Existe um segredo de fidelidade que precisamos conhecer: algo precioso que irá nos capacitar a ser cada vez mais fiéis: viver a fidelidade, não de atos heroicos e sensacionais, mas nas coisas simples. Costuma-se dizer que uma pessoa sabe amar quando o seu amor se traduz em detalhes; e que é fiel quem chega ao pormenor delicado na sua dedicação a alguém.

A fidelidade das pequenas coisas é escondida. Só Deus a contempla. E essa é a razão da alegria interior, da paz de espírito: Deus contempla aquele que Lhe é fiel e, um dia, o último na terra e o primeiro no céu, chamá-lo-á servo “bom e fiel” e lhe dirá “alegrai-vos de que os vossos nomes estejam escritos nos céus”. A fidelidade é um caminho certo de santidade.

Dizia Santa Teresinha que devemos buscar ser como uma florzinha do campo, comum, que o mundo não admira, mas que exala o seu suave perfume somente para Deus e nisso deve consistir nossa felicidade, guardando a pureza do ser somente para que Ele contemple…e admire.

A oportunidade de realizar grandes feitos apresenta-se muito poucas vezes na vida. Ao contrário, as coisas pequenas são tão frequentes e constantes que a fidelidade em cumpri-las é, sim, quase heroica, e vamos nos tornando fortes, pois construímos nossa “casa”, nossa vida interior, sobre alicerce que, embora ninguém veja ou tome conhecimento, é firme e seguro.

“O que é pequeno, pequeno é; mas aquele que é fiel no pequeno, esse é grande” (Santo Agostinho). É que todas as grandes coisas da vida se compõem de insignificâncias. Aquele que é fiel tem a alma transparente, capaz de refletir a luz de Deus.

Fidelidade e obediência

A obediência sempre fará parte do caminho de fidelidade, como garantia de fidelidade. Foi por ela que Jesus salvou a humanidade. Da mesma forma, pela obediência, a Virgem desatou o laço da desobediência de Eva. De todos os ensinamentos que a Virgem Maria dá aos seus filhos, talvez o mais belo e importante seja essa lição de fidelidade, diz São João Paulo II. O “sim” que se deu para sempre e sem condições. O “faça-se” de Maria na Anunciação chega à sua plenitude no “faça-se” silencioso que repete junto à Cruz. Ser fiel é não atraiçoar nas trevas o que se aceitou em público.

Muitas vezes, os apelos do mundo corrompem nossa inteligência e nós acabamos agindo com as nossas próprias leis com uma falsa esperteza, não considerando que Deus tem uma plano para cada coisa que permite acontecer em nossas vidas, coisas inimagináveis, de um amor que não conhece limites, nem em si, nem nas coisas fora de si. Não fomos criados para ser autônomos e sim viver e trilhar os caminhos da lei de Deus, na liberdade de filhos amados do Pai e herdeiros de toda graça. A maior prova de amor é a fidelidade.

Desta maneira, a alma fiel guarda uma enorme sede de Deus, a aceitação da Sua vontade, coerência e constância, que experimenta e testemunha o autêntico amor. Ser fiel é responder ao Amor incomparável do Deus ciumento amando-O com uma fidelidade, “não apesar das adversidades, mas propriamente nas adversidades.” (São João Paulo II ).

Uma fidelidade incondicional que, por conhecer o fogo devorador do desejo amoroso de Deus por si, seja capaz de uma resposta incondicional a esse Amor e também nos grandes desafios de cada dia, nos acontecimentos, nos fatos, nos estudos, no trabalho, na luta, nos afazeres em casa, com os amigos, com nossos familiares, nas coisas simples e pequenas do cotidiano. É preciso em “tudo” dar respostas de fidelidade a Deus que nos ama até o ciúme, deseja a nossa inteireza para Si. Deus não aceita partilhar “o amado” com ninguém. Quer o amado só para Si; somos nós, você e eu. Se existimos, é porque antes Deus nos desejou . Quis ter-nos para Ele. Quem já foi tão desejado assim? Ele deseja tomar posse do nosso coração, da nossa capacidade de amar sem restrição, em todas as circunstâncias, sem “mas”, “se” ou “depedende”.

Tanto amor exige amar, pôr de verdade o coração, uma fidelidade determinada e decidida nas pequenas e grandes coisas, na vida, em tudo que somos. Nosso coração tem somente que descansar na fidelidade. Nossa fidelidade a Deus é resposta à sedutora fidelidade de Deus a nós. E isso não é impossível, pois é um chamado para todos, é um chamado de santidade comum. Não consiste em realizar tarefas impossíveis, nem grandes feitos de vez em quando! Mas está abrigada sob o manto da constância e firmeza de propósitos.

