“Cristo manifesta plenamente o homem ao próprio homem e lhe descreve a sua última vocação” – Por uma espiritualidade desencarnada

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A espiritualidade do cristão espelha-se no mistério da Encarnação. O texto bíblico central e paradigmático que trata da Encarnação está em Jo1,14: “O Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória”… Em Jesus, o Verbo, a Palavra de Deus Se fez carne, isto é, se fez humanidade concreta: Ele entrou na história, num povo, num país, numa cultura, numa família, num contexto social, político, econômico, religioso. Pela Encarnação, Jesus Cristo, Perfeito Homem, fez-Se semelhante àquelas pessoas com as quais queria Se comunicar. Fez-Se em tudo semelhante a nós, com exceção do pecado. Deus entra na humanidade, a humanidade penetra em Deus. A humanidade é assumida de uma vez para sempre; um caminho novo se abre através do véu da humanidade de Jesus (cf. Hb 6,19). A realidade é consagrada. O humano foi aperfeiçoado e divinizado, porque Deus o plenificou com Sua presença.


Deus, que se torna um de nós, nos demonstra de forma muito concreta a importância que temos aos Seus olhos: “Deus tanto amou o mundo que enviou seu filho único, para que quem crer nele não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). Ao mesmo tempo nos revela que tudo o que é humano interessa a Deus. Pela Encarnação de Jesus Cristo, Deus assume o humano, sofre com nossas dores, alegra-se com nossas realizações. Em consequência, nós, pessoas humanas que vivemos na precariedade da vida, num tempo e espaço, para corresponder ao Deus que nos ama tanto, nos abrimos à preocupação e responsabilidade por tudo o que é humano, que se torna para nós instrumento de salvação.

Cristo ensina o homem a ser homem

A Encarnação, sinal de comunhão da humanidade com Deus, torna tudo o que é humano válido e importante para Deus e para nós. Ao se fazer carne no seio da Virgem Maria (cf. Gl 5,5), o Filho de Deus entra numa família, num contexto, numa história. E a partir dessa particularidade, vai colocar as bases para um comportamento universal, vai nos mostrar o caminho do que significa concretamente ser homem. Essa comunhão de Deus com a humanidade através de Jesus de Nazaré vai resultar em salvação para a pessoa humana na sua integralidade: corpo e espírito, pessoa e sociedade, natureza e cosmos.

A mentalidade semita entendia a pessoa humana como um todo composto de corpo e espírito intimamente unidos. Mas, essa compreensão ficou perdida, em consequência da influência do pensamento grego, de cunho dualista, que permeou a cultura ocidental, caracterizando algumas heresias dos primeiros séculos: o que é do espírito é bom; o que é do corpo é mau e, portanto, deve ser desprezado pela religião. Essa visão distorcida acompanhou, na prática, a história da espiritualidade cristã por muito tempo. Mas o Concílio Vaticano II, retornando às fontes, voltou a entender a pessoa humana dentro de uma compreensão integrada: “É a pessoa humana que deve ser salva. É a sociedade humana que deve ser renovada. É, portanto, o homem considerado na sua unidade e totalidade, corpo e alma, coração e consciência, inteligência e vontade, que será o eixo da preocupação da Igreja” (1).

João Paulo II desenvolveu o que seria uma de suas mais importantes contribuições para a Igreja e para o mundo: a denominada “teologia do corpo”, constante das audiências pronunciadas no início de seu pontificado. “O corpo, e somente ele, é capaz de tornar visível aquilo que é invisível: o espiritual e divino. O corpo foi criado para transferir para a realidade visível do mundo o mistério invisível escondido em Deus desde os tempos imemoráveis, e assim ser um sinal deste mistério” (2).

