“Permanecer em Cristo significa permanecer na Igreja”, disse o Papa na homilia da missa celebrada em Berlim

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Uma vez, às portas de Damasco, o próprio Cristo perguntou a Saulo, o perseguidor da Igreja: «Porque Me persegues?» (Act 9, 4). Deste modo, o Senhor exprime a comunhão de destino que deriva da íntima comunhão de vida da sua Igreja com Ele, o Cristo ressuscitado. Ele continua a viver na sua Igreja neste mundo. Ele está connosco, e nós estamos com Ele. «Porque Me persegues?»: destas palavras se conclui que é a Jesus que ferem as perseguições contra a sua Igreja. E, ao mesmo tempo, não estamos sozinhos quando somos oprimidos por causa da nossa fé. Jesus está connosco.

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Alguns olham para Igreja, detendo-se no seu aspecto exterior. Então ela aparece-lhes apenas como uma das muitas organizações presentes numa sociedade democrática; e, segundo as normas e leis desta, se deve depois avaliar e tratar inclusive uma figura tão difícil de compreender como é a «Igreja». Se depois se vem juntar ainda a experiência dolorosa de que, na Igreja, há peixes bons e maus, trigo e joio, e se o olhar se fixa nas realidades negativas, então nunca mais se desvenda o grande e profundo mistério da Igreja.

Consequentemente deixa de assomar qualquer alegria pelo facto de se pertencer a uma tal videira que é «Igreja». Crescem insatisfação e descontentamento, se não virem realizadas as próprias ideias superficiais e erróneas de «Igreja» e os próprios «sonhos de Igreja»! Então cessa também aquele jubiloso cântico «Agradeço ao Senhor que por graça me chamou à sua Igreja» que gerações de católicos cantaram com convicção.

E, no seu discurso, o Senhor continua dizendo: «Permanecei em Mim, que Eu permaneço em vós. Tal como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, mas só permanecendo na videira, assim também acontecerá convosco, se não permanecerdes em Mim (…), pois, sem Mim – poder-se-ia traduzir também: fora de Mim –, nada podeis fazer» (Jo 15, 4-5).

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Deus sabe transformar em amor mesmos as coisas pesadas e acabrunhadoras da nossa vida. Importante é «permanecermos» na videira, em Cristo. Neste breve trecho, o evangelista usa uma dúzia de vezes a palavra «permanecer». Este «permanecer-em-Cristo» caracteriza o discurso inteiro. No nosso tempo de inquietação e indiferença, em que tanta gente perde a orientação e o apoio; em que a fidelidade do amor no matrimónio e na amizade se tornou tão frágil e de breve duração; em que nos apetece gritar, em nossa necessidade, como os discípulos de Emaús: «Senhor, fica connosco, porque anoitece (cf. Lc 24, 29), sim, é escuro ao nosso redor!»; aqui o Senhor ressuscitado oferece-nos um refúgio, um lugar de luz, de esperança e confiança, de paz e segurança. Onde a secura e a morte ameaçam os ramos, aí, em Cristo, há futuro, vida e alegria.

Permanecer em Cristo significa, como já vimos, permanecer na Igreja. A comunidade inteira dos crentes está firmemente unida em Cristo, a videira. Em Cristo, todos nós estamos conjuntamente unidos. Nesta comunidade, Ele sustenta-nos e, ao mesmo tempo, todos os membros se sustentam uns aos outros. Juntos resistem às tempestades e oferecem protecção uns aos outros. Não cremos sozinhos, mas cremos com toda a Igreja.

Como anunciadora da Palavra de Deus e dispensadora dos sacramentos, a Igreja une-nos com Cristo, a videira verdadeira. A Igreja, como «a plenitude e o completamento do Redentor» [Pio XII, Mystici corporis, AAS 35 (1943), p. 230: «plenitudo et complementum Redemptoris»], é para nós penhor da vida divina e medianeira dos frutos de que fala a parábola da videira. A Igreja é o dom mais belo de Deus. Por isso, diz Santo Agostinho, «cada um possui o Espírito Santo na medida em que ama a Igreja de Cristo» (In Ioan. Ev. tract. 32, 8: PL 35, 1646). Com a Igreja e na Igreja, podemos anunciar a todos os homens que Cristo é a fonte da vida, que Ele está presente, que é a realidade grande por que anelamos. Dá-Se a Si mesmo. Quem crê em Cristo, tem um futuro. Porque Deus não quer aquilo que é árido, morto, artificial, e que no fim é deitado fora, mas quer as coisas fecundas e vivas, a vida em abundância.

Do sermão do Papa Bento XVI na Santa Missa celebrada em Berlim – 22 de setembro de 2011.

Fratres in unum

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