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Sede santos, porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo

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“Sede santos, porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo.”, de fato não se trata de uma opção, bem como a estrutura gramatical da frase nos impele. É imperativo! E como Deus jamais nos atribui um sonho impossível, basta seguirmos o caminho que Ele nos deixou a luz do Mestre, Jesus Cristo.

O chamado à santidade 

É importante salientar logo no início que inexiste qualquer possibilidade de exceção ao chamado a sermos santos, doutores da lei, bem como exímios matemáticos que me perdoem, pois nesse chamado não há brecha, nem muito menos aproximações. É certo e imutável, como assim é o Autor.

Sede santos, porque Eu sou santo (Lv 11, 45; cf. 1 Ped 1, 16)

Ainda se restar dúvida, trago as palavras do Concílio Vaticano II:

“Munidos de tantos e tão grandes meios de salvação, todos os fiéis, seja qual for a sua condição ou estado, são chamados pelo Senhor à perfeição do Pai, cada um por seu caminho.”

Ao ler e sentir esse chamado, me lembro que quantas vezes me perguntei e, também, fui atrás de cursos para encontrar a “minha missão de vida”. Fazer o quê? O óbvio deve ser dito. Nesse caso, está escrito há mais de mil anos. Diante de tal revelação, vem um entusiasmo e animação para dar o melhor de mim neste projeto, único e irrepetível, que Deus quis, desde toda a eternidade, para Ele: «antes de te haver formado no ventre materno, Eu já te conhecia; antes que saísses do seio de tua mãe, Eu te consagrei» (Jer 1, 5).

 

É normal pensar que, para sermos santos, é necessário ser bispo, sacerdote, religiosa ou religioso. Somos tentados a concluir que é uma missão reservada apenas àqueles que têm muito tempo para dedicar à oração. Esqueça! Vire a página, pois está longe de ser assim. Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas coisas de cada dia. Estás casado? Sê santo, amando e cuidando do teu cônjuge como Cristo fez com a Igreja. És um trabalhador? Sê santo, sendo honesto e competente no teu trabalho ao serviço dos irmãos. És avó ou avô? Sê santo, ensinando as crianças a seguirem Jesus. Estás investido em autoridade? Sê santo, renunciando aos teus interesses pessoais. E para isso, deixe que a graça do teu Batismo frutifique num caminho de santidade.

Dois inimigos da santidade 

Como toda escalada, e para sermos santos é preciso subir a montanha, devo chamar a atenção para alguns obstáculos que, como neblina, tira o sentido da santidade: o gnosticismo e o pelagianismo.

O gnosticismo supõe uma mente sem Deus e sem carne. Ao longo da história da Igreja, bem como a própria vida de Cristo, está claro que a medida de perfeição das pessoas é o seu grau de caridade, e jamais a quantidade de dados e conhecimentos que possam acumular. Os «gnósticos» julgam os outros segundo o quanto conseguem, ou não, abarcar profundamente certas doutrinas. Trata-se de uma mente sem encarnação, incapaz de tocar a carne sofredora de Cristo no próximo. O mistério desencarnado, em última análise é preferir uma Trindade sem Cristo, um Cristo sem Igreja, uma Igreja sem povo.

O gnosticismo deu lugar a outra mentira antiga, pois o pai da mentira tenta de tempos em tempos novas estratégias para capturar a mente humana e, para isso: Ele virá travestido de grande humanitário, portador de paz, prosperidade e abundância, não como meios de nos conduzir a Deus, mas como fins em si mesmos.[1]. Assim, o poder que os gnósticos atribuíam à inteligência, alguns começaram a atribuí-lo à vontade humana, ao esforço pessoal. É o popular “o que vale é a intenção”. Surgiram, assim, os pelagianos e os semipelagianos. A inteligência deu lugar para a vontade. Vejamos que ambos possuem a soberba, o primeiro de forma clara e contundente, já o segundo demonstra a soberba velada. Para sermos santos é preciso lembrar «isto não depende daquele que quer nem daquele que se esfoça por alcançá-lo, mas de Deus que é misericordioso» (Rm 9, 16) e que Ele «nos amou primeiro» (1 Jo 4, 19). Uma vontade com humildade.

À luz do mestre 

Em toda boa escalada e em tempos de escuridão do ser, é preciso deixar-nos sermos guiados pelas palavras de Jesus e recolher o seu modo de transmitir a verdade. Jesus explicou, de forma simples, o que é ser santo quando nos deixou as bem-aventuranças (cf. Mt 5, 3-12; Lc 6, 20-23). Essas compõem a identidade do cristão, vivê-las no dia-a-dia da nossa vida é a fórmula para sermos santos.

