A vida cotidiana nos pede a todo tempo a reflexão de nossos atos. Interiormente, Deus nos convoca, consciente ou inconscientemente, com uma voz leve que ressoa em todo nosso ser, a refletir sobre como estamos agindo e para onde estamos indo. Ele nos concede a liberdade e a responsabilidade de executarmos no mundo atos deliberados pela nossa razão, pensados no impacto que cada pequeno ato gera em nossa natureza humana e no mundo.

Num impulso egoísta, podemos estar pensando apenas em nossos interesses, em nossas ambições, fazendo da nossa vida uma tentativa frustrada de satisfazer nossas vontades, sendo pessoas mal-humoradas e desagradáveis para convivência em sociedade, negando a escuta da doce voz de Deus ou até mesmo distante, ao ponto de não conseguir ouvir.

Por outro lado, muitas vezes nos deparamos com pessoas incríveis, que, colocando a vida a serviço do outro, lançam-se fora de si mesmas, alimentam todos ao seu redor com sua vontade e coragem, executando no mundo sua razão de existir: dar a vida, seja na circunstância que for, por aqueles que tocam sua própria vida. São pessoas despojadas de sua autoimagem, que se preocupam pouco ou nada com os adjetivos que lhes são atribuídos, sendo bons ou ruins; alegram-se por estar no mundo fazendo o bem a todos ao seu redor. São intensas, mas ponderadas, profundas e reflexivas, engraçadas e firmes. Talvez você já tenha convivido com alguém assim e percebido o quão é agradável, gratificante e edificante estar ao lado dessas pessoas, que expressam na vida, nos atos e, quando necessário, nas palavras, a beleza e razão do que Deus as chamou a ser. São pessoas sempre muito ocupadas, mas que se apropriam da graça do uso do tempo, e sempre encontram tempo para todos.

Tomai, comei; isto é o meu corpo, que será entregue por vós”.

Talvez você esteja tentando se recordar de alguém assim e nunca tenha tido a agradável experiência de conviver com alguém assim. O fato é que isso comprova que talvez humanamente você nunca tenha mesmo encontrado alguém assim, mas mostra também o quanto sua experiência pessoal com Cristo talvez esteja limitada. Cristo veio ao mundo fazer-nos n’Ele filhos de Deus. Sendo Verdadeiro Deus e Verdadeiro Homem, restaura nossa natureza decaída, mostrando o caminho que devemos trilhar para alcançar a vida eterna. Começamos, já nesta vida, como Cristo nos mostra, nosso chamado de ser novos Cristos no mundo, revestidos e fortalecidos, apoiando-nos na graça que Ele próprio nos concede. Ele deseja trazer de volta a vida do homem, a razão para a qual fomos criados, ou seja, a alegria de participarmos da vida bem-aventurada de Deus. Fomos criados para uma vida plena em Deus, que não se inicia apenas após nossa morte, mas já agora. Ao dar Seu Corpo e Seu Sangue como alimento, Ele nos sustenta e nos impele a darmos de nós mesmos também inteiramente ao outro, despertando no mundo o desejo adormecido no homem corrompido pelo pecado de retornar ao seu princípio.

 

Configurar-se a Cristo

Viver a realidade da vida humana, a entrega total do que somos nos faz viver com alegria as dificuldades e encontrar a beleza de configurar nossa vida à vida de Cristo. Ele também foi julgado por muitos, teve Sua vida “na boca do povo”, foi perseguido e humilhado, mas em momento algum Ele deixa de pregar com a própria vida a razão do que foi chamado a ser: “Filho do Deus Altíssimo”! Essa é a verdade que nos sustenta, que nos lança a vencer os desafios e superar as dificuldades, que nos faz tomar consciência do fardo, do peso das nossas lutas, mas a alegria que vem de corresponder a um chamado divino nos traz esta alegria e leveza incontestáveis! Mesmo que sua fé esteja enfraquecida, mesmo que a situação que você esteja vivendo hoje seja muito difícil, dê-se a oportunidade de se instalar por inteiro na sua realidade, de viver no seu cotidiano todos os aspectos do serviço aos que lhe cercam. Fale sobre você, ouça sobre o outro e então você verá a vida tomar a forma da Cruz, e terá a mesma experiência de Cristo, sendo completamente livre e feliz.

“Ama a Verdade, mostra-te como és, sem fingimentos, sem receios, sem respeito humano. Se a Verdade te custa a perseguição, aceita-a; se te custa o tormento, suporta-o. E se, pela Verdade, tiveres que sacrificar-te a ti mesmo e a tua vida, sê forte no sacrifício” (São José Moscati).

Que possamos viver nossos sacrifícios pautados na verdade do amor, que talvez nos revele, sim, quão grande é nosso desafio diário, mas que, pelo desejo de descobrir a alegria e a beleza da razão do nosso chamado, sejamos livres para manifestar e contagiar o mundo com a verdade da nossa vida, estampando em cada dia a felicidade que não passa, que não se limita nos juízos de terceiros, mas que acende em nossa alma o desejo sem limites do céu.

Que Deus os abençoe.

 

Larissa Martins Machado
Postulante da Comunidade Católica Pantokrator

 

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