Vida eucarística

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Você já reparou como você se acostuma facilmente às coisas? Quando alguma coisa muda em nossas vidas, em nossa rotina, no início costumamos reclamar, temos alguns probleminhas de adaptação, mas em geral, rapidamente nos integramos à mudança e não nos lembramos mais como era antes. O ser humano tem uma grande capacidade de assimilar novas realidades e de se esquecer das anteriores, especialmente no que tange àquilo que faz parte da vida cotidiana.

Esse “acostumar-se” muitas vezes nos leva a uma perda de sentido. Vivemos muitas coisas, mas não sabemos mais por quê; nem mesmo reconhecemos a importância real que aquilo tem para nós. Podemos perceber isso com o nosso trabalho, com os familiares que nos rodeiam, com nosso carro… Tanto que existe um provérbio que diz que só percebemos o valor das coisas que temos quando as perdermos! Triste realidade… Pense na comidinha da sua mãe, que você só percebeu que era boa e necessária quando saiu de casa; ou no sorriso daquele vizinho, que você só se deu conta que era simpático quando se mudou ou em tantos outros pequenos exemplos como esses.
Essa característica humana, aliada a muitas outras circunstâncias históricas, faz de nós hoje pessoas quase insensíveis e, especialmente, pessoas que acreditam poder viver sem Deus. É assombroso o número de pessoas que “descobrem” Deus quando vêem a morte ou o sofrimento se aproximando. O homem moderno se acredita capaz de caminhar à margem de Deus e, mais ainda, à margem da Igreja e à margem dos sacramentos. Talvez você esteja dizendo de si para si: graças a Deus que eu não sou um desses; acredito em Deus, vou sempre à Missa… Mas será que você, eu, não somos realmente como esses ?
Sem dúvida, reconhecer a existência de Deus, crer n’Ele, participar da santa Missa, já são passos fundamentais para não entrarmos nas estatísticas dos que estão à margem de Deus. Mas será que é suficiente para que eu entre naquele grupo “dos que fazem a vontade do Pai”? (Mt 7, 21). Isso não significa retomar a visão de um Deus carrasco, mas significa despertar para o que eu realmente vivo na minha fé. Deus é uma pessoa ativa e participante na minha vida cotidiana ou eu já estou tão acostumado aos meus trabalhos paroquiais, aos meus compromissos de oração e até mesmo à própria Palavra de Deus, que tornei-me quase que indiferente a tudo isso ?
De modo particular, isso pode acontecer com o Sacramento da Eucaristia. É algo de tão extraordinário, e ao mesmo tempo acontece de forma tão comum, que corremos um risco imenso de nos habituarmos a ele e…só! Justamente o que nos confunde é o “comum” da Eucaristia. Sabemos que é o Corpo e o Sangue de Cristo Vivo, mas tudo acontece de uma forma aparentemente tão corriqueira que vamos “desligando” a nossa capacidade de entrar em contato com a realidade que está ali, no sacramento, ao alcance dos nossos olhos e das nossas mãos.
Entre todas as coisas que Cristo fez, sem dúvida, a mais significativa foi dar Seu Corpo Imaculado por amor a nós. Ele não somente aceitou um Corpo – Ele, que era puro Espírito – mas Ele deu Seu Corpo na Última Ceia e, para deixar claro que não era uma linguagem figurada, Ele deu Seu Corpo na Paixão e na Cruz. Ele deu Seu Corpo para nos comprar a preço dos Seus sofrimentos e de Suas chagas, Ele Se deu para nos resgatar do pecado e nos salvar da morte, mas Ele deu Seu Corpo e Seu Sangue para que esse resgate, essa salvação fossem verdadeiros na minha vida hoje. E como isso se torna verdadeiro hoje, como chega a mim, a você, hoje? Pela atualização do Sacrifício de Cristo que se dá na Eucaristia. Se não houvesse, a cada Missa, o memorial da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo, não seria possível a nós, pequenos seres humanos, experimentar o Amor de Deus, vencer o apelo do pecado e encarnar os valores cristãos. Isso só é possível porque podemos comer a Carne e beber o Sangue d’Aquele que é o Novo Adão, a nova criação. Eu posso ser uma nova criatura porque posso me alimentar d’Aquele que é o Novo Adão, Cristo!
