Home DESTAQUE Chernobyl: 25 anos da maior catástrofe nuclear

Chernobyl: 25 anos da maior catástrofe nuclear

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Símbolo do regime que vigorou na antiga URSS por mais de 70 anos. A usina explodiu, mas seus efeitos radioativos – à maneira do “vírus” comunista – ainda persistem.

O arrasador desastre atômico ocorreu na madrugada de 26 de abril de 1986, a poucos quilômetros de Pripyat, na Ucrânia, então dominada pela União Soviética. O reator central nº 4 na Usina Nuclear de Chernobyl — originalmente chamada de Vladimir Lênin — explodiu, liberando uma imensa nuvem radioativa por mais de 200.000 km². Grandes áreas da Ucrânia, da Bielorrússia e da Rússia foram contaminadas. Apenas cinco trabalhadores da empresa termonuclear sobreviveram. Pripyat é hoje uma cidade fantasma.

Apesar de a radiação ter sido 400 vezes maior que a da bomba atômica de Hiroshima, as autoridades comunistas mantiveram tudo em segredo, alertando a população somente dois dias depois… Tarde demais.

O governo soviético procurou esconder o desastre também aos países vizinhos, não os prevenindo sobre o risco de contaminação, até que altos níveis de radiação foram detectados em algumas nações européias…

A ONU prevê que até nove mil mortes causadas por câncer estejam diretamente ligadas a Chernobyl, enquanto diversas organizações estimam que esse número não reflete a realidade, podendo aproximar-se de 100 mil. Outras enfermidades decorrentes da contaminação radioativa poderão elevá-lo a mais de 200 mil! Segundo especialistas, serão necessárias décadas para que a zona de Chernobyl se torne imune a partículas radioativas.

Para lembrar os 25 anos do pior desastre nuclear do mundo e dar a conhecer a atual situação na região, Catolicismo entrevistou o repórter cinematográfico Marcos Magossi, 34 anos, que recentemente visitou aquela zona perigosa e pôde constatar os efeitos da apocalíptica explosão nuclear da usina soviética.

*     *     *

Catolicismo — Como o senhor conseguiu autorização para fazer uma reportagem em Chernobyl?

Sr. Marcos Magossi — Há um órgão destinado a esse tipo de contato nas proximidades da usina de Chernobyl, ao qual devem se dirigir os interessados em fazer alguma reportagem. A autorização vem acompanhada de uma série de normas que os interessados devem seguir.

Catolicismo — Foi-lhe permitido permanecer à vontade no local?

Sr. Marcos Magossi — Não. Houve restrições das autoridades, como não se aproximar muito de certos locais mais perigosos.

Catolicismo — Quais foram as suas primeiras impressões?

Sr. Marcos Magossi — Depois que atravessei a cidade de Pripyat, cheguei a uma distância suficiente para observar bem o ocorrido. A cidade está despovoada, deserta, apenas permanecem os prédios e as construções em geral. Diante das casas, nas garagens ou nas ruas vêem-se automóveis, mas tudo abandonado. Nos jardins das residências – muitas com as portas abertas – podem-se ver brinquedos de crianças largados pelo chão, utensílios domésticos e de trabalho, empoeirados. Certamente muitos dos pertences dos moradores foram saqueados. Entrei numa antiga escola onde ainda se podem ver os restos do dia em que a cidade foi evacuada. Na cozinha, por exemplo, há panelas sobre o fogão, pratos colocados sobre as mesas. Nas salas de aula, sobre as carteiras, vêem-se lápis, borracha, cadernos, enfim, material escolar. Tudo deixado por lá quando as crianças tiveram que sair às pressas. Abandono total.

Catolicismo — Como as autoridades russas reagiram diante da tragédia?

Sr. Marcos Magossi — Após a explosão, as autoridades russas demoraram muito para proceder à evacuação, que deveria ter sido imediata. Mas quando o fizeram, ordenaram a medida subitamente. A população recebeu aviso para sair de imediato da cidade, levando apenas a roupa do corpo e alguns pertences de mão, documentos; pequenas coisas que pudessem carregar. Pode-se imaginar esse procedimento imposto a aproximadamente 100 mil pessoas!

