Passei um grande tempo da minha vida buscando compreender o significado de ser dom ao outro. Não sou tão experiente assim e também não tenho muito tempo de caminhada firme dentro da igreja, mas sabemos que essa é uma expressão comumente usada em nosso meio Cristão, tantas vezes vazia de sentido e de uma compreensão superficial sobre o termo. É igualmente comum as pessoas louvarem e agradecerem a Deus pelo dom da vida do outro. Entretanto, o que realmente é ser dom?

Há aqueles que confundem ser dom com a qualidade dos talentos e louvam a Deus pelos talentos do irmão e não de fato pelo dom que ele é. Há aqueles que fazem menção ao termo como uma qualidade utilitarista que outra pessoa apresenta. Como tudo nesta vida, nós só podemos chegar a uma compreensão adequada do termo quando mergulhamos na meditação em comparação da nossa vida com a vida de Cristo e a forma como viveu seu ser homem. Esse é o melhor e mais seguro caminho para trilhar a fim de compreender, ainda sem toda a profundidade necessária, a beleza do ser dom.

A causa de grandes males é o fato de não nos conhecermos devidamente, é distorcermos o conhecimento próprio”. Santa Teresa D’Ávila.

O dom só pode se manifestar a partir de um certo grau de liberdade interior que ocorre dentro do processo de maturidade humana, percorrido na busca de autoconhecimento sobre nossa verdade através da luz de Deus. São Clemente de Alexandria, que viveu no século IV já dizia: “Se quiseres conhecer a Deus, procura antes conhecer-te a ti mesmo”. Para atingirmos o sonho de Deus para nossas vidas, que nos chama à santidade, devemos percorrer o caminho que os santos nos ensinam sobre nos conhecer. Compreender o que é ser Dom, caminha nessa via sobre o Dom de Deus.

O dom não se faz, não se fabrica, não se utiliza de qualidades humanas, ou de talentos específicos, o dom é. Se então compreendemos que o dom é, sabemos também que nós só podemos ser e existir n’Aquele que é, e esse ser é Deus. É d’Ele que provém todo dom, pois Ele é o verdadeiro dom. Então quando agradecemos o dom da vida do outro, ou o dom da nossa vida, estamos contemplando a Verdade de Deus que nos habita.

Entretanto, para assumirmos essa verdade à qual Deus nos convida para sermos participantes de Sua vida bem-aventurada, é preciso caminhar continuamente pelo autoconhecimento, para somente então, livre de toda convicção distorcida de nós mesmos, possamos assumir livremente esse caminho com Cristo e apreender a forma como o ser dom se manifesta.

Disse-lhe, pois, a mulher samaritana: Como, sendo tu judeu, me pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana? Jesus respondeu, e disse-lhe: Se tu conhecesses o dom de Deus, e quem é o que te diz: Dá-me de beber; tu lhe pedirias, e ele te daria água viva.” (Jo 4,9-10).

Assim como a samaritana, estamos muitas vezes parados em nossas capacidades, limitados no nosso autoconhecimento enganoso, fazendo de nós mesmos nossa potência, querendo ser no lugar de Deus e nos distanciando de Sua verdade.

A Cruz

A manifestação do dom passa pela Cruz, pela morte de nós mesmos, pelos sofrimentos da vida nos quais não controlamos e com a dificuldade habitual de aceitar que não está mais em nossas mãos. É quando entendemos através de nossa vida de oração que Deus nos chama a cumprir nosso dever, não de qualquer maneira, mas entregues e confiantes em suas mãos, assumindo a liberdade de filhos, encontramos em meio às dores a verdadeira alegria de manifestar através de nossos corpos a vida de Deus. O dom se manifesta exatamente naquilo que humanamente nós, sozinhos, não podemos entregar, mas assumindo a graça de Deus, permitimos que Sua vida nos sustente e fazemos a experiência profunda com a providência divina, que é providenciar através de nossa humanidade limitada, porém decididamente com firme vontade, ser em nós o que nós jamais poderíamos ser. Reconhecendo nossa pobreza, podemos então contemplar as maravilhas que Deus fez e faz por nós, e através das purificações restabelece conosco Sua imagem e semelhança.

“Porém, temos este tesouro em vasos de barro, para que transpareça claramente que este poder extraordinário provém de Deus e não de nós.”
(II Coríntios, 4 )

Somente a partir da experiência com o Dom de Deus podemos manifestar o nosso ser Dom, que não se limitará aos gostos humanos, aos elogios, ao reconhecimento. Nós conhecemos o dom através de nossa vida de oração, quando nos deixamos guiar e nos colocamos a caminho para realizar aquilo que Deus espera de nós. O dom irá se manifestar a partir das necessidades de Deus e não das nossas.

Que não tenhamos medo de nos conhecer. Não poupemos tempo rezando com sua história, com nossos medos e traumas. Não paremos neles, mas sempre permitamos que Deus mostre Sua verdade, Sua permissão e Sua bondade, para que nesse caminho sejamos profundamente impactados pelo Seu amor e resgatados em Sua imagem e semelhança, produzindo no mundo os frutos os quais Ele deseja e não nos limitando aos nossos cansaços, podendo sempre cantar suas misericórdias, pois “A criação aguarda ansiosamente a manifestação dos filhos de Deus.” (Romanos, 8 -19).

Que Deus nos abençoe.

Larissa Martins Machado
Postulante na Comunidade Católica Pantokrator

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