“A instituição do sacerdócio”

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Os sacramentos são sinais visíveis e eficazes da graça de Deus em favor de nossa salvação. No Sacramento da Ordem, o sinal da graça de Deus é uma pessoa, escolhida por Deus para fazer as vezes de Cristo e estar à frente da comunidade, para administrar ao povo os dons da salvação. O sacramento da Ordem é dado em três graus: o do bispo, que recebe a plenitude do sacerdócio e do serviço; o do presbítero ou padre, que recebe o ministério do sacerdócio para oferecer o sacrifício de Cristo com o povo e em nome do povo; o do diácono, que recebe o ministério do serviço, da caridade cristã, do atendimento aos pobres.

O padre, na sua humanidade concreta, nos seus limites e pecados, representa o amor de Cristo pelo povo. É claro que quanto mais santo, melhor! Mas o próprio Deus não pôs a santidade do ministro como condição para fazer acontecer o seu mistério, a sua graça. Sendo um dom de Deus para a Igreja, esta tem o direito, exercido através do bispo diocesano e do seu presbitério, de preparar, acompanhar e qualificar a pessoa chamada e, por fim, discernir sobre sua ordenação.

Não há eucaristia sem sacerdócio

O sacerdote perpetua a presença do Senhor na história dos homens de todos os tempos. Ele é chamado a fazer de sua voz, a voz de Seu Senhor; do seu olhar, o mesmo olhar amoroso do Mestre; de suas mãos, mãos que seguem curando e levantando aqueles que sofrem sob o peso de seus pecados. A presença do sacerdote no mundo é absolutamente necessária para que a redenção alcance a todos os homens. A ação mais sublime que um homem pode realizar na terra – consagrar o Corpo e o Sangue do Senhor e perdoar os pecados – só pode ser realizada por um sacerdote. “O padre possui a chave dos tesouros celestes: é ele que abre a porta; é o ecônomo do bom Deus; o administrador dos seus bens (…). Deixai uma paróquia durante vinte anos sem padre, e lá adorar-se-ão as bestas”, afirmou São João Maria Vianney.
Os sacramentos foram instituídos – direta ou indiretamente – por Jesus Cristo. O sacramento da Ordem foi instituído juntamente com o da Eucaristia. Por isso, não há Eucaristia sem sacerdote, sem ministro ordenado; não há sacerdócio sem Eucaristia. O ministro que é ordenado para a Eucaristia é precipuamente o presbítero. A ele cabe a presidência eucarística da comunidade. Por isso esses dois sacramentos – Eucaristia e Ordem – se implicam mutuamente. Quando Jesus disse “Tomai e comei, (…) tomai e bebei”, disse também “Fazei isto em memória de mim” (Lc 22,19-20). No sacramento da Eucaristia, o sinal visível e eficaz da graça salvífica de Deus é a comida e a bebida: pão da vida e cálice da salvação. No sacramento da Ordem, este sinal é uma pessoa, um homem escolhido e chamado por Deus, e ordenado pela Igreja, para fazer as vezes de Cristo, para ser um outro Cristo. Por isso, o sacramento da Ordem foi instituído por Jesus Cristo, na Quinta-feira Santa, juntamente com a Eucaristia, para dar continuidade à celebração da Eucaristia, que é o sacrifício da Nova Aliança, o sacramento de comunhão, o banquete da assembléia, a festa da ação de graças, para a firmeza na fé e a santificação do povo de Deus.
Quando o padre profere as palavras “Tomai e comei, (…) tomai e bebei”, ao mesmo tempo em que serve de instrumento para a palavra e ação de Cristo, ele mesmo é quem está se oferecendo como comida e bebida para o seu povo. Ele dá o Cristo, dando-se a si mesmo. Na Igreja doméstica, o pai e a mãe, sacerdotes da família, chamam os filhos à mesa e dizem “tomai e comei, isto é o que eu tenho a oferecer a vocês hoje, é o fruto do meu trabalho, do meu suor, é o meu corpo e o meu sangue, que entrego para o alimento de vocês”. E o que eles entregam aos filhos é ao mesmo tempo fruto de seu trabalho e da bondade de Deus criador. Na comunidade eclesial, o padre, ao proferir as palavras da fórmula da consagração, está dizendo também “tomai e comei, esta é a minha obra, a minha missão, é o meu ser e o meu agir, o sentido de minha vida: dar-lhes o Cristo”.

