Nossa Senhora e a escolha da vocação

0

Aparição mariana a um santo jovem jesuíta no século XVI mostra como é importante procurar saber qual é a nossa vocação e, encontrando-a, segui-la seriamente

Na minha vida, eu vou escolher meu próprio caminho — Eis o pensamento de muitíssimos jovens de hoje, se não da quase totalidade. Nem se dão ao trabalho de indagar se esse caminho já não foi escolhido pelo próprio Deus. O que a nós corresponde é discernir o que Ele deseja de nós; e, uma vez que o saibamos, seguir o caminho que Ele reservou para nós.

Muitíssimos jovens sentiriam um choque ao saber disto; e o choque seria ainda maior ao constatar que, para grande número de pessoas, é dificílimo encontrar a resposta, mesmo desejando conhecê-la. Vários religiosos, por exemplo, ingressam numa ordem religiosa, e por algum motivo mudam para outra. Se isto se aplica a religiosos, o que pensar dos outros?

Caminhos diversos

Para a imensa maioria das pessoas, Deus indica como plano de vida o matrimônio. É a via comum. Devem formar uma família e santificar-se junto com o cônjuge, concebendo e educando os filhos para alcançarem o Céu. Nem se cogita aqui de uma deturpada visão pecaminosa e romântica, que admite e estimula a troca de cônjuges; muito menos se considera o caso de famílias planejadamente desprovidas de filhos. Essa visão hedonista e neopagã do matrimônio está muito longe da que compete a um católico, cujo objetivo deve ser a procura do cônjuge mais adequado; e, uma vez casados, manterem ambos a fidelidade conjugal até o fim.

Para algumas pessoas, no entanto, Deus planeja algo diferente, chamando-as para um gênero de vida superior e mais sacrificado: deixar tudo e dedicar-se unicamente a Deus. Freqüentemente têm essas pessoas um chamado (ou vocação, do latim vocare = chamar) para a vida religiosa em alguma instituição canonicamente ereta. Há ainda chamados muito especiais, extremamente raros. Como por exemplo a vocação de Santo Aléxis, que permaneceu como mendigo na própria casa.

Muitos sentem um chamado para se tornarem religiosos, aceitam e querem seguir essa vocação, mas há muitas opções a escolher. Será como sacerdote secular, membro do clero de uma diocese? Será como monge, fechado num mosteiro? Ou como missionário numa ordem dedicada à conversão de pagãos? Ou como capelão em outra ordem?

Lendo as vidas dos santos, constatamos que muito freqüentemente eles sofreram ante essa falta de clareza no caminho a seguir. Outros santos, pelo contrário, desde o início o discernem claramente, trilhando o próprio caminho, ainda que com dificuldades e provações.

Obstáculos e coragem

Por motivos muito concretos e específicos, por vezes a realização da vocação torna-se tão complicada, que sem uma intervenção sobrenatural seria impossível discerni-la e realizá-la. Foi o caso de Santo Estanislau Kostka, a quem Nossa Senhora indicou seu caminho.

Estanislau nasceu em 1550 numa família nobre da Polônia. Era o segundo de sete filhos, e seu irmão maior, Paulo, era mau, dotado de caráter realmente ruim. O pai educava a família com muita severidade e não aceitava oposições.
Aos 14 anos, Estanislau foi enviado a Viena junto com Paulo e um tutor, de nome Bilinski, para estudarem no colégio dos jesuítas. Ali ele teve que sofrer muitíssimo, pois o irmão o agredia com tanta regularidade, que parecia mais um inqualificável hobby. Para piorar as coisas, a saúde de Estanislau não era boa, levando-o a intuir que não viveria muito tempo. Diante disso, desejava encontrar logo sua vocação, devido à falta de saúde. Pensava em tornar-se sacerdote, mas não sabia onde. Nos jesuítas? Sentia especial atração pela milícia de Santo Inácio, mas não estava disso seguro. Sabia ainda que, se pedisse ao pai para entrar em algum convento, a resposta seria uma ordem categórica para regressar imediatamente.

