Família, Célula Vital da Sociedade

0

A família, cuja origem se dá pela união do homem e da mulher (íntima comunhão de vida e amor) e se desenvolve com nascimento dos filhos, foi criada e estruturada por Deus desde o princípio. Ela é uma instituição sapiente do Criador e não fruto da casualidade. “Matrimônio e família não são uma constituição sociológica casual, fruto de situações particulares históricas e econômicas. Pelo contrário, a questão da justa relação entre o homem e a mulher funde suas raízes na essência mais profunda do ser humano e só pode encontrar sua resposta a partir desta” (1).

familia-sorriso-ferias

 

“Não é bom que o homem esteja só” (2). Nessas palavras, com as quais Deus funda a família, encontramos uma verdade essencial a respeito do homem: ele é um ser criado para se relacionar e estabelecer comunhão com os seus semelhantes, pois foi criado à imagem e semelhança de Deus que é Trindade, comunidade de amor. O homem não foi feito para viver isolado, para ser auto-suficiente. Ele é frágil, depende de seus semelhantes, precisa do outro para sobreviver, para se realizar, tem uma necessidade do outro que reflete a sua necessidade do Outro Supremo: Deus.

A ciência também reconhece essa verdade a respeito do homem, pois a sociologia e a psicologia social definem o homem como um ser social: alguém que existe para se relacionar e conviver com os seus semelhantes. Conviver significa compartilhar, repartir, confiar, tolerar, ajudar, entender. Portanto, esse conceito sobre o homem não é uma determinação cristã, mas algo que faz parte da natureza humana. Da mesma forma a família e o matrimônio são uma decorrência natural da própria existência humana.

Quando se diz que o homem é um ser social por natureza, entende-se que cada indivíduo aprende a ser um homem nas relações com os outros homens, quando se apropria da realidade criada pelas gerações anteriores, através do aprendizado da cultura humana. Esse aprendizado se inicia na família a partir do nascimento da criança e prolonga-se por toda a sua vida nas relações interpessoais dentro e fora da família. Uma falha nesse processo de aprendizado que se dá na família compromete o desenvolvimento da pessoa e a sociedade sofre essas consequências. É comum hoje encontrarmos pessoas indiferentes ao sofrimento do próximo, que estragam os bens públicos, que violam as leis sem nenhum escrúpulo, que fazem qualquer coisa até mesmo prejudicar a outro para levar vantagem, que não se prendem a nenhum princípio moral, que são alheias aos problemas sociais, econômicos, políticos como se não vivessem no mundo, e tantas outras realidades cuja causa está no fato de essas pessoas não terem aprendido a ser pessoas verdadeiramente “humanas”. Uma falha que acontece principalmente porque hoje muitas famílias delegam a formação dos seus filhos a terceiros, como a escola, o Estado, entidades não governamentais etc, esquecendo-se do seu papel fundamental, que é: gerar e educar a vida humana para que cada pessoa seja um homem integral, humano no sentido pleno, e assim possa participar ativa e pessoalmente no progresso da humanidade.

Não podemos extrair da sociedade a importância fundamental da família sem cair em graves prejuízos. A família é a base, o fundamento, a célula vital de qualquer sociedade, pois é nela que a pessoa é formada e educada para se relacionar com os outros, com as coisas, com o mundo que a circunda e integrar a sociedade à qual pertence. Em certo sentido a pessoa se faz na família. Nela são constituídos os principais traços da identidade pessoal e os primeiros deles são desenvolvidos pelas relações familiares: a conjugalidade (entre os esposos), a paternidade e filiação (entre pais e filhos), a fraternidade (entre os irmãos). Nessas relações a pessoa adquire a mais completa consciência de si, da sua origem e do seu destino, ou seja, da sua identidade.

As relações familiares são o berço de todas as relações que cada pessoa irá desenvolver com as outras pessoas fora da família na sociedade. É na família que se aprendem as primeiras e determinantes noções da verdade e do bem e a educação para o sentido do trabalho. É nela que se aprende a respeitar e acolher o outro, a exercer a própria liberdade e responsabilidade, a ser solidário, a ajudar, a pedir e receber ajuda, a perdoar e ser perdoado, a ser companheiro e receber companhia, enfim, a amar e ser amado, pois toda família autêntica é uma comunidade de amor.

Só quando a família entender plenamente aquilo que ela é, ela poderá realmente assumir o seu papel essencial na sociedade de hoje. No desígnio de Deus, a família é o lugar primário de humanização da pessoa e da sociedade e berço da vida e do amor (3).