Homem sacerdotizado e eucaristizado

A palavra sacerdote carrega o sentido de “dom sagrado”, “dote sagrado”. Assim, o presbítero é um dom sagrado de Deus ao seu povo. Em virtude da ordenação, ele passa a ser exclusiva propriedade do Senhor, sendo “segregado para anunciar o Evangelho de Deus” (Rm 1,1). Separado, não para distanciar-se do povo, mas para ser configurado a Cristo, Esposo, Pastor e Servo da Igreja; portanto, para ser um servidor da Igreja. O caráter sagrado e sacramental da ordenação atinge o presbítero em tal profundidade que orienta todo o seu ser e o seu agir, de modo que sacerdotiza tudo o que vive e tudo o que faz. Seu mistério e seu ministério ficam marcados por esse elo que existe entre o Cristo e a Igreja. Por isso, ele é, por excelência, o liturgo da comunidade, que ele reúne para o momento mais alto e importante de sua existência, a celebração litúrgica. A sacerdotalidade litúrgica é parte integrante da identidade presbiteral.
Na homilia de ordenação presbiteral, no Rio de Janeiro, em 1980, o papa João Paulo II afirmou: “Mesmo quando realiza ações de ordem temporal, o sacerdote é sempre o ministro de Deus. Nele, tudo, mesmo o profano, deve tornar-se sacerdotizado, como em Jesus, que sempre foi sacerdote, sempre agiu como sacerdote, em todas as manifestações de sua vida”. Poderíamos acrescentar: tudo nele deve tornar-se eucaristizado, marcado pela dimensão da entrega e do sacrifício.
O Concílio Vaticano II (1962-1965) propõe no Decreto Presbyterorum Ordinis, sobre a vida e o ministério dos padres: “Estão obrigados por especial razão a buscar essa mesma perfeição, visto que, consagrados de modo particular a Deus pela recepção da Ordem, se tornaram instrumentos vivos do sacerdócio eterno de Cristo, para poderem continuar pelos tempos afora a sua obra admirável, que restaurou com suprema eficácia a família de todos os homens. Fazendo todo o sacerdote, a seu modo, as vezes da própria Pessoa de Cristo, de igual forma é enriquecido de graça especial para que, servindo todo o povo de Deus e a porção que lhe foi confiada, possa alcançar de maneira conveniente a perfeição daquele de quem faz as vezes e cure a fraqueza da sua carne a santidade daquele que por nós se fez Pontífice ‘santo, inocente, impoluto, separado dos pecadores’ (Hb 7,26)” (1).

Padres santos

Estritamente falando, só existe um Único Sacerdote: Jesus Cristo. Todos aqueles que recebem o dom do sacerdócio por imposição das mãos dos Apóstolos e seus sucessores são sacerdotes n’Ele, isto é, participam do seu único e eterno sacerdócio. Parafraseando a Bem Aventurada Madre Teresa de Calcutá, podemos dizer, em uma palavra, que o sacerdote permite que Cristo siga amando através dele.
A dignidade dos sacerdotes não consiste nas qualidades pessoais daqueles que são chamados a este ministério, mas no tesouro sobrenatural que ele porta, apesar do pobre vaso que é, na eleição que o próprio Deus fez dele. O Senhor chama aqueles que Ele quis (Cf. Mc 3,13). Essa é a razão suprema do chamado sacerdotal: o querer libérrimo de Deus, totalmente independente das qualidades pessoais daquele que é chamado. A vocação sacerdotal é, por isso, dom totalmente gratuito. Ninguém tem “direito” de ser ordenado sacerdote.
Como encarnação e sacramento do sacerdócio de Cristo, os padres devem viver em santidade, apesar de suas fraquezas e das dificuldades do pecado. Se quiserem ser bons pastores, o primeiro caminho que têm a empreender é o da santidade. Como os Apóstolos na escola de Jesus, os padres são primeiramente discípulos, para fazerem a experiência do encontro com o Senhor e a Ele se converterem. É só nesse discipulado, que é construído mediante uma vida de oração profunda e constante escuta do Senhor, que se tornarão verdadeiros missionários.
Este Ano Sacerdotal deve ser um tempo no qual não só os sacerdotes, mas todos os fiéis redescubramos a beleza deste grande dom que o Senhor confiou à Sua Esposa, a Igreja: o sacerdócio ministerial. Essas belas palavras do Cura d’Ars, São João Maria Vianney, especial patrono deste Ano Sacerdotal devem inspirar cada sacerdote: “Tudo sob o olhar de Deus, tudo com Deus, tudo para agradar a Deus… Como é belo! (…) Não há dois modos bons de servir a Deus. Há um só: servi-lo como Ele quer ser servido.(…) O sacerdócio é o amor do coração de Jesus! (…) Meu Deus, dá-me a graça de amar-Te tanto quanto é possível que eu Te ame”.
Por isso, todos somos convidados a orar pela fidelidade e santificação dos presbíteros. Reze pelos presbíteros, sobretudo por aqueles que presidem as Missas de que você participa, a fim de que esses padres celebrem a Santa Eucaristia com profunda fé e santidade, de modo a serem instrumento de Cristo para levar todos a mergulhar no mistério da nossa salvação.

(1) PO 12.

Pe. Victor Galdino Feller
Professor de Teologia do I TESC
Arquidiocese de Florianópolis – SC

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