Você sabe lidar com o passado?

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A nossa história de vida diz muito daquilo que somos hoje. Nossa personalidade, ações, gestos, valores e atitudes são frutos das experiências que vivenciamos no decorrer da nossa vida, enfim, nosso passado diz muito sobre nós. Algumas pessoas amadurecem por conta dele, outras porém ficam presas a ele e não conseguem dar passos. E você, como lida com seu passado?

Memórias e Experiências do passado 

Tudo o que vivenciamos nos toca de alguma forma, as experiências mais marcantes do passado vão sendo acumuladas durante nossa vida. Assim como as férias na casa dos avós, uma viagem especial, o primeiro tombo de bicicleta, as festas em família, o primeiro dia de aula, a primeira professora, as brincadeiras da infância e tantas outras boas lembranças registradas em nossa memória que nos trazem um sentimento de alegria e gratidão por tudo de bom que vivemos.

Porém há também aquelas lembranças que não são tão agradáveis: uma violência física, a perda de alguém querido, a separação dos pais e tantos outros eventos traumáticos que ficaram no passado. Tais lembranças geram em nós diversos sentimentos como a tristeza, a solidão, a dor e o desespero.

passado

Existem pessoas que se prendem ao passado e não conseguem seguir em frente, ficaram pendências a serem resolvidas, faltou o perdão, não foi possível superar aquela perda, enfim, as situações não foram resolvidas. Algumas pessoas conseguem se lembrar com detalhes fatos ocorridos há anos, inclusive revivendo toda a intensidade de sentimentos “como se fosse hoje”. O passado é um fardo pesado, um “bichinho de estimação” que precisa ser alimentado quase que diariamente para que aquelas experiências vividas não caiam no esquecimento. O passado se torna algo frio e assustador afetando diretamente aquilo que sou hoje, é como um rio congelado, sem vida, que não pode ser rememorado de outra maneira nem com outro olhar, é algo imutável.

É preciso descongelar o rio!

“O nosso passado não é um rio congelado que nos prende e paralisa, mas um rio cálido e fértil que nos enche de vida e nos encoraja a caminhar” (Santo Agostinho)

Santo Agostinho nos revela uma grande verdade, nosso passado não é imutável, pela ação de Deus em nós é possível ordená-lo para o amor. A partir do momento que seguimos o conselho do santo, descongelamos este rio enchendo-o de vida e de fertilidade, um rio que corre para frente, para o futuro e que alimenta o nosso presente.

Precisamos usar o nosso passado para crescer, amadurecer, mas para isso é preciso olhar para ele, isso pode ser doloroso, mas é necessário. É preciso fazer memória do nosso passado, das lembranças negativas, das situações de abandono, solidão, tristeza, perda e perceber que o Senhor estava ali cuidando de nós, presente em cada uma daquelas situações, jamais o Senhor nos abandonou ou se esqueceu de nós: “… eu não me esqueceria de ti, eis que te gravei nas palmas da mão, teus muros estão continuamente diante de mim” (Isaías 49, 15-16).

Quando olhamos para o nosso passado com esta convicção à ação de Deus, que se realiza através do Seu Espírito que habita em nós, cura o nosso coração, nos reconcilia com o nosso passado e nos insere na dinâmica de ordenar toda a nossa história de vida para o amor.

“Quando resolvemos descongelar o rio de nossas vidas, olhando o Senhor que nos olha, fazendo memória do nosso passado e nos reconciliando conosco, com os outros, com os acontecimentos e com Deus, aquele rio congelado do nosso passado, que antes nos prendia e paralisava, torna-se rio fecundo que nos leva à cura e à libertação para o amor: tudo o que essa água atingir se tornará são e saudável e em toda parte aonde chegar a torrente haverá vida”[1]

Quando fazemos a experiência de olhar o nosso passado passamos a encontrar Deus em nossa história, chegamos à conclusão de como Ele é bom. Essa certeza gera em nossos corações um sentimento de gratidão pela nossa história, por tudo aquilo que vivemos e nos faz seguir em frente na certeza que independente daquilo que vivi, há ali a ação de Deus, a manifestação do Seu amor, que jamais me abandonou.

Allan Oliveira 
Consagrado da Comunidade Católica Pantokrator 

[1] NOGUEIRA, Maria Emmir Oquendo. Tecendo o Fio de Ouro, Edições Shalom, 2013, pág.37.

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