“A Igreja não vos esqueceu”: aos casais de 2ª união

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Nos últimos tempos podemos perceber o quanto a família, principalmente nos moldes cristãos, tem sido atacada, seja pelos meios de comunicação, políticas públicas, filosofias, ideologias, entre outros, multiplicando-se o número de casais que se separam, chegando posteriormente ao divórcio, incluindo-se muitos casais católicos, inclusive com vários anos de vida matrimonial. As causas são as mais diversas: traições; preparo inadequado para viver o matrimônio, iludindo-se romanticamente de que este vai ser um ‘felizes para sempre’; incapacidade de superar as dificuldades, egoísmos, imaturidades; o hedonismo, que ensina que temos que buscar a nossa própria felicidade e prazer, e, se o casamento não vai bem, se este tem sido fonte de brigas e sofrimento, ao invés de superar as diferenças e limitações pessoais, muitos acabam encontrando a solução mais fácil em acabar tudo e tentar de novo, com outra pessoa. E se não der certo, tenta-se de novo, e de novo. Porém, tudo isso acaba por ser uma fonte amarga de sofrimento, dor, angústia, tristeza, depressão, rancor, ódio, ressentimento, tanto para os cônjuges que se separam quanto para seus filhos, familiares, amigos, e inclusive para a própria Igreja: “Quando se rompe um matrimônio, não sofrem só os interessados, mas a Igreja também sofre. Quando se rompe este laço, a Igreja, em certo sentido, se empobrece, fica privada de um sinal luminoso que devia ser motivo de alegria e consolo” (1)

João Paulo II nos exorta: “Motivos diversos, quais incompreensões recíprocas, incapacidade de abertura a relações interpessoais etc. podem conduzir dolorosamente o matrimônio válido a uma fratura muitas vezes irreparável.

Obviamente que a separação deve ser considerada remédio extremo, depois que se tenham demonstrado vãs todas as tentativas razoáveis. A solidão e outras dificuldades são muitas vezes herança para o cônjuge separado, especialmente se inocente. Em tal caso, a comunidade eclesial deve ajudá-lo mais que nunca; demonstrar-lhe estima, solidariedade, compreensão e ajuda concreta de modo que lhe seja possível conservar a fidelidade mesmo na situação difícil em que se encontra; ajudá-lo a cultivar a exigência do perdão e do amor cristão e a disponibilidade para retomar eventualmente a vida conjugal anterior.” (2).

Como podemos ver a atitude mais correta para um casal católico que se separou seria buscar o perdão e reconstruir a vida matrimonial, mas, se isso for ‘impossível’, os dois deveriam levar uma vida de continência, não contraindo novas uniões com outro marido ou mulher, conforme o ensinamento de São Paulo: “Quanto àqueles que estão casados, ordeno não eu, mas o Senhor: a mulher não se separe do marido; se, porém, se separar, não se case de novo ou reconcilie-se com o marido; e o marido não repudie a esposa” (1Cor 7, 10). O próprio Senhor, também nos ensina: “Todo aquele que repudiar a sua mulher e desposar outra, comete adultério contra a primeira; e, se essa repudiar o seu marido e desposar outro, comete adultério” (Mc 10,11). “O que Deus uniu, o homem não separe” (Mt 19, 5-6) Assim sendo, apesar de toda pressão que diversos setores da sociedade têm exercido sobre a Igreja para que se legalize a segunda união não sacramental, ela, sendo fiel à sua missão, e à verdade revelada no Evangelho, não pode ir contra um ensinamento do próprio Cristo, explicitado nas Sagradas Escrituras.

Porém, nós sabemos que na maior parte dos casos não é o que ocorre, pois a grande maioria das pessoas que se separam busca um novo relacionamento, chegando a constituir uma nova família, ao que a Igreja chama de “casais de segunda união”. “Para a Igreja, no conceito jurídico, um casal de segunda união é quando um deles, ou ambos, receberam o sacramento do matrimônio, passaram pela separação e, por conseguinte, pelo divórcio; unindo-se, então, a uma outra pessoa. Já no conceito pastoral, os elementos de uma segunda união para a Igreja são: a vontade firme de formar uma nova e séria união responsável e aberta para a vida e estabilidade do casal, isto é, um estado permanente, e, sobretudo, o elemento mais importante que é percorrer um caminho de vida cristã” (3) Vemos assim que este conceito da Igreja sobre “casais de segunda união” não tem relação com aqueles relacionamentos “relâmpago” que tanto temos visto, que duram meses, semanas, dias, mas antes implica uma estabilidade e um estado permanente do relacionamento. Porém, a Igreja não considera essa nova modalidade de relacionamento um novo “status” dentro da própria Igreja a que se equipare a união sacramental. Um problema que surge é que, como a segunda união contradiz um mandamento do próprio Cristo, estas pessoas acabam permanecendo numa situação de pecado, o que impede que tais pessoas recebam os Sacramentos da Eucaristia e da Reconciliação. Podemos nos perguntar: “Mas não há situações em que as pessoas praticaram pecados muito piores e mesmo assim receberam o perdão? Então por que tais pessoas podem receber estes Sacramentos e casais de 2ª união não podem?”. D Estevão Bettencourt nos explica: “A propósito observe-se: todo pecado é suscetível de perdão, desde que se preencham duas condições: 1) arrependimento sincero ou repúdio profundo da falta cometida; 2) propósito de não voltar ao pecado ou de abandonar a situação pecaminosa. – Ora quem vive numa união irregular, pode arrepender-se de eventuais faltas que tenham levado à ruptura da primeira união, mas pode não estar disposto a abandonar a vida ilegítima que leva; em tal caso, não pode receber a absolvição necessária para comungar. – Vê-se que o cerne da questão está em considerar o casamento indissolúvel e, por conseguinte, afirmar que uma segunda união após matrimônio validamente contraído e carnalmente consumado é insustentável aos olhos da fé e da própria lei natural.” (4) Há outro motivo pastoral: “se se admitissem essas pessoas à Eucaristia, os fiéis seriam induzidos em erro e confusão acerca da doutrina da Igreja sobre a indissolubilidade do matrimônio.”