Algumas características das santidade no mundo atual 

Paciência e mansidão, pois «se Deus está por nós, quem pode estar contra nós?» (Rm 8, 31). Com tal solidez interior, o testemunho de santidade, no mundo acelerado, volátil e agressivo, é feito de paciência e constância no bem.

Alegria e sentido de humor

Longe de um espírito retraído, tristonho, amargo, melancólico ou um perfil sumido, sem energia, os santos são capazes de viver com alegria e sentido de humor. Ser cristão é «alegria no Espírito Santo» (Rm 14, 17). Deixemos que o Senhor nos arranques da nossa concha e mude a nossa vida para realizar o que pedia São Paulo: «Alegrai-vos sempre no Senhor! De novo o digo: alegrai-vos!» (Flp 4, 4).

Ousadia e ardor

A santidade é ousadia, é impulso evangelizador que recapitula o mundo. Para isso ser possível, o próprio Jesus nos exorta: «não temais!» (Mc 6, 50). «Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos» (Mt 28, 20). Estas promessas permitem-nos partir e servir cheios de coragem que o Espírito Santo suscitava nos Apóstolos. Isto é parresia, a liberdade de uma existência aberta, porque está disponível para Deus e para os irmãos (cf. At 4, 29; 9, 28; 28, 31; 2 Cor 3, 12; Ef 3, 12; Heb 3, 6; 10, 19).

Comunidade

A comunidade na qual os membros cuidam uns dos outros com a presença de pequenos detalhes do amor, lugar da presença do Ressuscitado.

Em oração constante

São João da Cruz recomendava os futuros santos que se procurasse «andar sempre na presença de Deus, seja ela real, imaginada ou unitiva, conforme o permitam as obras que estamos a realizar»[2]. Contudo, para que isso ocorra, devemos dedicar tempo só a Deus, na solidão com Ele, na adoração e oração de intimidade verbalizada. Para Santa Teresa de Ávila, a oração é «uma relação íntima de amizade, permanecendo muitas vezes a sós com Quem sabemos que nos ama»[3]. Quero ressaltar que isto é dito todos.

No silêncio, é possível discernir, à luz do Espírito Santo, os ditames de santidade que Deus sonhou para cada um. Caso contrário, todas as nossas decisões são decorações, que, como cortinas pesadas acabarão por o recobrir e sufocar. Para todo discípulo, é indispensável estar com o Mestre, escutá-lo, aprender d’Ele, aprender sempre.

Luta, vigilância e discernimento 

Quando se pensa que chegamos ao cume da montanha, vamos lembrar que na parte de cima venta muito mais. É uma luta permanente que requer força e coragem para resistir às tentações do demónio e anunciar o Evangelho. Esta luta permite cantar vitória todas as vezes que o Senhor triunfa na nossa vida. HOSANA! HOSANA! Não se trata apenas de uma luta contra o mundo e suas tendências mundanas, que tem o objetivo que nos atordoar e nos tornar medíocres sem empenhamento e sem alegria. Muito menos se trata de uma luta contra a fragilidade e as inclinações (a preguiça, a luxúria, a inveja, os ciúmes, etc.). Mas, acima de tudo, é também uma luta constante contra o demónio, que é o príncipe do mal. O próprio Jesus celebra as nossas vitórias. Alegrava-se quando os seus discípulos conseguiam fazer avançar o anúncio do Evangelho, superando a oposição do Maligno, e exultava: «Eu via Satanás cair do céu como um relâmpago» (Lc 10, 18).

A Sagrada Escritura convida-nos a resistir «contra as maquinações do diabo» (Ef 6, 11) e a «apagar todas as setas incendiadas do maligno» (Ef 6, 16). Para lutar temos as armas poderosas que o Senhor nos dá, como alpinistas com suas claves que perfuram o gelo e roupas que protegem do resfriar de nossas almas, são essas:

  1. a fé que se expressa na oração;
  2. a meditação da Palavra de Deus;
  3. a celebração da Missa;
  4. a adoração eucarística;
  5. a Reconciliação sacramental;
  6. as obras de caridade;
  7. a vida comunitária;
  8. o compromisso missionário.

 

Andemos, santos do hoje, firmes e vigilantes ao encontro d’Aaquele que é o início e o fim, o Rei dos reis, o Todo Poderoso. Rumo à santidade, encarnada e incondicionalmente fiel a Cristo.

[1] O Anticristo e seus disfarces. https://padrepauloricardo.org/blog/como-sera-o-anticristo Consultado e disponível em 16/04/2019 às 23:36
[2] Graus de perfeição, 2: Opere (Roma 4 1979), 1079.
[3] Vida autógrafa de Santa Teresa, 8, 5: Opere (Roma 1981), 95.

 

Thiago Casarini
Postulante da Comunidade Pantokrator

Thiago Casarini
Postulante da Comunidade Católica Pantokrator

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