“Na verdade, o mistério do homem só se torna claro, verdadeiramente, no mistério do Verbo encarnado. Com efeito, Adão, o primeiro homem, era figura daquele que haveria de vir, isto é, de Cristo Senhor. Novo Adão, na mesma revelação do mistério do Pai e de seu amor, Cristo manifesta plenamente o homem ao próprio homem e lhe descreve a sua altíssima vocação. (…) Com efeito, por sua Encarnação, O Filho de Deus uniu-se de algum modo a todo homem. Trabalhou com mãos humanas, pensou com inteligência humana, agiu com vontade humana, amou com coração humano” (3). O Verbo encarnado é quem ilumina a busca da humanidade; é ele quem está na origem dos valores, das aspirações e dos esforços positivos.

Por uma espiritualidade encarnada

Uma das maiores ameaças enfrentadas pela Igreja hoje é o “espiritualismo” devocionista, no qual as pessoas desencarnam seu apelo à santidade, insinuando uma espiritualidade volátil, desligada do cristianismo autêntico. Deus nos fala no cotidiano, na simplicidade, de tal modo que o sobrenatural, que é Sua presença em nós, há que ser vivido naturalmente. Deus não precisa de eventos sensacionais e mirabolantes para se manifestar a nós. O Espírito Santo nos fala a todos na suavidade e dentro do ordinário de nossas vidas, pois Ele está em nós mais do que nós mesmos. O que foge disso não é verdadeiramente cristão, mas manifesta uma fé imatura e superficial. “Uma espiritualidade desencarnada não raro nos leva a saltar por cima da nossa própria realidade. Nós nos identificamos de tal modo com os ideais, que acabamos recalcando nossas próprias fraquezas e limites pelo fato de eles não corresponderem ao ideal. É justamente essa divisão que nos torna doentes. E por não sermos capazes de reconhecer que não correspondemos ao ideal, acabamos projetando nossas incapacidades sobre os outros, sendo por demais rigorosos com eles. Há algumas pessoas piedosas que, diante da sua própria realidade, se refugiam na piedade. Elas não se transformam realmente por suas orações e atitudes piedosas, mas aproveitam-se da piedade unicamente para se vangloriarem diante dos outros e confirmarem sua infalibilidade. É assombroso ver como, muitas vezes, mesmo pessoas mais piedosas reajam de maneira até bastante brutal quando, por alguma razão, prevalece uma opinião abalizada diferente da sua.” (4).

A autêntica espiritualidade é sempre uma espiritualidade encarnada. Esta é a verdadeira “lógica” do cristianismo. Deus nos comunica Sua vida “no” e “através do” corpo; “em” e “através do” Verbo tornado carne. O espírito que nega esta “realidade encarnada” é aquele do anticristo (cf. 1Jo 4,2-3). É conhecida a afirmação de Santo Ireneu de Lyon (séc. II), segundo a qual aquilo que não foi assumido não foi redimido. O Verbo assumiu a nossa carne humana; assim, o homem é, todo ele, redimido por Cristo. Quando São Paulo afirma que aquele que está em Cristo é uma “nova criatura” (cf. 2Cor 5, 17), chama de nova criatura o homem todo, com sua alma espiritual, seu corpo, seus sentimentos e emoções, sua história. Nada escapa à obra recapituladora de Cristo.

“Vida espiritual” é sinônimo de vida cristã. Chamamos de “vida espiritual” não porque com isso estejamos nos referindo à vida de nosso espírito ou de nossa alma espiritual. Nossa alma não vaga por aí desencarnada. Ela somente existe em nosso corpo, com suas limitações e ambigüidades. E ambos é que formam a nossa identidade irrepetível. Quando se diz “vida espiritual”, trata-se da vida humana no Espírito Santo, pois a vida cristã somente é possível no Espírito. Para chegar à vida espiritual, o primeiro passo, portanto, é reconhecer nossa humanidade diante do Criador, porque não somos anjos. Vivendo a realidade do dia-a-dia, mesmo com seus dilemas de pessoa humana, é que o homem pode se aproximar de Deus como ele é.