Catolicismo — O senhor confirma a informação segundo a qual o governo comunista russo procurou ocultar o ocorrido?

Sr. Marcos Magossi — É preciso esclarecer que a evacuação da cidade foi executada somente após a radiação ter sido observada em outros países europeus. O governo soviético procurou esconder ao máximo a tragédia, alegando que não desejava causar pânico… Por isso, postergou o alarme. E não querendo reconhecer o erro, comunicou que ocorrera um incêndio, e não a explosão do reator — o qual, para reduzir custos, havia sido construído apenas com uma contenção parcial.

Catolicismo — Parece também que já se percebia a presença de irradiação…

Sr. Marcos Magossi — Sim, sabia-se da irradiação, mas não se falava desse gravíssimo perigo. Não se falava tampouco que a explosão fora causada por um defeito do reator — muito instável — nem por falha dos operadores, que não possuíam capacitação técnica nem experiência para o trabalho. Tais operadores eram provenientes de usinas termoelétricas a carvão e era na sua maioria um pessoal que não tinha conhecimento especializado em energia nuclear.

Catolicismo — O senhor disse que o governo soviético só se moveu após o alarme dos europeus. Como foi isso?

Sr. Marcos Magossi — Quando a ocorrência foi percebida na Europa, as autoridades não puderam mais esconder a catástrofe. Então foram obrigadas a ordenar a evacuação dos cidadãos, tirar as crianças dos colégios e levá-las como estavam para ônibus e caminhões do exército, transportando-as depois para outra região distante dali. O mesmo ocorreu com os demais habitantes. Os que possuíam automóveis à disposição retiraram-se em seus veículos. Algo de muito grave foi que em vez de promover a distribuição de pílulas de iodo imediatamente após a explosão, o governo o fez somente um mês depois. Aqueles que se recusaram a sair, ou se esconderam para não serem retirados repentinamente, morreram algum tempo depois. De seres vivos restaram apenas animais. Hoje Pripyat é uma cidade fantasma, semelhante a um cemitério. Registrei muitas cenas, mas elas ainda estão retidas na Ucrânia. Em alguns locais era proibido filmar ou fotografar.

Catolicismo — Então a censura não lhe permitiu fotografar o que desejasse da antiga usina nuclear?

Sr. Marcos Magossi — Fotografei quase tudo o que eu desejava, mas não pude trazer todo o material fotografado. Naquela região, a censura continua como na época da União Soviética. Existem lá algumas guaritas de vigilância feitas com aço e vidro blindado, revestidas de chumbo. Os guardas usam roupas apropriadas, como também eu tive que vesti-las. As pessoas só podem permanecer uns 15 minutos, revezando-se com muita freqüência para evitar a contaminação.

Catolicismo — A explosão revelou o grau de desleixo e incompetência característico do antigo regime vigente na URSS?

Sr. Marcos Magossi — Com toda certeza, uma vez que as autoridades mandaram os funcionários da usina efetuar um teste no reator, mas sem a segurança necessária. Ora, em se tratando de uma usina nuclear, nada poderia falhar. Começaram a fazer o teste e perderam o controle da situação no sistema de refrigeração. Daí resultou o derretimento nuclear. A explosão foi violentíssima, a cobertura de proteção não suportou, mesmo pesando mais de mil toneladas.

Catolicismo — O que mais o impressionou naquela região devastada?

Sr. Marcos Magossi — Sinceramente, foi ver as árvores retorcidas, secas, e também a vegetação em geral, tudo sem vida, ou com uma existência muito tênue. É terrificante observar aquele panorama, que reflete bem a tragédia, mesmo depois de tanto tempo. A terra continua muito contaminada. Por vezes, viam-se minhocas esbranquiçadas na terra, mas muito diferentes das normais. Um panorama muito triste.

