A boa nova da teologia do corpo

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A idéia de que a sexualidade humana é algo esplêndido no plano de Deus e que a masculinidade e feminilidade expressam também o amor divino parece óbvia para nós, certo? Errado! Comumente, até mesmo entre os cristãos, predomina a dicotomia entre sexo e Deus, entre corpo e alma, entre amor humano e amor divino. A dicotomia entre o espiritual e o material é fruto de uma antiga heresia chamada maniqueísmo, e “ela sufoca como uma sombra escura toda a experiência humana. Como o resto da humanidade, os cristãos foram e continuam sendo afetados e até mesmo infectados por ela. No entanto, através dos séculos a Igreja defendeu a bondade do mundo físico e a sacralidade do corpo humano contra muitas heresias” (1). Longe de suspeitar do corpo humano, João Paulo II afirma que o mesmo ainda não foi suficientemente apreciado e o Catecismo da Igreja Católica (CIC) resume esta mesma doutrina ao afirmar que “a carne é o eixo da salvação – Caro salutis est cardo. Cremos em Deus, que é o criador da carne; cremos no Verbo feito carne para redimir a carne; cremos na ressurreição da carne, consumação da criação e da redenção da carne” (2).

Para entender isso, alguém pode perguntar como é que o corpo humano pode ser imagem de Deus se Deus é puro espírito e não tem sexo. Antes de tudo, temos que entender o significado da palavra corpo. Não podemos separar jamais o corpo humano da alma espiritual: o corpo não é uma “prisão” ou uma “casa” para a alma. O ser humano é uma profunda unidade de alma e corpo e é precisamente essa união que constitui a natureza humana: o espírito e a matéria no homem não são duas naturezas unidas, mas a união deles forma uma única natureza. Com isso bem claro, podemos dizer que, de alguma forma, nós podemos ver o aspecto espiritual (e, portanto, invisível) da natureza humana através do corpo. Conforme as palavras do Santo Padre, “somente o corpo é capaz de tornar visível o que é invisível: o espiritual e o divino” (3).
No entanto, não devemos nos assustar se isso soa um pouco estranho para nós: “a separação cartesiana do corpo e espírito tem levado a uma perda de sentido da identidade humana. Em vez de descobrir um sinal de imagem divina nos nossos corpos, nós só vemos nossa semelhança com os animais” (4), mas ao ler Gênesis com atenção e admiração – e tendo como guia as Catequeses “Teologia do Corpo” – veremos como o primeiro homem, depois de ter dado o nome a todos os animais, continuou a se sentir só. Foi somente frente à mulher que ele exclamou: “Eis agora aqui o osso de meus ossos e a carne de minha carne” (Gn 2, 23). Em pouquíssimas e densas palavras, a Sagrada Escritura traz profundas consequências teológicas e antropológicas para o nosso existir: “o corpo, precisamente no mistério da sua diferença sexual e seu chamado à união, é um sinal do grande mistério escondido em Deus desde a eternidade” (5). Isso mesmo! Deus, que está totalmente além de nossa visão, “fez a si mesmo visível na carne” e com seu corpo nos revela o sentido do nosso corpo” (6). O Cardeal Scola mostra a íntima conexão do amor divino e humano ao dizer que “Deus mesmo é uma eterna Communion de Três Pessoas. Essa é a teologia inscrita no corpo humano, na masculinidade e na feminilidade (7).
Essa descoberta não é automática. Como em todo processo de formação humana, ela requer um aprofundamento e, nesse caso, também um senso do assombro primordial na beleza divinamente inspirada do corpo, para ver através dele toda a dignidade da pessoa humana. É um mundo novo, que se abre frente aos nossos olhos.
A sexualidade humana é um sinal estupendo da imagem divina no homem e na mulher, e também um chamado à liberdade humana para viver essa imagem através do sincero dom de si mesmo, seja no matrimônio ou no celibato pelo Reino. O primeiro projeto catequético do Papa João Paulo II, a Teologia do Corpo, é um convite magnífico para nos aventurar na descoberta deste dom que, aliás, dá pleno sentido à nossa existência! E você, aceita este convite?
A partir da próxima edição, estaremos inaugurando a coluna TOB – Theology of the Body, como é universalmente conhecida – em que vamos refletir sobre essa magnífica contribuição de João Paulo II à humanidade, que é a Teologia do Corpo.

Saiba mais sobre a Teologia do Corpo:
www.teologiadocorpo.com.br
juliemaria.wordpress.com

(1) Christopher WEST, “Theology of the Body Explained”, Paulines, 2007, p. 22.
(2) Catecismo da Igreja Católica, 1015.
(3) JOÃO PAULO II, Audiência 20 de Fevereiro de 1980.
(4) Christopher WEST, “Theology of the Body Explained”, Paulines, 2007, p.13; Cf. JOÃO PAULO II, “Carta às famílias”, n. 19.
(5) JOÃO PAULO II, Audiência 4 de Junho de 1980.
(6) Christopher WEST, “Theology of the Body Explained”, Paulines, 2007, p. 14.
(7) Cf. Ibidem, p. 19.

Julie Maria
Diretora da Equipe TOB – Brasil

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