Se cultivarmos os nossos pensamentos santos e nos entregarmos à vontade de Deus, confiantes no Seu amor por nós, estaremos aptos, pela Graça, a responder todos os dias a esse Amor com pequenas obras, perdoando mais do que o costume, não lesando o irmão às escondidas, não amando apenas na superficialidade, não se esmerando em fazer apenas o que aparece, mas em especial o que fica às ocultas, por ter, para Deus, um sabor especial. Veja os santos como são “discretos”; isso é lindo!

Alguns aspectos práticos

Precisamos assumir uma postura coerente com aquilo em que cremos, uma postura de fé , oração e vigilância dos nossos pensamentos, de tal forma a NÃO ter cumplicidade com a sensualidade, os adultérios, sugeridos ou explícitos, a incitação a comportamentos agressivos como marca de auto-afirmação, a banalização do sagrado, das músicas, dos programas de televisão, séries, redes sociais, mesmo sendo veículo de comunicação sadio, tem sido um meio através do qual o demônio tem assediado nossos lares com todo tipo de lama, chegando a desviar a atenção do amor entre os familiares e influenciando na formação do nosso modo de pensar . “Não vos deixeis enganar: más companhias corrompem bons costumes”. São Paulo, em sua sabedoria, já tinha claro que o cristão deve procurar outros cristãos para tê-los como verdadeiros amigos. Santa Teresinha e Santa Teresa d’Ávila insistem que o homem de Deus deve buscar conversas que falem de Deus.

As situações surgem e nós precisamos ter os nossos corações bem enraizados na verdade real; e no sentido do sagrado que existe em nós e no outro, como somos “caros para Deus” e na nossa adesão ao amor de um Deus El Shaddai-Deus Todo Poderoso que recolhe sob Si Seus filhos, numa atitude de proteção amorosa, esse amor incondicional por nós , “nos protege das infidelidades”, mas é necessária a nossa adesão a esse amor, é preciso decidir-se e render-se a ser amado até o ciúme. Isso é ser de Deus e de Deus somente, tendo uma terrível aversão por trair esse amor.

É urgente a necessidade de ter coragem e ousadia de se arriscar e renunciar às imundícies do mundo, suas maldades, em situações cotidianas que podem roubar o pensamento santo e, com ele, a fidelidade. Tais situações podem chegar à nos por meio dos filmes que incitam o sensualismo, violência e terror, as músicas profanas, lugares de divertimento, literaturas que professam subliminarmente ideias e concepções contrárias à Verdade, levando o homem à supervalorização de sua inteligência, perdendo a graça de discernir o que é bom e o que não é , o que é certo e o que é errado.

E desta forma, se afasta do Critério, do Parâmetro que é o Bem Supremo, perde a “bússola” e a pessoa passa a viver como os animais. Por isso nossos pensamentos têm sido violentamente atacados pelo maligno, pois eles são a fonte de nosso agir. Santifiquemos nossa mente e seremos fiéis a Deus.

Somos nós, os fiéis a Deus, que temos a responsabilidade de, no mundo deformado pelo mal, preservar sem deformações a verdadeira fé e a verdadeira moral. Mesmo à custa de nosso bem-estar, reputação, de renúncias, de ser criticado e de sofrer.

É preciso lembrar que a Igreja traz em seu seio homens que, pela fidelidade incondicional à Igreja, preservaram a sã doutrina da salvação. Se não fossem esses homens, heróis da fidelidade, talvez nunca teríamos ouvido falar de Jesus Cristo.

E nós seguiremos espalhando no mundo uma fidelidade, não de atos heroicos, mas das pequenas e simples coisas cotidianas. Na verdade, a ninguém que saiba amar é necessário ensinar fidelidade. Para o coração que ama, não é um peso ser fiel. Porque o amor eterno e verdadeiro respira fidelidade e dela se alimenta. A pessoa fiel encontrou a melhor expressão do amor e, por isso, é feliz com as exigências que a sua fidelidade lhe impõe. A fidelidade de Deus é, pois, a causa da fidelidade humana. A primeira fidelidade de todas é o “amor à verdade”.

Lucimara Vieira
Consagrada da Comunidade Católica Pantokrator

Fonte:
GÓMEZ, Javier Abad, Fidelidade, Ed. Quadrante
SÃO JOÃO PAULO II, Exortação apostólica pós-Sinodal “Christifideles laici”
Bíblia de Jerusalém
Revista O Pão da Vida n°25, Comunidade Pantokrator

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