Santidade cotidiana para todos os povo

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1_6Falar da santidade de João Paulo II é, na verdade falar da santidade de Karol Woltyla. Nascido na Polônia em 20 de maio de 1920, a santidade de Wltyla foi forjada no sofrimento. No campo pessoal perdeu sua mãe e o irmão mais velho muito cedo, e o pai, o único que lhe restava, viveu sua páscoa eterna quando karol era ainda um jovenzinho. Já nessa época deparou-se com os horrores do Nazismo, e pouco mais tarde enfrentaria os males do Comunismo. Diante desses vazios humanos, descobriu a trilha de São João da Cruz, o itinerário da alma do Nada ao Tudo. Olhando sua história, parece que Deus preparou os ingredientes de um grande santo: o sofrimento, a grandeza de espírito e o encontro com uma espiritualidade consistente que foi capaz de dar respostas às mais profundas indagações de sua alma. Recentemente, Dom Piero Marini, mestre de celebrações litúrgicas pontifícias, falando da santidade de João Paulo II disse: “não era a santidade dos primatas, mas a santidade da vida cotidiana: à qual o Senhor lhe havia chamado primeiro em Cracóvia e depois, como bispo de toda a Igreja durante o seu pontificado. Ele realizou de forma extraordinária as coisas ordinárias da vida!”

Unido a isso tudo, surge a vocação ao sacerdócio. Logo ele descobre o sentido de doar a própria vida. Diante de um sacerdócio tão fecundo não demora e se torna Bispo, Cardeal, até que em 16 outubro de 1978 é eleito o Papa.

Seu pontificado seria o terceiro mais longo da história, quase 27 anos. Tão longo quando fecundo, seu pastoreio deixou marcas profundas em quase todos os campos da Igreja.

Marcado por um ardor missionário desde os tempos de seu sacerdócio suas primeiras palavras são inesquecíveis: “Não, não tenhais medo! Antes, procurai abrir, melhor, escancarar as portas a Cristo!” Foi com esse espírito que alavancou a concepção de uma “Nova Evangelização”, e como prova desse espírito missionário fez missão pelo mundo todo, visitou 123 países, em 1,2 milhão de quilômetros percorridos. Nada além de cumprir o que havia prometido: ao virar papa, João Paulo II avisou que levaria a religião aos quatro cantos do mundo.

Nesse ardor ele volta seus olhos para os jovens. Com sua presença carismática consegue comunicar aos jovens a mensagem de Cristo. Daí surgiu as Jornadas Mundiais da Juventude. Dentre elas, a de Paris, ficou marcada pela provocação que a imprensa francesa lançou sobre ele, desafiando-o que tão velho não era capaz de atrair a juventude. Um dia depois de mais de 1 milhão de jovens aglomerarem junto a ele, os jornais estamparam a pergunta: “O que atrai os jovens nesse velhinho?”

Mas também João Paulo II pode ser chamado o papa da família. Deu à Igreja a memorável Exortação Apostólica Familiaris Consortio em 1981, e a “Carta às Famílias”, em 1994, além de instituir o Encontro Mundial das Famílias.

Mas para dar fundamento antropológico, espiritual e teológico aos ensinos do magistério da Igreja nas questões referentes ao amor humano, e assim responder aos jovens e às famílias as questões sobre sexualidade e afetividade, João Paulo II construiu um edifício que se chama “Teologia do Corpo”. De forma extraordinária, usando as catequeses de quarta feira, ele colocou pedra sobre pedra sobre esse magnífico edifício que mostra a grandeza do projeto de Deus para o amor entre o homem e a mulher.

Dentre tantas marcas, talvez o amor à Verdade seja a maior delas. João Paulo II foi um verdadeiro guardião da Verdade de Cristo em tempos de relativismo. Sua primeira Encíclica, a “Redemptor Hominis” que dava o tom de seu pontificado, já deixava a marca da Verdade. Mas foi na “Veritatis Splendor” e “Fides ET Ratio” que a Verdade refulgiu com toda a sua beleza e força. Esse traço do zelo por aquilo que sabia verdadeiro é testemunhado por Dom Piero Marini que mostra um traço da santidade de Wojtyla, “tinha a valentia de um homem ‘convicto’”. E lembrou que o papa polonês, por vezes, disse: “Eu sou um Papa bom, próximo, amável na vida e nos relacionamentos com os outros, mas eu me transformo quando se trata de defender os princípios!” Dom Marini diz que João Paulo II falava “com tanta convicção, coragem, que quase assustava. Lembro-me da mesma forma quando em Varsóvia, durante um evento, ele defendia a vida no ventre da mãe. Eram momentos em que emergia toda a convicção que estava dentro e que era a base de seu comportamento de cada dia”.

Nesse zelo pela Verdade, e que as correntes teológicas fossem verdadeiro serviço a ela, o primeiro desafio de João Paulo II, como recentemente afirmou bento XVI em uma entrevista, foi desmascarar a falsa idéia de libertação contida na teologia marxicista da libertação, para expor a autêntica vocação da Igreja na libertação do homem.

No campo da política internacional João Paulo exerceu papel importante em inúmeras circunstâncias. Mas seu gigantismo apareceu no empenho em vencer a cortina de ferro do mundo soviético-comunista. Através do apoio estratégico ao partido “Solidariedade” da Polônia, e articulações políticas com Ronald Reagan dos EUA, Margareth Tatcher da Inglaterra, Ele se torna o grande ícone da derrubada do muro de Berlim em 1989. Esse empenho teve um sentido místico e martiriológico no atentado que sofreu em 13 de maio de 1981, dia de Nossa Senhora de Fátima. Em suas aparições a virgem em 1917, portanto 1 ano antes da revolução Comunista na Rússia em 1918, pedia a consagração da Russia ao seu Imaculado coração e, então, “a Rússia se converterá e terão paz, se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja, os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas, por fim o meu Imaculado Coração triunfará.”

Penso que ao falar de João Paulo II é preciso lembrar de seu empenho ecumênico e pelo diálogo inter religioso. Nesse sentido seu pontificado foi importante na superação das tensões com os Judeus e a aproximação dos cristãos ortodoxos.

Para falar em termos de escritos magisteriais, os números também impressionam: foram 14 Encíclicas, 15 Exortações Apostólicas, 24 Constituições Apostólicas, 83 Cartas Apostólicas, o Catecismo da Igreja Católica e o Novo Código de Direito Canônico, promulgados em seu pontificado, além de ricas reflexões em discursos e homilias. Também deixou 5 livros de sua autoria.

Dedicando todo o seu pontificado a Virgem Maria no lema “Totus Tuo”, com ela foi até o cume do sacrifício ao ofertar ao mundo suas dores frutos da debilidade da doença – mal de Parkinson, e da velhice. Para mim João Paulo II era sobretudo aquele que sempre me apontou a Cruz, mas com o brilho da ressurreição. Ele viveu a Cruz até o fim pregando-a no silencio de sua agonia, mas espalhou no mundo a glória da ressurreição do Senhor, pois seu rosto, seus gestos, seus valores eram a imagem do fulgor da Vida de Cristo.

André L. Botelho de Andrade
Fundador da Comunidade Católica Pantokrator

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