“Senhor, dá-me de tua água!”

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Nós fomos criados por Deus para o louvor da sua glória (1), o que significa que fomos criados por um Deus que nos ama profundamente, para o amarmos acima de todas as coisas criadas. Ele colocou em nossa alma uma sede do eterno e absoluto, que só podemos encontrar no Amor Divino. Ora, só Deus pode amar com amor divino. Nenhuma criatura humana pode nos amar com um amor que não seja humano. Nenhuma coisa criada pode nos comunicar este amor, a não ser o próprio Deus.

Deus nos criou com esta sede de amor e comunhão com Ele, que pode ser traduzida como um profundo anseio de felicidade e realização, e Ele nos fez assim para que o buscássemos, caso contrário, bem sabemos que se não tivéssemos essa necessidade de Deus que está inscrita no mais profundo de nossas almas, não o buscaríamos.

No Catecismo da Igreja Católica vemos que o desejo de sermos felizes “é de origem divina: Deus o colocou no coração do homem, a fim de atraí-lo a si, pois só ele pode satisfazê-lo” (2). Santo Agostinho, traduzindo em palavras o que estava em seu interior disse: “Fizeste-nos, Senhor, para vós e o nosso coração está inquieto enquanto não descansar em vós” (3). Vemos isso também expresso na Salmo 62, onde o salmista manifesta tudo aquilo que existe em seu interior: “Sois vós, ó Senhor, o meu Deus, desde a aurora ansioso vos busco. A minha alma tem sede de vós e minha carne também vos deseja como terra sedenta e sem água”.

Podemos dizer, a partir disso, que Deus tem sede que nós tenhamos sede Dele (4), e isso precisa nos conduzir, a cada dia, para Ele, pois está a nossa espera. O Deus sumamente amante de nossas almas deseja nos receber em seus aposentos para nos saciar com o banquete de seu amor, superior a qualquer outro “amor” – “Que o rei me introduza nos seus aposentos: exultemos e alegremo-nos contigo, celebrando teus amores, melhores que o vinho” (5).

Nesta busca pela satisfação do nosso anseio de felicidade, geralmente nos perdemos no meio do caminho, fruto da desordem gerada pelo pecado em nosso interior, que tornou nossa natureza humana enfraquecida (6) e nos impede de ver claramente onde está a fonte que pode nos saciar. Vemos assim, em nós, “o conflito entre a lei de Deus, que é a ‘lei da razão’, e outra lei, ‘que me acorrenta à lei do pecado que existe em meus membros’ (Rm 7,23)” (7). Com isso, sem percebermos, passamos a eleger as coisas criadas, pessoas e diversas situações de nossas vidas como aquelas que poderão nos dar a verdadeira felicidade, quando na realidade elas são simples meios, pelos quais, podemos viver para o louvor da glória de Deus. Elas, em si mesmas, são incapazes de nos fazer felizes, se colocarmos nossa satisfação nelas mesmas. Isso vale até mesmo para as coisas e situações que vivenciamos na nossa vida com Deus.

É preciso que seja dissipada de nossas vidas toda esta ilusão que permitimos que se crie em nós e que, gradativamente, passa a nos escravizar, pois acabamos confundindo a busca de “felicidade” inscrita em nossa alma com o “prazer”, que é um apelo de nossa carne. Achamos que o prazer e a satisfação nas coisas e nos relacionamentos irão nos comunicar a felicidade que tanto procuramos, mas na verdade irá nos tornar mais carentes e mais sedentos do amor que só nos é dado por Deus. O que buscamos só Deus pode nos dar. Se Ele está no centro de nossa vida e tudo gira em torno Dele e de seu amor, seremos pessoas felizes e livres. Esse é um bom critério para avaliarmos se estamos indo na direção correta.

