Quaresma, para que serve?

Estamos iniciando a Quaresma. Esse termo é usado pela Igreja para definir o período litúrgico de 40 dias que se inicia com a Quarta-Feira de Cinzas e segue até o meio dia do Sábado Santo. Foi instituída para que toda a Igreja imite o exemplo de Nosso Senhor Jesus Cristo que jejuou por 40 dias no deserto.

Quaresma é tempo favorável para a redescoberta e aprofundamento do autêntico discípulo de Cristo. Não se conhece Jesus estando “do lado de fora”, mas seguindo o Senhor, entrando nos Seus mistérios.  Devemos mergulhar nesses dias num grande retiro espiritual, arrumando um espaço em meio a nossos afazeres cotidianos. É tempo de profunda interiorização, de fazer uma viagem para dentro de nossa alma a fim de encontrarmos Aquele que é mais íntimo a nós do que nós mesmos. É tempo e sair da dispersão, das frivolidades, da fragmentação.

Um dos maiores papas da Igreja, São Leão Magno (séc. V) ensina que as finalidades da Quaresma são: “celebrar o mistério da nossa salvação com pureza da alma e do corpo; fazer penitência pelas culpas cometidas; exercer obras de piedade; atrair sobre si a misericórdia divina, avivar a confiança e renovar todo o homem interior”[1].

A Quaresma nos leva a viver com mais intensidade e profundidade a relação interpessoal com Deus; leva-nos a sentir o pecado antes de tudo como ofensa a Deus e ruptura da amizade com Ele; leva-nos a uma atitude de partilha do amor misericordioso. Leva-nos, enfim, ao reencontro com a nossa verdadeira identidade de filhos de Deus.

A espiritualidade da Quaresma se caracteriza também por uma oração mais assídua e intensa e pela escuta mais atenta e prolongada da Palavra de Deus, que ilumina o conhecimento dos próprios pecados, chama à conversão e infunde confiança na misericórdia de Deus.

Quaresma é para mudar de vida

É tempo de parar para refletir sobre o rumo que tenho dado à minha vida, se tenho vivido como quem deseja o céu, a vida eterna, ou como quem ainda está por demais preso aos “bens que passam”. Qual tem sido a minha prioridade? É preciso fazer um sério e refletido exame de consciência, para procurar mudar de vida, buscar uma purificação, ser mais santo e menos pecador.

É necessário abrir-se para a palavra da salvação, confrontar-se com o Evangelho. O pecado é uma traição e infidelidade em relação a Deus, que nos ama e deseja o nosso bem. Jesus, que veio para procurar os pecadores (cf. Lc 9, 10), revela o bom coração do Pai que ama, espera e é o primeiro a dar o abraço da reconciliação (cf. Lc 15, 20).

A conversão cristã não é somente uma conversão moral, mas é conversão para Deus, para que aprendamos a pensar como Deus pensa. No plano da vida, assim, exige-se aquela mudança íntima e radical pela qual o homem começa a pensar, a julgar e reordenar a sua vida, movido pela santidade e pela bondade de Deus. A Quaresma se torna, assim, uma escola de purificação e iluminação.

O itinerário quaresmal, no qual somos convidados a contemplar o Mistério da Cruz, é tornar-se semelhante a Cristo na morte (cf. Fl 3, 10), para realizar uma conversão profunda da nossa vida: deixar-se transformar pela ação do Espírito Santo, como São Paulo no caminho de Damasco; orientar com decisão a nossa existência segundo a vontade de Deus; libertar-nos do nosso egoísmo, superando o instinto de domínio sobre os outros e abrindo-nos à caridade de Cristo. É momento favorável para reconhecer a nossa debilidade, acolher, com uma sincera revisão de vida, a Graça renovadora do Sacramento da Penitência e caminhar decididamente para Cristo.