Também me impressionou bastante minha entrada numa igreja católica, próxima a Chernobyl. Ela estava fechada, sendo proibida a entrada. Mas fui à parte de trás, onde se localizava a sacristia, e consegui arrombar uma porta. Entrei e fui até a nave central da igreja. Tudo abandonado e empoeirado. Deu-me a impressão de que os que ali se encontravam, por ocasião da ordem de evacuação, saíram correndo deixando para trás alguns objetos. Os bancos estavam todos cobertos de poeira. Aproximei-me do sacrário para rezar e fiquei pasmo: não havia poeira nele, nem sobre o altar! Passei a mão sobre ele e não encontrei sujeira. Minhas luvas protetoras continuaram limpas, enquanto a região de meus joelhos — eu me ajoelhara para rezar uma Ave-Maria — estava suja de poeira. Queria ficar mais tempo ali para observar melhor, mas os militares chegaram furiosos e mandaram-me sair.

Catolicismo — O que se comenta sobre a ação radioativa decorrente da explosão e sobre o número de vítimas? As autoridades soviéticas fornecem informações seguras?

Sr. Marcos Magossi — A radioatividade espalhada pela explosão foi muito grande, intensificando-se pelo incêndio que ajudou a espalhar o material radioativo para regiões vizinhas. Assim, pode-se crer que o total de vítimas deve ser maior do que o revelado. Muitos calculam mais de 200 mil pessoas, entre vítimas diretas e indiretas. A grande maioria foi atingida por câncer, outras por graves problemas de tireóide. Muitos acabaram morrendo devido a outros males, todos eles decorrentes da radioatividade.

Catolicismo — Começa a nascer algum vegetal naquela região?

Sr. Marcos Magossi — Em alguns lugares, como em torno da usina, não nasce planta alguma; em outros está começando a surgir uma vegetação raquítica, como grama e verdura. Contudo, não é comestível devido à radiação, que permanecerá ainda por dezenas de anos antes de ser eliminada.

Catolicismo — Sua saúde foi atingida pela radioatividade ainda existente na zona de Chernobyl?

Sr. Marcos Magossi — Enquanto estive lá, não senti nada. Retornando ao Brasil, numa área isolada do avião, eu e alguns colegas que me acompanharam na viagem começamos a sentir um calor tremendo e muita sede. Chegando a São Paulo, fui acometido de enjôos e mal-estares. Submeti-me a exames, tendo sido diagnosticada uma virose e fraqueza do organismo, certamente em razão da exposição em Chernobyl, apesar da roupagem de proteção — certamente, não de boa qualidade, pois ainda do período soviético. Estou fazendo um tratamento especializado e, se Deus quiser, logo estarei recuperado. Mas sei que, devido à exposição radioativa, terei dois anos a menos de vida. Se minha perspectiva de vida fosse, por exemplo, de 75 anos, viveria até os 73. Mas eu já estava ciente disso ao realizar a viagem.

Catolicismo — O senhor gostaria de registrar alguma observação especial a essa visão de conjunto sobre a tragédia ocorrida em Chernobyl?

Sr. Marcos Magossi — Saí dessa visita a Chernobyl com a certeza de que a explosão foi causada pelos erros cometidos pelos operadores da usina e pela falha do reator, como já declarei. Mas a tragédia aconteceu principalmente por culpa do regime comunista que dominava a Ucrânia. Tal regime não levava em consideração a vida dos homens, não os considerava como seres humanos, sendo tratados sem amor, desprezados como entes sem valor, como peças de máquina construída apenas para impulsionar o sistema marxista. Por isso, o governo soviético não se preocupou com a existência dos funcionários da usina. E tampouco se preocupou com a vida daqueles que moravam nas proximidades, que só foram retirados muito tempo após seus organismos terem sido seriamente contaminados pela radiação. Em resumo, o que observei prova que o regime comunista é incompetente e desumano, não servindo para nada. Mas também fiquei muito impressionado pela ação de Deus para com os homens, ao ver o sacrário e o altar da igreja em Chernobyl imunes a toda sujeira.

 

Revista Catolicismo

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