Santo, eu? Por que? E para que?

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Ao pensarmos na palavra santidade, geralmente nos vem à mente a figura daqueles santos e santas canonizados pela Igreja Católica e que são “objeto” da devoção e veneração dos cristãos católicos. Bilhões de homens e mulheres, no decorrer de dois milênios, se entregaram ao seguimento de Cristo. Contudo, não mais que 4.000 destes foram canonizados, isto é, proclamados santos. E por que a Igreja os declarou santos? Pelo fato de terem se destacado através de uma vivência mais radical e fiel do Evangelho, vivendo alguns aspectos deste de uma forma “heróica”, extraordinária, ou seja, além do que é ordinário, comum, tornando-se assim modelo de vida e santidade para as pessoas do seu tempo e também de tempos posteriores aos seus. O Papa Paulo VI, na homilia da beatificação de Santa Beatriz da Silva, nos diz: “Os santos constituem sempre uma provocação para o conformismo dos nossos costumes, que com freqüência julgamos prudentes simplesmente por serem cômodos. O radicalismo do testemunho dessas figuras heróicas vem a ser uma sacudidela para a nossa preguiça e um convite a que descubramos certos valores esquecidos”.

No entanto, apesar de esses santos terem recebido um chamado e uma graça especial para viver a santidade (não somente em virtude deles mesmos, mas para o bem de toda a Igreja), este chamado à santidade não é uma exclusividade deles, mas é o chamado essencial de todo ser humano. “Deus chama-nos a todos a esta íntima união com Ele, mesmo que graças especiais ou sinais extraordinários desta vida mística sejam concedidos apenas a alguns, em vista de manifestar o dom gratuito feito a todos.” (1) É o próprio Deus que nos fala: “Sede santos, porque eu, YHWH, sou santo”. E no Concílio Vaticano II, a Igreja confirma esse chamado de Deus: “Todos os fiéis cristãos, de qualquer estado ou ordem, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade”. (2) “Todos são chamados à santidade: ‘Deveis ser perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito”.(3)
É importante distinguirmos inicialmente santidade de perfeição: “Não se pode confundir santidade no homem com perfeição. A perfeição é própria de Deus. Deus é perfeito em tudo e tudo nEle é perfeito. A perfeição pressupõe a condição divina de ser pleno, completo acabado, de forma a ser subsistente em si mesmo, ou seja, não precisa de nada fora de si para se realizar ou melhorar. A condição de criatura no homem pressupõe a imperfeição, pois o homem sempre precisará melhorar. Na perfeição não existe ganho ou perda, melhora ou piora, pois por essas mudanças se torna mais ou menos perfeito, o que fere o princípio segundo o qual a perfeição é completa, sem possibilidade de melhora ou piora. Os santos não são perfeitos. Mesmo os canonizados e colocados sobre os altares não são perfeitos. Mas são pessoas que se encheram de tal maneira da vida de Deus, santificaram-se de uma tal maneira que a Igreja os venera dessa forma. Então, o santo não é perfeito, ele participa de uma forma profunda da santidade de Deus. Lógico que por causa disso ele é cheio de Deus e cheio da perfeição. Mas ele não é perfeito, seus atos não são perfeitos. Perfeito, somente Deus.”
Mas, afinal, o que é ser santo? Primeiro é preciso entender que santidade é um atributo próprio de Deus, é de Sua própria essência ser santo. Seu ser é que define a santidade e em Deus a santidade é perfeição, que é própria do ser absoluto.
E em relação ao homem? O que vem a ser santidade para este? Ele é chamado à santidade, mas esta não faz parte da sua essência. É necessário, portanto, que ele seja santificado. Como acontece, então, este processo de santificação? Geralmente temos a tendência de pensar que tal processo acontece da seguinte forma: vou fazendo boas obras, orando, aprendendo a ser bom, a amar a Deus e ao próximo, tendo uma vida virtuosa, e assim vou chegando à santidade. No entanto, apesar de a maior parte das pessoas pensar assim, devo informar que isso é pura presunção farisaica, uma concepção moral de santidade, pensando que chegamos