São Paulo nos diz : “Todo aquele que está em Cristo é uma nova criatura, passou o que era velho, eis que tudo se fez novo” (2Cor 5, 17) Como é que essa nova criatura nasce em mim, cresce em mim, firma-se em mim? À medida que eu me alimento de Cristo! Comungando d’Aquele que em tudo fez a vontade do Pai, eu posso ser um dos que fazem a vontade do Pai! E isso não é um sonho, não é um exagero como muitos querem fazer crer, mas é uma necessidade que Deus de antemão conhecia: Deus sabia que sem esse alimento, sem esse Corpo para me nutrir, sem esse Sangue para me lavar, eu não poderia nunca chegar ao Céu. E mais uma vez Deus se manifesta como Providência em nossas vidas, nos dando todas as condições necessárias para que estivéssemos constantemente ligados a Ele. Quando Jesus diz “Eu sou o pão da vida. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão que eu hei de dar é a minha carne para a salvação do mundo” (Jo 6, 51), Ele não está falando de uma imagem, Ele está falando de algo concreto, real. E por isso a necessidade de exorcizarmos de nossas vidas toda a visão banalizada da Eucaristia, todo o acostumar-se com esse santo e indispensável Sacramento. É preciso renovar todos os gestos, desde os menores, como por exemplo a maneira como nos dirigimos para a fila da comunhão ou a recebemos, os mais necessários como uma boa confissão, até os absolutamente essenciais como um profundo acolhimento do Sagrado que Se dá livremente em nossas bocas e em nossas mãos. Não se trata de um piedosismo, mas de uma participação ativa e coerente do mistério do céu que vem ao encontro do homem para amá-lo e para fortalecê-lo.
Essa participação ativa tem conseqüências práticas no nosso cotidiano. A partir da união com o Cristo Vivo, o nosso ser vai se moldando ao ser de Cristo, começamos um processo de conversão interior, de nos assemelharmos a Jesus no perdão, no acolhimento do próximo, na abertura à vontade do Pai. O nosso homem novo encontra na Eucaristia alimento para se fortalecer; as virtudes da fé, da esperança e da caridade têm condições de crescer em nós. O desejo pela oração, pelo conhecimento de Deus se intensifica dentro de nós. E nos tempos duros das provações, dos desertos interiores e exteriores, é a Eucaristia que nos sustenta, que permite que os nossos olhos fiquem fixos em Deus, mesmo quando ventos impetuosos tentam nos carregar para longe.
É também a Eucaristia que abre uma fonte dentre de nós: a fonte do desejo pela salvação do outro. Jesus nos disse que “Se alguém tiver sede, venha a mim e beba… e do seu interior manarão rios de água viva” (Jo 7, 37-38). Ora, bebemos do Sangue de Cristo e pode surgir em nós uma fonte da qual outros beberão. Comungando do Senhor, somos sensibilizados pela causa que está no coração de Deus: a salvação dos homens. Nosso próprio coração não é mais insensível ao chamado de Deus e podemos responder como Isaias “Ouvi entao a voz do Senhor que dizia : ‘Quem enviarei eu ? E quem irá por nos?’ – ‘Eis-me aqui, disse eu, enviai-me’” (Is 6, 8). Somente uma comunhão profunda com o Senhor nos dá a coragem para dizermos também nós “Senhor, eis-me aqui, enviai-me”.
Somente quando sentimos o que Cristo sente, quando comungamos do Seu amor pela pessoa humana, quando mergulhamos na miséria que é o homem sem Deus, podemos realmente compreender o significado da ordem do Senhor “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda a criatura” (Mc 16, 15); e podemos assumir a única resposta possível para aquele que comunga Deus: “Eis-me aqui, enviai-me”.
A participação na Eucaristia nos torna enamorados de Deus, vamos nos apaixonando por Ele, percebemos aos poucos que não podemos viver sem Ele, que a Sua vontade para nós é fonte de todo bem e de toda a felicidade.
Descobrimos, enfim, o maná que nos alimenta hoje, que gera em nós uma energia e uma alegria de vida que não encontramos em nenhum outro lugar. É nossa carne santificada pela Carne d’Ele, nossa alma tocada pela Alma de Cristo, nossas vestes alvejadas pelo Seu Sangue, nossa vida misturada à d’Ele, nosso querer perdido no d’Ele, nossa esperança encontrada n’Ele. E quem comunga assim se acostuma, sim, mas se acostuma à chama ardente do Amor de Deus, escapa à frieza da rotina e descobre a cada dia um desafio novo cheio de sentido.

Tatiana Oliveira
Consagrada na Comunidade Católica Pantokrator

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