Caiu gravemente enfermo em novembro de 1566, e em dezembro desse ano os médicos que o atendiam julgaram que ele não duraria muito. Quando a situação já era realmente difícil, ele teve uma visão de Nossa Senhora, que lhe pôs nos braços o Menino Jesus e disse-lhe: “Deves terminar teus dias na Sociedade que leva o nome de meu Filho, deves ser jesuíta”. Logo que teve o Menino nos braços, sentiu que recuperava a saúde. Ao devolvê-lo, Nossa Senhora sorriu e desapareceu no ar. O tutor Bilinski estava presente quando a aparição ocorreu, e tanto ele como Paulo não esconderam sua surpresa vendo-o repentinamente curado. A casa onde se deu esse fato é hoje um santuário.

À procura de autorização

Logo depois desse milagre, Estanislau procurou os jesuítas para pedir sua admissão no seminário. E aqui começam os problemas que nos fazem entender por que ele jamais teria a segurança completa de como agir para seguir sua vocação, caso não tivesse havido uma aparição de Nossa Senhora.

Seu confessor, Pe. Doni, acreditou no que ele lhe contou, e mandou-o falar com o superior dos jesuítas em Viena, Pe. Lorenzo Maggi. Este, sabendo que os jesuítas tinham sido atacados fortemente por aceitar noviços sem autorização paterna, pediu a Estanislau que a conseguisse, ou então esperasse até adquirir a maioridade. Mas o postulante sabia que não conseguiria o consentimento paterno e acreditava que não teria tempo para aguardar a maioridade. Por isso ele foi falar com o Cardeal Commendoni, que tinha sido núncio na Polônia e conhecia sua família. O cardeal mostrou-se simpático à idéia, mas mudou totalmente de opinião quando conversou com o Pe. Maggi. Estanislau procurou então outro jesuíta, o Pe. Antoni, e avisou que, como não conseguira nada em Viena, fugiria da casa e iria a Augsburg para entrar em contato com o superior da província (que era São Pedro Canísio); ou então iria a Roma e procuraria o Geral da Companhia de Jesus (que era São Francisco de Bórgia).

Com apenas 16 anos, iniciou sua caminhada a pé, sozinho. Foram 400 quilômetros difíceis, subindo e descendo montanhas, cruzando bosques por caminhos bastante primitivos. Quando chegou a Augsburg, informaram-lhe que o Pe. Canísio se encontrava em Dillingen, a 37 quilômetros dali. Sem mesmo descansar, partiu e conseguiu falar com o Pe. Canísio, que o aceitou na escola… como cozinheiro, e não como noviço. Era um recurso para submetê-lo à prova. Vendo que Estanislau perseverava depois de um mês, decidiu enviá-lo a Roma, embora prevendo o imenso problema que o pai criaria. Foram mais 1.200 km a pé, cruzando os Alpes. São Francisco de Bórgia recebeu-o, ouviu sua história e admitiu-o no noviciado jesuíta em Roma, onde ele veio a falecer em menos de um ano. No momento da morte, voltou a ver Nossa Senhora. Desta segunda aparição só conhecemos o que, já moribundo, ele disse ao Pe. Ruiz: “Nossa Senhora veio, do mesmo modo como em Viena”.

Pouco tempo depois chegou Paulo, que tinha sido enviado pelo pai para ameaçar os jesuítas. Ao ter notícia da morte do irmão, levou um choque, e acabou ele mesmo tornando-se jesuíta mais tarde.

Seguir a vocação até o fim

Pela seriedade com que Santo Estanislau seguiu sua vocação, podemos medir quanto importa saber qual ela é, e decididamente segui-la. É uma decisão da qual depende toda a vida, e possivelmente também a vida eterna. Além disto, o fato de Nossa Senhora se dignar vir à Terra só por uma vocação revela quanta importância tem a boa escolha do caminho a trilhar em nossa vida. Não nos deixemos enganar pela literatura mundana, que insiste em convencer-nos de que na escolha da vocação somos totalmente independentes, até de Deus, e que podemos fazer o que bem entendermos.

A própria Santíssima Virgem não agiu assim. Quando foi visitada pelo Arcanjo Gabriel, que lhe anunciava ser Ela a escolhida para Mãe de Deus, a resposta foi imediata: “Eis aqui a Escrava do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra”. Não se pode pedir maior submissão a uma vocação dada por Deus.

E-mail para o autor: catolicismo@terra.com.br
Instituto Plínio Corrêa de Oliveira

Deixe uma resposta

Por favor, insira seu comentário!
Por favor, insira seu nome aqui.