Apesar disso, não podemos nos esquecer de que a exclusão destas pessoas de receber tais Sacramentos não significa uma exclusão eclesial, ou seja, elas não estão excluídas da vida da Igreja. Porém, nós sabemos que muitas vezes tais casais acabam sendo marginalizados por pessoas da própria Igreja, muitas vezes numa atitude farisaica e contrária aos ensinamentos de Cristo, que nos ensina que devemos tratar a todos com misericórdia e acolhimento, pois também somos pecadores. E esta falta de acolhida e misericórdia é geralmente devastadora para os casais de segunda união, pois não nos esqueçamos de que praticamente todos eles já vivem um grande drama, pois os insucessos matrimoniais são marcados por um grande sofrimento devido à frustração do seu projeto conjugal. Isto nos leva a encarar uma triste estatística: 82% daqueles que estão divorciados e recasados deixam a Igreja Católica, porque não são acolhidos. Diante desta situação, a Igreja, na sua missão materna, é chamada a estar perto de quem tem o coração ferido, a chorar com os que choram (Rm 12,15), e com muito amor lembra a estes casais: “A Igreja não vos esqueceu e não vos rejeita, nem vos considera indignos”. E o saudoso Papa João Paulo II é quem lhes diz: “Estes homens e estas mulheres saibam que a Igreja os ama, não está longe deles e sofre pela sua situação. Os divorciados novamente casados são e permanecem seus membros, porque receberam o batismo e conservam a fé cristã”. “A Igreja, com efeito, instituída para conduzir à salvação todos os homens e, sobretudo, os batizados, não pode abandonar aqueles que – unidos já pelo vínculo matrimonial sacramental – procuram passar a novas núpcias. Por isso, esforçar-se-á infatigavelmente por oferecer-lhes os meios de salvação.” (2) A Igreja orienta que as paróquias criem pastorais específicas para acolher e orientar estes casais de segunda união, e que eles sejam encaminhados aos Tribunais Eclesiásticos, para avaliar se o matrimônio rompido é passível ou não de nulidade. A Igreja não concede anulação de matrimônio, pois não o pode fazer a um matrimônio válido e consumado segundo o princípio da indissolubilidade. O que a Igreja faz é declarar a nulidade daquele enlace que aconteceu de forma inválida. O matrimônio válido é indissolúvel, será válido para a vida toda. O matrimônio inválido ou nulo, na verdade, nunca chegou a existir (como sacramento). Hoje em dia, a maioria dos casos de separação e divórcio ocorrem devido a um matrimônio nulo. Por isso é realmente importante que os casais recorram ao Tribunal Eclesiástico.

Como já dissemos, tais casais, mesmos se forem discriminados por aqueles de dentro da Igreja que possuem consciência mais fraca, não podem se esquecer que, pela sua própria condição de batizados, fazem parte do corpo da Igreja, e Deus os chama a estarem juntos com ele, tanto na participação da vida litúrgica quanto em trabalhos de evangelização. Novamente João Paulo II nos diz: “Juntamente com o Sínodo exorto vivamente os pastores e a inteira comunidade dos fiéis a ajudar os divorciados, promovendo com caridade solícita que eles não se considerem separados da Igreja, podendo, ou melhor devendo, enquanto batizados, participar da sua vida. Sejam exortados a ouvir a Palavra de Deus, a freqüentar o Sacrifício da Missa, a perseverar na oração, a incrementar as obras de caridade e as iniciativas da comunidade em favor da justiça, a educar os filhos na fé cristã, a cultivar o espírito e as obras de penitência para assim implorarem, dia a dia, a graça de Deus. Reze por eles a Igreja, encoraje-os, mostre-se Mãe misericordiosa e sustente-os na fé e na esperança.”(2) “Com firme confiança ela (a Igreja) vê que, mesmo aqueles que se afastaram do mandamento do Senhor e vivem agora nesse estado, poderão obter de Deus a graça da conversão e da salvação, se perseverarem na oração, na penitência e na caridade.” (2)

Ricardo Bidoia
Consagrado na Comunidade Pantokrator

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