A vida humana é toda ela espiritual, pois a presença de Deus em nós é incondicional. Se vivemos apenas do ponto de vista material, nossa vida será marcada pelo apego aos bens materiais, pelo hedonismo, pela soberba. Não será verdadeira vida humana. Mas, se vivermos do ponto de vista espiritual – que significa englobar todas as dimensões da existência, pois nada escapa à ação do Espírito – a vida terá outro sentido, o homem terá confiança em Deus e na sua Graça, sentirá o sabor de fazer a vontade de Deus, que quer vida plena para todos: numa palavra, sua vida será verdadeiramente humana. No homem, espiritual e natural não podem de se separar. Em outras palavras, deveremos viver constantemente cuidando de nós mesmos, não de um jeito egoísta, mas para estar a serviço de todos. É isso que Deus quer de nós. Aquele que deseja mudar as coisas deve começar mudando a si mesmo… Só há possibilidade de vivermos uma espiritualidade verdadeira quando trabalharmos o nosso interior, para ali encontrarmos com Deus e com nós mesmos. Dessa forma, descobriremos nossas potencialidades que foram dadas por Deus como dons e carismas próprios para a natureza humana, que também quer participar da natureza divina.

A espiritualidade surge da capacidade de descobrir, interpretar, viver, contemplar a ação do Espírito Santo em nós (5) É o Espírito que, com a graça de Deus, anima a vida e as ações do cristão. Em nossa vida sabemos que as diversas dimensões da existência do homem podem entrar em colapso, apresentando problemas que provêm da natureza frágil do homem, de coisas que o mundo nos impõe. Isso revela que o homem não foi criado em estado de perfeição, mas de amadurecimento. Só o Espírito Santo nos dá o verdadeiro autoconhecimento. Sem ele, nem o mais sábio dos homens é capaz de conhecer-se como deve, ou de perceber o estado íntimo de sua alma.

