeamos a dinâmica da vida. Saber aplicar nossos dons no nosso cotidiano, no cuidado com o outro, no nosso trabalho, em nossa ordem financeira, no nosso planejamento do lazer, para desenvolver nossa personalidade e sentir que estamos vivendo a vida inteiramente, ainda que estejamos sempre nesta guerra!

  1. Foi atingido durante a batalha? Em meio a luta confundiu o lado da guerra e se deixou levar? Retome sua posição!: Se recolha para o ambulatório de feridos. Afaste-se por um instante, respire, reconheça o fato, analise o que precisa ser mudado e recomece. Sem dramas! Não perca tempo lamentando seu fiasco, ou sua humilhação. Não dê tanta importância ao que lhe aconteceu. Encare como positivo.

Cair faz parte do aprendizado e nos faz mais fortes. Acolha o que está sentindo, mas não faça disto a lente para ver a situação. Emoções e sentimentos fazem parte do ser humano, mas normalmente usam altos graus para miopia e fazendo-nos ter uma percepção exacerbada do que aconteceu. Sentimentos não devem ser negados, mas não devem ter voz ativa. Devemos dar preferência para avaliar as situações racionalmente, diferenciando o que realmente aconteceu e o que este acontecimento nos fez sentir.

  1. O risco de morte é constantemente atrelado à guerra. Pense frequentemente na morte: Se morrermos hoje o que gostaríamos que falassem de nós? (Escreva o que seria lido no dia do seu velório sobre você.) Este desejo corresponde de fato com a realidade do que vivemos? Temos nos esforçado para ser quem Deus nos chamou a ser? Temos cumprido nosso dever de estado? Estamos de fato inteiramente presentes, prestando e dando atenção as pessoas que convivem conosco? Pensar na morte é uma ferramenta concreta para fixar nossos pés na realidade do hoje e evocar a vida!

  1. Cansou? Aprenda a descansar e não a desistir: Em meio a uma crise de cansaço precisamos identificar o que nos descansa (sem que nos roube da realidade): Chorar? Ficar sozinho? Passear? Rezar? Conversar? Tomar um café? Entregue suas preocupações e seus cansaços à Deus, e tenha fé que Ele revigorará suas forças! Há duas promessas que pessoalmente gosto de refletir: “Eu não o esquecerei nunca!” (Is 49,15) e “Vinde a mim, todos vós que estais cansados e carregados de fardos, e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meujugo e sede discípulos meus, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para vós. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.” (Mt 11, 28-30). A felicidade que Deus deseja para nós começa aqui, e começamos a ver seus traços conforme caminhamos rumo ao amadurecimento. Precisamos procurar sempre: aceitar o sofrimento inevitável, amar uma pessoa e lutar por um ideal. Este pode ser o mapa que guia nossos passos no caminho desta guerra, e que nos faz permanecer diante de todas as batalhas.

“Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé.” (II Timoteo 4, 7)

Que ao exemplo de São Paulo possamos em busca da verdade, encontrar-nos conosco nesta guerra, determinarmos pela luta de cada batalha em cada dia, na certeza que ao nosso lado está sempre Aquele que nos sustenta, manifestando no mundo a beleza dos filhos criados por Deus!

Que Deus nos abençoe!

Larissa Machado
Postulante da Comunidade Católica Pantokrator 

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