Vamos ter que nos educar sim, mas apesar do MEC

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Propor como tese que a cobrança do uso da norma culta da linguagem numa sociedade seja um dos itens da cesta básica de instrumentos de dominação de uma classe social sobre outras é absolutamente válido e procedente.

Afinal, dizer “nós pega os peixe” é tão compreensível quanto dizer “nós pegamos os peixes”.

Ninguém é melhor ou pior que ninguém se usar uma forma ou outra – mas quem sabe o certo acha que manda mais que quem não sabe.

Até aí tudo bem. A liberdade de pensamento e de expressão, a academia, as universidades, institutos e similares estão aí para formular, propor, discutir e aclarar esse tipo de questão.

Porém, há outro tipo de organização: a que se responsabiliza pela condução de atividades de interesse público, aplicando recursos públicos dentro das normas existentes.

Pode abrigar pessoas das mais variadas opiniões e pontos de vista. Mas se trata de organismo comprometido com certos parâmetros e princípios que o obriga e aos quais serve.

Daí o espanto ao ver o Ministério da Educação chamar a si a tarefa de abrir uma polêmica, publicando e distribuindo obra que contesta os fins e o emprego da norma culta da língua.

Há excelentes razões para indagar se o menino que se sai bem no Enem, dominando a raiz quadrada e sabendo intimidades sobre a mitocôndria, será necessariamente mais bem preparado que outro, ignorante sobre isso, mas que saiba muito bem outras coisas.

Mas isso o MEC não discute. Com ninguém.

Nem mesmo as universidades se atrevem a pensar alternativa.

O MEC detém o monopólio para fixar o que um jovem brasileiro bem preparado tem que saber, e o Enem detém o monopólio da apuração disso.

Diferenças regionais, distância, singularidades, nada disso importa. Apesar de todas as trapalhadas, o MEC diz e todos devem obedecer.

É um espetacular exemplo do emprego de gestão do saber como instrumento de poder, usando a máquina pública no controle do acesso e da distribuição do conhecimento.

Impondo o que “cai” no Enem, o MEC determina de Brasília toda a educação brasileira, do Oiapoque ao Chuí.

Nem a Krupskaia conseguiu tanto – e olha que Lênin, o marido dela, podia pra caramba (a expressão fica legitimada já que, segundo o MEC, “nós pega os peixe” também pode…)

Em qual MEC devemos acreditar: no que nos afirma saber tudo e cobra o que devemos ensinar e aprender?

Ou nesse outro que se satisfaz em entender o que o outro quis dizer?

O que quer que seja o MEC, ele está fazendo muito mal ao país.

Vamos ter que nos educar sim, mas apesar do MEC.

Edgar Flexa Ribeiro é educador, radialista e presidente da Associação Brasileira de Educação
Fonte: Carmadélio

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