Num mundo atualmente marcado pelo hedonismo (a busca do prazer como o bem supremo), materialismo (comportamento marcado pelo extrema devoção aos bens, valores e prazeres materiais), individualismo (valorização da autonomia individual, vivendo exclusivamente para si) e o consumismo (prática de consumir demasiadamente), somos desafiados a voltar nossos olhos somente para Deus, indo na contramão daquilo que muitos vivem hoje, colocando o criado como o fim e fonte da felicidade.

Para nos libertamos de toda a escravidão que percebemos dentro em nós, algo de muito simples precisa acontecer: a decisão por Deus. Pode parecer simples demais, mas quando temos um decisão firme e determinada por Deus, nada poderá passar por cima disso. O próprio Deus respeita, em seu amor livre por nós, nossa liberdade e decisão. Esse, portanto, é o primeiro passo e o mais essencial de todos.

Em seguida, precisamos colocar Deus como centro de nossa vida. Não iremos conseguir outra forma de fazermos isso, a não ser através de uma busca pela intimidade com Deus, através da oração, nas mais diversas expressões. “Pela vida de oração, Deus nos conquista para Si, faz-nos Seus. Leva-nos em Sua intimidade. A vida de oração é o caminho necessário ao homem sedento de Deus para encontrar o Deus sedento do homem”. “É pela oração que nossas almas se plenificam do Deus inesgotável, de tal forma que a oração traz o mistério do encontro das águas vivas que saciam, com a sede que quer sempre mais, que precisa de sempre mais” (8).

Na oração é momento de nos derramarmos na presença de Deus, sedento por nos saciar com seu amor, apresentando a Ele todas as nossas necessidades e, assim como disse a Samaritana a Jesus, dizermos a Ele: “Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede” (9), para que assim o Senhor venha e nos diga: “(…) mas quem beber da água que eu darei, nunca mais terá sede, porque a água que darei se tornará nele uma fonte de água jorrando para a vida eterna” (10), e desta forma habite em nós a paz que vem como fruto daqueles que se permitem ser saciados pela verdadeira e única fonte de vida.

É necessário também, que nós estejamos dispostos a converter o modo como vivemos nossa relação com tudo o que está a nossa volta: coisas, pessoas, situações, de modo a não mais buscá-las como aquilo que nos satisfaz, mas sim viveremos tudo por amor ao único que nos dá o verdadeiro amor que nos plenifica. Cada situação, cada bem, cada relacionamento vivido com o sentido de fazer Deus mais amado por nossos pequenos gestos. Assim experimentaremos a libertação de não mais estarmos presos ao que é criado, mas estaremos unidos a Deus por meio de tudo e todos, pois Ele será o fim em tudo. Mesmo a partir de situações tão simples e cotidianas.

Busquemos, então, este verdadeiro amor, que somente encontramos em Deus, para que ele nos liberte de nós mesmos e do apego desordenado aos bens deste mundo (11) e para que este amor nos sustente em nossa caminhada aqui na terra, rumo ao prêmio celeste, quando já estaremos totalmente livres de qualquer coisa que nos impeça de sermos totalmente d’Ele – “Quem é esta que sobe do deserto, apoiada no seu amado? (…) Porque o amor é forte como a morte. (…) Águas torrenciais não puderam extinguir o amor, nem rios poderão afogá-los” (12).

(1) Cf. Ef 1,12.
(2) Catecismo da Igreja Católica, 1718.
(3) “Confissões”, Santo Agostinho.
(4) Cf. Regra de Vida do Carisma El Shaddai-Pantokrator, 26.
(5) Ct 1,4.
(6) Cf. Catecismo da Igreja Católica, 405.
(7) Catecismo da Igreja Católica, 2542.
(8) Regra de Vida do Carisma El Shaddai-Pantokrator, 26.
(9) Jo 4,15.
(10) Jo 4,14.
(11) Cf. Catecismo da Igreja Católica, 2548.
(12) Ct 8, 5a.7a.

Leonardo José dos Santos
Discípulo na Comunidade Católica Pantokrator

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