Solidão x solitude

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solidão

Encontrar-se rodeado de pessoas não significa estar livre de solidão. Encontrar-se só nem sempre é motivo de tristeza, aliás, pode ser motivo de grande alegria!

As frases acima podem soar contraditórias, mas no decorrer do texto, mergulharemos um pouco na complexidade da solidão…

Formas de solidão 

Existe a solidão gerada pela perda de entes queridos, pelo afastamento físico de pessoas com quem se tinha uma relação mais próxima, pelo fim de relacionamentos devido a conflitos ou rejeições. Neste caso, a pessoa se vê concretamente ausente de outros com quem possa compartilhar afetos.

A “solidão acompanhada” é quando, embora cercado de outras pessoas, o indivíduo se sente isolado pela falta de identificação com suas respectivas ideias, interesses, maneiras de encarar a vida.

Existe também a solitude. É a “solidão que faz bem”. Ela pode acontecer de maneira intencional, quando nos recolhemos para uma melhor interiorização, ou pode ocorrer de maneira ocasional, quando, diante das situações não desejáveis de solidão, a pessoa consegue crescer na descoberta de si mesma e estabelece uma melhor relação com Deus.

Tendência quanto estamos sós 

A solidão nos ajuda a perceber nossas verdades. Tendemos a nos questionar e a encontrar respostas. Há pessoas que não suportam se confrontar com suas próprias verdades. Odeiam a ausência de pessoas, e quando estão sós, precisam de algo para quebrar o silêncio: música, televisão, entretenimento com redes sociais, prazer de degustar algo para comer ou beber, e tantas outras “fugas”. Mal sabem que estão “escondendo a poeira debaixo do tapete”.

Se não nos permitimos alguns “mergulhos” de solidão, abrimos mão do prazer de nos conhecer melhor. Neste mergulho nos deparamos com características indesejáveis sim, mas também encontramos tesouros escondidos! E o melhor: experimentamos com maior facilidade a Presença de Deus!

“Ele encontra Seu povo no deserto, nas solidões repletas de urros selvagens. Ele o envolve, o instrui, vela sobre ele como a pupila de Seus olhos. ”(Dt 32,10).

Deus nos revela quem somos com amor. E isto faz toda a diferença! Pois justamente este amor incondicional nos cura da falta de aceitação de nossos limites. Aquele que é Perfeito nos ama tal como somos! Reconciliados com nossas verdades, ganhamos a Paz. E assim, Deus preenche o vazio de nosso interior.

“Por isso a atrairei, a conduzirei ao deserto e lhe falarei ao coração.” (Os 2,16)

Desfrutando da solitude

Esta Oração de Santa Faustina ilustra muito bem seu deleite na solitude:

Solidão – meus momentos prediletos!
Solidão – mas sempre Convosco, Jesus e Senhor!
Junto ao Vosso Coração passo horas agradáveis
E junto dele minha alma encontra descanso.
Quando o coração está repleto de Vós e cheio de amor,
E a alma arde como fogo puro,
Então no maior abandono a alma não sente solidão,
Porque descansa em Vosso seio.
Ó solidão – momentos da mais elevada companhia!
Embora abandonada por todas as criaturas,
Afundo-me toda no oceano de Vossa divindade,
E Vós ouvis ternamente as minhas confidências”. (Santa Faustina- Diário 1699)

Santo Afonso Maria de Ligório, no “Tomo III – Da Solidão do Coração”, nos ensina que para buscarmos a solitude, não basta estar com o corpo num lugar recolhido. A alma precisa se desapegar de todas as criaturas. Os pensamentos devem estar todos voltados para Deus.

Ele também nos mostra que “Para se separarem das criaturas e tratar somente com Deus, muitos não podem retirar-se para os desertos, conforme talvez quisessem. Compreendamos bem, que para gozarmos da solidão do coração, não são precisos desertos. Os que se virem obrigados a tratar com o mundo, desde que tenham o coração livre de apegos ao mundo, poderão possuir a solidão do coração e estar unidos com Deus até no meio das ruas, das praças e dos tribunais. — É necessário, todavia que o espírito se eleve muitas vezes a Deus, para o que serve o uso frequente das orações jaculatórias”.

Até aqui vimos a importância da solitude como um local de encontro com Deus e consigo mesmo. Mas não nos deixemos mergulhar no egoísmo do isolamento, afinal somos seres criados para o amor.

Devemos também nos questionar sobre as fontes das solidões não escolhidas. Será que sem querer afastamos as pessoas por existir algo em nós que precisa ser trabalhado? Será que, mesmo em meio a tantas pessoas nos sentimos “um peixe fora d´água”? Se sim, quais as nossas divergências com estes do nosso convívio? Estamos inseridos em ambientes que nos conduzem ou afastam de Deus? Será que à nossa volta há pessoas solitárias? Nós as acolhemos?

“Cumpre amar ao próximo como a nós mesmos. Para demonstrar-lhe esse amor, não devemos fugir à sua companhia, e para patentear o amor que temos a nós mesmos devemos estar contentes, quando estamos sozinhos. Pensai em vós mesmos, diz São Bernardo, e depois nos outros. Se nada te obriga a fazer ou receber visitas, fica contigo mesmo e entretém-te com teu coração; mas, se algum motivo te impõe esses deveres, cumpre-os em nome de Deus, tratando o próximo com toda a amabilidade e caridade”. (São Francisco de Sales)

Luiza Torres de Jesus
Postulante da Comunidade Católica Pantokrator

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