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A dor da perda de um filho dentro da vontade de Deus

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Sempre coloquei para Nossa Senhora meu desejo de imitá-la em tudo que eu pudesse, menos na perda de um filho. Mas ela me mostrou que quando abraçamos verdadeiramente a Cristo, abraçamos Cristo todo, não em partes.

Era uma quinta-feira quando tivemos o diagnóstico da síndrome da Celina: Síndrome de Edwards. Celina era minha quarta filha, ela tinha por volta de quatro meses de vida intrauterina. É uma síndrome letal que a criança dificilmente passa dos três anos de idade. Como mencionei, era quinta-feira, porém, não uma quinta qualquer. Era nada mais que a quinta-feira santa: última ceia, instituição da Eucaristia e passaríamos com Jesus Cristo e Maria Santíssima esse momento de fé, amor e paixão, morte e vida nova, ressurreição.

No sábado de aleluia, eu e meu marido, fomos à consulta solicitada pelo médico que havia dado o diagnóstico e ele sugeriu aborto. Logicamente isso nunca foi para nós, nem de longe, uma “opção”, mesmo a perda de nossa filha ser algo inevitável, pelo menos do ponto de vista médico. Colocou-nos os riscos dessa gravidez e os sofrimentos que poderíamos passar, mesmo assim, jamais permitiríamos que tirassem a vida de nossa filha por quaisquer motivos que alegassem. Não! O amor suporta e supera, dá a vida pelo amado, não tira. Assumimos os riscos com confiança e tranquilidade e, ao final, o médico nos parabenizou pela decisão.

A dor da perda de um filho dentro da vontade de DeusDiante desse quadro eu tinha duas opções: viver minha gestação como num cemitério ou acreditar na vida. Decidi acreditar num milagre e incentivei uma rede de orações por ela. Esse já era o primeiro fruto da Celina: levar muitos à oração. Conhecidos e desconhecidos percorreram conosco esse caminho de fé, pois eu e meu marido, estávamos unidos num mesmo propósito e disposição que viveríamos esse momento em estado de louvor. Toda a Comunidade se uniu a nós, numa só família, e o sustento que nos deram foi extraordinário! Não deixamos de preparar nada para sua chegada: reformamos a casa, trocamos nosso carro por um com mais lugares, providenciamos tudo o que ela precisaria, desde roupinhas até carrinho, enfeites etc. Tudo vivido com muito amor e alegria.

Celina continuava se desenvolvendo sem marcas da síndrome em seus órgãos, exceto a válvula do coração, a qual levantou a suspeita do início. Os ultrassons eram frequentes e tudo sendo acompanhado bem de perto, nos dava segurança. Nessas semanas que se passaram, pude viver o que antes só conhecia por teoria: o sentido do sofrimento, o amor incondicional, o louvor nas dificuldades, a confiança no amor de Deus, mesmo diante de uma possível perda, a fé vivida em meio ao desafio e atestar que essa teoria toda que havia aprendido nesses anos todos de comunidade era verdadeiramente fruto de experiências autênticas, não simplesmente palavras bonitas. Vivi um dos momentos mais desafiantes de minha vida com o “fardo leve e o jugo suave” do Redentor que não extingue sofrimentos, mas quando significado no amor, não pesa, é sacrifício que gera vida.

“Perda” para o Céu

Às trinta e quatro semanas de gestação, uma noite após seu chá de bebê, Celina se despediu dessa terra e foi logo para os braços de Jesus, levada por Nossa Senhora. Dia 02 de junho de 2012 foi seu nascimento para o Céu. Quando me disseram que seu coração já não batia mais, minha reação foi de silêncio e serenidade, me lembro de pensar: “perdemos a Celina, mas o Céu a ganhou!” Quando perdemos para o Céu, sempre ganhamos. Parecia-me estranha em minha própria reação… eu não deveria chorar desesperada? Entrar em estado de tristeza fúnebre ou ficar me lamentando desconsolada? Não. O que havia em meu coração era paz, sentimento de ter feito tudo o que eu podia por ela e amado-a muito em tudo. Vivi nossos momentos juntas com alegria por sua vida tão breve e significativa… gratidão por Deus ter me permitido ser mãe de uma menina tão especial que intercederia por nós junto a Ele a partir de então.

Celina foi sepultada no dia 07 de junho de 2012, Corpus Christi. Esses dias que passaram entre sua entrada no Céu e sua sepultura na terra foram por conta dos exames feitos pelo diagnóstico da síndrome, mas não só por isso. O caminhar com Celina foi concentrado entre as duas mais especiais datas eucarísticas da Igreja: Santa Ceia e Corpus Christi! Mais uma prova de amor de Deus por nós, por nossa família.

Em resposta ao meu pedido inicial à Nossa Senhora, ela me confidenciou que se alegrou comigo por eu ter ficado como ela, em pé, aos pés da Cruz. E eu tive a oportunidade de entregar tudo a Deus e receber tudo Dele.

Escrevo esse breve testemunho após quase seis anos de sua partida e vejo que bela herança de amor e esperança ela deixou! Sou muito feliz por ser mãe¹ da Celina, por tudo que vivi com ela. Celina foi um pedacinho de Céu aqui na terra e levou para o Céu um pedacinho da minha terra também.

Viver em Deus é maravilhoso! Quanto mais conseguirmos isso, mais felizes seremos: “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando-O e respeitando-O por todos os dias de nossas vidas!”

Rosana Vitachi
Consagrada da Comunidade Pantokrator

¹ Sou mãe também de Maria Luíza, Thereza e Tomaz; esposa de Lauro; publicitária, professora, escritora e consagrada na Comunidade Católica Pantokrator, o Filho da Virgem Maria.

Rosana Vitachi
Consagrada da Comunidade Católica Pantokrator

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