Da escravidão do orgulho para a liberdade da humildade

A fonte de toda a vivência quaresmal é Cristo e a Sua Paixão. Ele é a ressurreição e a vida (cf. Jo 11, 25). Ele é o grão de trigo que morre para produzir muito fruto (cf. Jo 12, 24).  Ele é o caminho e vida para quem quer segui-lO, odiando a própria vida neste mundo, a fim de conservá-la para a vida eterna (cf. Jo 12, 25). Ele é a água viva em cuja fonte jorra para a vida eterna (cf. Jo 4, 14). Ele vai transformar o nosso corpo miserável, tornando-o semelhante ao Seu Corpo glorioso, graças ao poder que Ele possui de submeter a Si todas as coisas (cf. Fl 3, 21; cf. Fl 3, 8-14). De fato, “aquele que não conheceu o pecado, Deus o fez pecado por nós, para que nele nós nos tornássemos justiça de Deus” (2Cor 5, 21).

Um dos principais frutos de uma Quaresma bem vivida culmina na Páscoa com a libertação daquele que é a raiz de todo pecado e que perfidamente nos persegue: o pecado do orgulho, que leva à desobediência.

As práticas quaresmais, quando vivenciadas como convém, nos desprendem de nós mesmos, revelando que não somos nada, e quão tolos somos quando, inflamados de soberba e orgulho, nos julgamos melhores que os outros; e nos colocamos no cento do universo.

A penitência, o jejum e a oração autêntica acabam por manifestar em nós os filhos do orgulho que alimentamos, muitas vezes, até a saciedade: o egoísmo, a inveja, a impaciência e intolerância com que tratamos os outros, as idolatrias que criamos para nos satisfazer; o espírito crítico que faz de nós juízes implacáveis de nossos irmãos, enquanto somos complacentes com os próprios pecados e infidelidades etc… Dito de outra maneira: percebemos nossa grande fragilidade.

Descobrimos que nos deixamos cegar pelas enganações do demônio. Descobrimos que não somos nada, que somos incapazes de todo bem, a não ser pela graça do Espírito. Em suma, descobrimos quanta desordem há em nosso interior. A Quaresma nos ajuda a colocar as coisas no seu devido lugar, reordenando o nosso interior para Deus.

O verdadeiro jejum nos direciona a comer o “verdadeiro alimento”, que é fazer a vontade do Pai (cf. Jo 4, 34), libertando-nos do espírito da desobediência que nasce do orgulho. Se Adão desobedeceu ao mandamento do Senhor “de não comer o fruto da árvore da ciência do bem e do mal” (cf. Gn 2, 17), com o jejum desejamos nos submeter humildemente a Deus, confiando na Sua bondade e misericórdia.

A humildade é a verdade, como afirma Santa Teresa de Jesus. Se o diabo é o pai da mentira, a humildade é, então, exorcista. Pela oração, praticamos a humildade, pois o orgulhoso não reza; é preciso se rebaixar para rezar. Pela oração, encontro-me comigo mesmo; e com minha fragilidade. O jejum nos defronta com nossas fraquezas. Caem as máscaras e vemos nossos defeitos. A caridade também nos humilha porque, vendo a necessidade daquele que eu ajudo, percebo minha miséria, percebo que também sou necessitado. E com isso se abre o caminho para a intimidade com Deus.

Somos, assim, purificados dos vícios e pecados e conduzidos à recuperação da nossa dignidade e do nosso equilíbrio interno; numa palavra: somos recapitulados, conduzidos à vida nova, fruto da Páscoa de Cristo. E assim, aquela fragmentação dá lugar à integridade, à inteireza, à posse de si mesmo para poder entregar-se inteiramente a Deus. Pois o que Deus realmente espera de nós não é a oferta das coisas e bens, senão a oferta de nós mesmos a Ele.

A vivência da Quaresma é, como se pode deduzir, um combate. Uma batalha contra o demônio, que devemos viver inspirados no modo como Cristo o enfrentou (cf. Lc 4, 1-13).

Mas, temos um trunfo: combate conosco a Virgem Santíssima, aquela que gerou o Verbo de Deus na fé e na carne, e que nos leva a imergir como ela na morte e ressurreição do seu Filho Jesus rumo à vida eterna. Confiemo-nos, pois ao seu maternal cuidado.

Que possamos chegar ao Sábado Santo bem diferentes de como iniciamos esse itinerário.

Uma santa e frutuosa Quaresma para você!

Kátia Maria Bouez Azzi
Consagrada da Comunidade Católica Pantokrator, Teóloga e Filósofa

[1] Citado por REUS, J. Batista, Curso de Liturgia, São Paulo, Cultor de Livros, 2018, p. 190.

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Category: Artigos Pantokrator

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