à santidade através do cumprimento das leis, dos mandamentos, das boas obras. Se fosse assim, chegaríamos à santidade por mérito. No entanto, a santificação do homem ocorre através da GRAÇA. E quando se inicia este processo de santificação? Exatamente no momento do nosso Batismo, quando recebemos o Espírito Santo, a vida de Deus em nós: “Os seguidores de Cristo são chamados por Deus não por suas obras, mas segundo seu desígnio e sua graça. Eles são justificados no Senhor Jesus porquanto pelo batismo da fé se tornaram verdadeiramente filhos de Deus e participantes de sua natureza divina e, portanto, realmente santos”. (4). Nesse texto, a palavra justificação é sinônimo de santificação. Podemos, portanto, concluir sobre o que é santidade para o homem da seguinte forma: “No homem, a santidade significa a união com Deus que é o Santo… A santidade acontece pela participação do homem no mistério de Cristo pelo Espírito Santo.”
Mas, se o Batismo nos torna santos, por que continuamos caindo no pecado? Porque o Batismo, apesar de nos libertar do pecado original, não elimina em nós a concupiscência, que não é o pecado, mas as nossas inclinações ao pecado. E cada vez que cedemos a ela, caímos no pecado, ou seja, não vivemos conforme convém a santos. Isso também porque Deus nos dá o livre arbítrio, a liberdade para viver conforme a Sua vontade ou não: “A livre iniciativa de Deus pede a livre resposta do homem.” (5) Assim percebemos que nosso processo de santificação não é estático, mas deve ser contínuo, pois há uma “distinção entre a santificação recebida de Deus (ontológica ou objetiva), e a santificação que deve ser vivida, conservada e aperfeiçoada pelo cristão, ou santidade subjetiva, como resposta humana. Somos santos (santidade objetiva ou ontológica) e por isso devemos agir como santos (santidade subjetiva). O agir é consequência do ser. Devemos viver e realizar aquilo que somos: “Devemos rematar a obra da santificação” (2Cor 7,1). “O santo santifique-se mais” (Ap 22,11). Não vivemos uma vida virtuosa para chegarmos a ser santos, mas porque somos santos por isso nos esforçamos para obter uma disposição firme e constante para o bem: viver “como convém a santos” (Ef 5,3) e “como escolhidos de Deus, santos e amados, se revistam de sentimentos de carinhosa compaixão, bondade, mansidão, longanimidade” (Cl 3,12); e dêem os frutos do Espírito para a santificação. Portanto, o que nos faz realmente santos é: o chamado do Pai; a justificação pelo Filho; a infusão do Espírito Santo e sua moção interior a um total amor a Deus e ao próximo, ‘como Cristo’; a transformação em filhos adotivos de Deus; a participação na natureza divina; acentua-se ainda a gratuidade de todo esse processo.
Muitas pessoas, infelizmente até de dentro da Igreja, dizem que essa forma de enxergar a santidade conforme a Igreja nos ensina deixa os católicos, principalmente os leigos, alienados, com o coração e os pensamentos nos céus, esquecendo-se do mundo, da nossa dura realidade, indiferentes ao que acontece na sociedade, às injustiças, à violência, ao sofrimento do próximo. Infelizmente isso realmente acontece, mas a culpa não pode cair sobre Deus, sobre a Igreja, pois o grande problema é que muitos cristãos não perceberam a dignidade do seu chamado, da sua missão. Basta lermos a Exortação Apostólica Christifidelis Laici, do Papa João Paulo II, sobre a vocação e missão dos leigos na Igreja e no mundo, para perceber que a Igreja exorta e envia os leigos a fazer com que os valores do Evangelho sejam semeados no mundo, na sociedade, política, economia, na cultura, na família, no trabalho, fazendo com que no mundo cada vez mais se vivam os valores do Reino de Deus, que se consumará um dia plenamente somente no Céu. “O ‘mundo’ torna-se, assim, o ambiente e o meio da vocação cristã dos fiéis leigos, pois também ele está destinado a dar glória a Deus Pai em Cristo. O Concílio pode, então, indicar qual o sentido próprio e peculiar da vocação divina dirigida aos fiéis leigos. Estes não são chamados a deixar o lugar que ocupam no mundo.
