A encarnação do Verbo é uma realidade que nos assombra, nos surpreende. Tal idéia, um Deus que se faz homem, que se faz uma pequena criança, quem de nós poderia tê-la? É tão acima da nossa mentalidade humana, tão além das nossas pretensões que muitas vezes nos pegamos tentando entender, racionalizar a encarnação do Verbo. Para nos ajudar nessa compreensão, vamos agora elencar algumas razões apontadas pelo Catecismo da Igreja Católica para esse acontecimento da encarnação. Essas razões tornam mais claro o sentimento de Deus, por assim dizer, pela humanidade ao prever a encarnação no plano da salvação, muito embora ela sempre seja um mistério para nós.

A primeira razão para a encarnação do Verbo, segundo o Catecismo da Igreja Católica (1), é o conhecimento do amor de Deus: “O Verbo se fez carne para que, assim, conhecêssemos o amor de Deus”. A pedagogia de Deus conosco é incrível! Pensemos um momento que o homem, ainda que possuindo uma alma espiritual, é um ser corpóreo e é através do seu corpo, dos seus sentidos que ele capta o mundo ao seu redor. Podemos então nos fazer uma pergunta: como Deus, que é puro espírito, poderia comunicar ao homem corporal o Seu Amor? A partir das criaturas! E Deus chega ao máximo do amor pelo homem ao formar um corpo para o Seu próprio Filho Unigênito: “Eis por que, ao entrar no mundo, Cristo diz: Não quiseste sacrifício nem oblação, mas me formaste um corpo” (Hb 10, 5). E para que esse Corpo é formado? Para que toda a humanidade pudesse tocar de forma palpável o Seu amor, como nos asseguram as Sagradas Escrituras: “Pois Deus amou tanto o mundo, que deu seu Filho Único, a fim de que todo o que crer nele não pereça, mas tenha a Vida Eterna” (Jo 3, 16), ou ainda “Nisto manifestou-se o amor de Deus por nós: Deus enviou seu Filho Único ao mundo para que vivamos por Ele” (1Jo 4,9). Assim, o Amor de Deus se tornou muito mais acessível ao homem, que pôde tocar, ver, relacionar-se com esse Amor segundo a sua natureza. Para nós, homens e mulheres desse século tão moderno, a presença de Cristo sensível e palpável se faz através dos Sacramentos, de modo muito particular o sacramento da Eucaristia.
A segunda razão que o Catecismo nos apresenta é que o Verbo se fez carne para tirar os pecados e alcançar-nos salvação. Não contente em nos amar de forma temporal, no momento em que vivemos, Ele quer poder nos amar de forma eterna, sem que haja o pecado ou qualquer outra barreira para impedir a realização desse amor. Juntamente com o Credo niceno-constantinopolitano, respondemos, confessando: “E por nós, homens, e para nossa salvação, desceu dos céus e se encarnou pelo Espírito Santo, no seio da Virgem Maria, e se fez homem”. Quem poderia pagar a dívida contraída em Adão? A ofensa realizada contra Deus no jardim do Éden fora por demais pesada para que qualquer homem pudesse repará-la. O único homem capaz de realizar tal obra é Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem. Por essa carne que a segunda pessoa da Santíssima Trindade assume, a carne humana é restaurada. Vejamos esse belíssimo trecho do Catecismo (2): “Doente, nossa natureza precisava ser curada; decaída, ser reerguida; morta, ser ressuscitada. Havíamos perdido a posse do bem, era preciso no-la restituir. Enclausurados nas trevas, era preciso trazer-nos à luz; cativos, esperávamos um salvador; prisioneiros, um socorro; escravos, um libertador. Essas razões eram sem importância? Não eram tais que comoveriam a Deus a ponto de fazê-lo descer até nossa natureza humana para visitá-la, uma vez que a humanidade se encontrava em um estado tão miserável e tão infeliz?” Temos ainda o testemunho das Sagradas Escrituras que corroboram essa verdade tão bela: “Foi Ele que nos amou e enviou-nos seu Filho como vítima de expiação por nossos pecados” (1Jo 4,10). “O Pai enviou seu Filho como o Salvador do mundo” (1Jo 4,14). “Este apareceu para tirar os pecados” (1Jo 3,5):
Uma outra razão é a necessidade que o homem tem de um modelo na busca da santidade. O homem sempre precisou de guias, de modelos ao longo da história e Cristo se faz O modelo por excelência, Aquele que conhece em tudo a humanidade, sem experimentar no entanto o pecado. Cristo é Aquele que sonda o coração do homem e sabe qual o melhor caminho para o mesmo: “Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim…” (Mt 11,29). “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida; ninguém vem ao Pai a não ser por mim” (Jo 14,6). E o Pai, no monte da Transfiguração, ordena: “Ouvi-o” (Mc 9,7). Pois Ele é o modelo das Bem-aventuranças e a norma da Nova Lei: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 15,12).
Temos ainda uma quarta razão que é a inauguração da nova criação. A humanidade, decaída a partir do pecado original, espera pela inauguração da nova criação. Uma criação que só pode surgir a partir do Novo Adão, Jesus, que foi concebido pelo poder do Espírito Santo no seio da Virgem Maria, conforme nos diz São Paulo na Primeira Carta aos Coríntios: “O primeiro homem, tirado da terra, é terrestre; o segundo homem vem do Céu” (1Cor 15, 47). Este homem que vem do Céu é pleno do Espírito Santo desde a Sua concepção, pois Deus “lhe dá o Espírito sem medida” (Jo 3,34). É da “plenitude dele”, cabeça da humanidade remida, que “nós recebemos graça sobre graça” (Jo 1,16).
Temos, por fim, a última razão que, entre todas, provavelmente é a mais desconcertante, pois Deus não se contentou em nos amar, em nos salvar, em nos dar um modelo, em abrir uma nova criação para nós, mas desejou nos dar a participação na natureza divina. Sim, isso mesmo! “O Verbo se fez carne para tornar-nos “participantes da natureza divina” (2Pd 1,4). “Pois esta é a razão pela qual o Verbo se fez homem, e o Filho de Deus, Filho do homem: é para que o homem, entrando em comunhão com o Verbo e recebendo, assim, a filiação divina, se torne filho de Deus”(3). Essa é uma verdade belíssima, que Deus tenha nos amado tanto que nos inseriu dentro do seio da Trindade através do Filho Encarnado, dando-nos de Sua própria Vida, fazendo-nos passar de uma condição de meras criaturas a uma condição de filhos de Deus!
“Unigenitus Dei Filius, suae divinitatis volens nos esse participes, naturam nostram assumpsit, ut homines deos faceret factus homo.” – O Filho Unigênito de Deus, querendo-nos participantes de sua divindade, assumiu nossa natureza para que aquele que se fez homem, dos homens fizesse deuses.
Que nós possamos meditar profundamente em todas essas razões; e não nos cansemos de nos maravilhar diante dos milagres que Deus faz em favor de nós, homens tão frágeis e necessitados do Seu Amor.

(1) Catecismo da Igreja Católica, 458.
(2) Idem, 457.
(3) Idem, 460.

Tatiana Oliveira
Consagrada na Comunidade Católica Pantokrator

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