O homem se humaniza à medida que aprende a amar. E aprende a amar aquele que se sabe amado. É no seio da família que se inicia o aprendizado do amor, pois recebendo o amor dos pais e irmãos desde a gestação, após o nascimento e no decorrer do seu desenvolvimento, a pessoa humana aprende a amar. Por isso a família tem essa função especial, que não pode ser delegada a outrem, de educar os filhos, no amor e para o amor, para que se tornem pessoas adultas e maduras em sua dimensão humana e espiritual, contribuindo, assim, com a construção de uma sociedade mais solidária e mais humana.

O ambiente familiar é propício para desenvolver a solidariedade e a partilha nas pessoas que depois são transbordadas na sociedade como serviço atento e generoso para todos que delas necessitam. Para construir a pessoa como um sujeito social só há um caminho: consentir o desenvolvimento das capacidades comunitárias (relacionais) da pessoa como “ser chamado ao amor”. No ambiente de vida, próprio da família, a criança pode nascer e desenvolver suas potencialidades, tomar consciência da sua dignidade e preparar-se para enfrentar o seu único e irrepetível destino. Este é o dever da família, o qual se cumpre à medida que nela se constrói de fato uma comunidade de pessoas para as quais o modo apropriado de existir e de viver juntos é a comunhão, que significa viver a complementaridade das diferenças a partir da doação total de si e acolhida do outro.

“A família é a primeira escola de sociabilidade enquanto comunidade de amor, que encontra no dom de si a lei que a guia e faz crescer. O dom de si que inspira o amor mútuo dos cônjuges se torna modelo e norma do amor que deve se realizar nas relações entre os irmãos e entre as diversas gerações do convívio familiar. Essa comunhão e participação vivida na família, nos momentos de alegria e de dificuldade, representa a mais concreta e eficaz pedagogia para inserir os filhos de forma ativa, responsável e fecunda, no amplo horizonte da sociedade” (4).

Sendo assim, fica evidente que o bem das pessoas e o bom funcionamento da sociedade, estão estritamente ligados ao bem-estar da ‘comunidade conjugal e familiar’. “Sem famílias fortes na comunhão e estáveis no compromisso, os povos se debilitam” (5). Roma que o diga, pois a queda do Império Romano deveu-se à sua degradação moral e a conseqüente extinção das famílias. Hoje vivemos numa sociedade em que cada vez mais são abandonados os preceitos morais e com eles vem o combate contra a família. A cultura do sexo livre e irresponsável, da busca do prazer a qualquer custo, do culto ao corpo, do consumismo desenfreado, de cada vez mais acumular bens, do feminismo e do machismo, da relativização do valor da vida etc são ameaças claras contra a família. Mas, além disso, há um combate mais intenso através das tentativas de se aprovarem leis que se opõem aos direitos da família e dos seus membros, como por exemplo, a lei da homofobia em nosso país.

Se a família tem o seu papel fundamental na construção da sociedade, podemos afirmar que o Estado e a sociedade também têm o seu dever com relação à família, que se concretiza no reconhecimento, no respeito e na promoção dos direitos da família através da realização de políticas familiares autênticas. O Estado e a sociedade são chamados a garantir e favorecer a genuína identidade da vida familiar, salvaguardando através da ação política e das leis os valores da família. Mas para isso é necessário o pré-requisito do reconhecimento da identidade da família, sociedade natural fundada sobre o matrimônio.

Assim, é preciso que as famílias, assumindo com clareza o seu papel, se esforcem para que as leis e as instituições do Estado, não só não ofendam, mas sustentem e defendam positivamente os seus direitos e deveres. Nesse sentido, as famílias devem crescer na consciência de que são protagonistas para transformar a sociedade, pois “o futuro da humanidade passa pela família”.

(1) Bento XVI, Discurso de Abertura do Congresso Eclesial da Diocese de Roma em 06/06/05.
(2) Gn 2,18.
(3) Cf. Pontifício Conselho Justiça e Paz, Compêndio da Doutrina Social da Igreja, n 209.
(4) Cf. João Paulo II, Exortação Apostólica Familiaris Consortio, n. 37.
(5) Cf. Pontifício Conselho Justiça e Paz, Compêndio da Doutrina Social da Igreja, n. 213.

Luciane Bidóia
Consagrada na Comunidade Católica Pantokrator

Deixe uma resposta

Por favor, insira seu comentário!
Por favor, insira seu nome aqui.