O Batismo não os tira de modo nenhum do mundo, como sublinha o apóstolo Paulo: ‘Irmãos, fique cada um de vós diante de Deus na condição em que estava quando foi chamado’ (1 Cor 7,24); mas confia-lhes uma vocação que diz respeito a essa mesma condição intra-mundana: pois os fiéis leigos ‘são chamados por Deus para que aí, exercendo o seu próprio ofício, inspirados pelo espírito evangélico, concorram para a santificação do mundo a partir de dentro, como fermento, e deste modo manifestem Cristo aos outros, antes de mais, pelo testemunho da própria vida, pela irradiação da sua fé, esperança e caridade’. Dessa forma, o estar e o agir no mundo são para os fiéis leigos uma realidade, não só antropológica e sociológica, mas também, e especificamente teológica e eclesial, pois é na sua situação intra-mundana que Deus manifesta o Seu plano e comunica a especial vocação de ‘procurar o Reino de Deus tratando das realidades temporais e ordenando-as segundo Deus’”.
No Documento de Aparecida, os bispos Latino-Americanos e do Caribe exortam-nos também: “Ao participar desta missão, o discípulo caminha para a santidade. Vivê-la na missão o conduz ao coração do mundo. Por isso, a santidade não é fuga para o intimismo ou para o individualismo religioso, tampouco abandono da realidade urgente dos grandes problemas econômicos, sociais e políticos da América Latina e do mundo, e muito menos fuga da realidade para um mundo exclusivamente espiritual.” (6) “A condição do discípulo brota de Jesus Cristo como de sua fonte, pela fé e pelo batismo, e cresce na Igreja, comunidade onde todos os seus membros adquirem igual dignidade e participam de diversos ministérios e carismas. Desse modo, realiza-se na Igreja a forma própria e específica de viver a santidade batismal a serviço do Reino de Deus.” (7). E por último é o próprio Papa Bento XVI que conclama toda a Igreja: “Dos que vivem em Cristo se espera um testemunho muito crível de santidade e compromisso. Desejando e procurando esta santidade não vivemos menos, e sim melhor porque, quando Deus pede mais, é porque está oferecendo muito mais: ‘Não tenham medo de Cristo! Ele não tira nada e dá tudo!’” (8)
Diante disso tudo, percebemos que somente em Deus o homem é capaz de ser verdadeiramente feliz e de se realizar plenamente, se deixar com que a vida de Deus penetre em toda a sua história, em toda a sua vida, em todo o seu ser. Pois foi para isso que ele foi criado num ato de amor: para participar da vida de Deus, da Sua glória, para viver da glória de Deus e assim se transformar num louvor da glória de Deus. Somente em Deus o homem vai encontrar repouso para sua alma, para seu coração inquieto, sedento de algo que ele sabe que está muito acima dele.
Neste mundo atual, em que tantos homens vivem tão afastados de Deus, entregues às suas paixões, ao materialismo, ao hedonismo, à superficialidade, em que o homem é manipulado, usado, “coisificado”, podemos perceber o quanto é atual aquele texto do Evangelho segundo São João, em que Jesus diz à samaritana, e ainda hoje grita ao mundo: “Ah, se conhecesses o dom de Deus, e quem é que te diz: ‘Dá-me de beber’, tu é que lhe pedirias e ele te daria água viva!…Aquele que bebe desta água terá sede novamente; mas quem beber da água que lhe darei, nunca mais terá sede. Pois a água que eu lhe der tornar-se-á nele fonte de água jorrando para a vida eterna”. E o que vem a ser esse dom de Deus que Jesus fala senão a vida de Deus em nós, a graça, o Espírito Santo habitando em nosso ser, ou seja, a santidade?

Bibliografia
Papa João Paulo II,“Exortação Apostólica Christifidelis Laici”.
Frei Boaventura Kloppenburg, “A Fé do Cristão Católico Hoje”.
Documento de Aparecida, 2007
André Luis B. de Andrade, Santidade Comum pela Fidelidade Incondicional.

(1) Catecismo da Igreja Católica, nº 2014.
(2) Constituição Dogmática “Lumen Gentium”, nº 40.
(3) CIC 2012.
(4) Idibem.
(5) CIC 2002.
(6) Documento de Aparecida, nº 148
(7) Idem, nº 184
(8) Bento XVI, Homilia na imauguração do Pontificado, 24/04/2005.

Ricardo Bidóia
Consagrado na Comunidade Católica Pantokrator

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