Espiritualidade cristã e autoconhecimento

O caminho para Deus sempre conduz ao autoconhecimento. “Se queres conhecer a Deus, aprende a conhecer a ti mesmo”, diziam os padres do deserto nos primeiros séculos do cristianismo. O caminho espiritual começa a partir das paixões da alma. A espiritualidade a partir da base restaura a divisão provocada pela discrepância entre o ideal e o real. Chegamos a Deus através de uma rigorosa auto-observação e por um sincero autoconhecimento. O que Deus quer de nós, não podemos conhecer por meio de altos ideais que colocamos para nós mesmos. Sem o autoconhecimento corremos sempre o perigo de nossos pensamentos acerca de Deus serem meras projeções. Fundamental, portanto, é a observação daquilo que somos, das paixões da alma, do nosso lado sombrio, pois chegamos a Deus pelo caminho da própria realidade. Deus jamais vai se espantar com nosso lado sombrio, pois nos conhece mais do que nós a nós mesmos. Nós é que freqüentemente nos assustamos, porque não nos conhecemos profundamente, porque não nos vemos com a lente do Olhar de Deus, que nos ama incondicionalmente.
Isso exige o rebaixamento para dentro de nossa humanidade como Deus o fez em Jesus; exige a humildade. “Para ser humilde, é preciso ter consciência – e experiência – do profundo amor de Deus por nós; somente a partir daí podemos reconhecer como somos pecadores, podemos abraçar a nossa própria verdade e conseguir nos libertar aos poucos do vício de julgar os outros. O paradoxo do nosso caminho espiritual está no fato de subirmos para Deus à medida que nos rebaixarmos até nossa realidade. E é assim que se entende a palavra de Jesus que diz: ‘Quem se humilha a si mesmo, será exaltado’ (Lc 14,11; 18,14)” (6). Tudo em nossa vida tem sentido, assim também as paixões e pecados. Nós somos tudo isso. Somos um todo. É necessário familiarizar-se com as paixões e perceber o sentido e a força que se escondem nelas. Alguns passos nos ajudam a ingressar nesse longo e maravilhoso caminho de intimidade com Deus a partir do autoconhecimento:
* Permanecer em si mesmos – é a condição para todo progresso humano espiritual; é necessário suportar-se a si mesmo para encontrar-se com a verdade, a fim de perceber o sentimento de onipotência que se esconde em nós e assim saná-lo pela raiz. Não há homem maduro que não tenha tido a coragem de suportar-se a si mesmo e de encontrar-se com sua própria verdade… Hoje em dia, passou a ser algo por demais comum a incapacidade de suportar-se… As pessoas se dispersam com facilidade. Fruto desse passo é a serenidade que propicia o amadurecimento;
* Confronto – momento de fortalecimento para lidarmos com as tentações. O confronto faz o homem perceber que a partir de suas próprias forças ele é incapaz de vencer; as tentações obrigam-no a cravar suas raízes ainda mais profundamente em Deus e a depositar sua confiança n’Ele. Isso nos leva ao encontro de nossa humanidade. Em nosso tempo, o demônio tem pisoteado em na dignidade da pessoa humana das mais diversas formas. Ele sabe que a nossa humanidade foi consagrada a Deus em especial na Encarnação e por isso quer destruí-la, seja pelas drogas, pelo aborto, pela libertinagem sexual, seja por ideologias disfarçadamente humanistas e igualitárias, mas que na realidade negam o próprio homem como pessoa…
* Ascese – é o caminho para a liberdade, um exercício para a aquisição de uma prática, de um comportamento virtuoso. Nessa fase, é necessário alcançar a apatheia = pureza de coração, a renúncia aos apegos desordenados. A ascese consiste em tornar o corpo dócil e em subjugar as próprias vontades, em tornar-se senhor dos instintos e livre em relação às próprias necessidades. Fruto desse passo é o calar e não julgar. Um critério para saber se a ascese é verdadeira ou não é o não julgar, que é fruto do encontro consigo mesmo; o calar é deixar de lado a projeção e encarar o comportamento dos outros, como um espelho para nós mesmos. Quem se conhece torna-se misericordioso.
* Tratamento – segundo os padres do deserto, é a fase para corrigirmos e redirecionarmos todo o nosso ser a Deus, combatendo as principais doenças com remédios adequados: contra a gula, a luxúria e o desejo de posse, os remédios são o jejum e a esmola; contra a tristeza, a cólera e a acédia, o remédio é a constância; contra a ambição, a inveja e a soberba, os padres do deserto sugerem a contemplação. É preciso superar o medo que provém de um ideal de perfeição (soberba), pois ele aponta para uma atitude falsa com relação á vida.

A mansidão é um sinal do homem espiritual. A mansidão é tão decisiva que só ela é capaz de transformar o coração do homem, tornando-o aberto para Deus. A mansidão é fonte do conhecimento de Cristo. É sinal de que estamos seguindo a Cristo; junto com a misericórdia, são os critérios de uma espiritualidade autêntica. A verdadeira vida espiritual é deixar-se inundar pelo Deus que Se fez homem e “armou sua tenda” aqui entre nós. Ele viveu semelhante a nós em tudo, exceto no pecado. Façamos também esse mesmo caminho de Jesus, a fim de alcançarmos a nossa altíssima vocação: ser um só com Ele. Dessa forma, viveremos as duas dimensões: humana e divina que em Deus, são uma só realidade.

(1) Concílio Vaticano II, Constituição Pastoral Gaudium et spes, n. 3.
(2) Alocução na audiência de 20/02/1980.
(3) Concílio Vaticano II, Constituição Pastoral Gaudium et spes, n. 22.
(4) A. Grün, “O céu começa em você”, Loyola, 1998.
(5) Cf. F. Ruiz Salvador, “Compêndio de Teologia Espiritual”, Loyola, 1996.
(6) A. Grün, “O céu começa em você”, Loyola, 1998.

Kátia Maria Bouez Azzi
Consagrada na Comunidade Católica Pantokrator

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