Autoconhecimento do homem: como viver melhor sua masculinidade

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autoconhecimento-do-homemVivemos tempos confusos e obscuros. Provavelmente mais do que em qualquer outra época da humanidade, nossos tempos atuais foram inundados por filosofias e ideologias que vieram causar profundas mudanças em nossa sociedade, seja no campo ético, moral, sexual, algumas para melhor e outras demasiadamente para pior. Isto tem levado os seres humanos a uma profunda e grave crise de identidade, tanto homens quanto mulheres. E esta crise também invade o campo da sexualidade. Muito se tem falado e escrito sobre este tema, mas o que seria masculinidade e a feminilidade? Este dado seria natural? Seria um dom de Deus ou mera construção da nossa cultura e sociedade?

Muitos homens e mulheres vivem atualmente esta crise. Mas vamos nos ater agora à identidade masculina. Os homens, desde muito tempo, assumiam o papel (ou missão) de provedores e protetores – e isso não está necessariamente ligado a ter ou não um emprego, mas sobre como se reage frente aos desafios e alegrias da vida. Porém, muitos têm abandonado estes papéis. Os motivos variam, mas pode-se apontar algo que se mostra recorrente: alguns não querem assumir sua vida adulta, vivendo como “adultescentes”. Na idade cronológica são adultos, mas quanto à forma de se portar, viver, querem permanecer eternos adolescentes, irresponsáveis, irreverentes, “garotões”.

Muitos homens também exerciam o papel de mestres, sábios, dominavam os ambientes acadêmicos, influenciavam a cultura. Porém cada vez menos homens completam os estudos, se graduam, e a cultura vai ficando cada vez mais “feminizada”. O fato de esses ambientes estarem cada vez mais feminizados se torna um problema não pela presença feminina em si, mas pela falta de referência masculina. Infelizmente, nos ambientes familiares, as referências masculinas, que são tão necessárias, têm se tornado escassas, como no meio acadêmico. Tantos homens santos foram modelos de santidade e de vida de oração. Porém, parece que tanto a religião e quanto a oração se tornou algo para mulheres. A televisão, videogames, smartphones, computadores são em parte responsáveis por isso. Muitos homens se tornaram escravos deles, e já não há mais tempo para leitura, meditação, oração. A pornografia também tem sugado a energia vital dos homens. Tudo isso tem levado muitos homens a se tornarem seres superficiais, fúteis, sem disciplina ou organização interna, isolados, solitários, sem amizades profundas, distantes de Deus. E tudo isto acarreta também um sofrimento às mulheres, muitas não encontrando homens em que possam confiar ou amar, e, quando encontram, para muitas destas a realidade na qual os homens se encontram é triste e frustrante. Sequelas do machismo e do feminismo…

O autoconhecimento como resposta

Como se libertar da superficialidade e da crise de identidade em que estão mergulhados? Um meio importantíssimo e fundamental para isto é voltar os olhos e os pensamentos para algo que se iniciou há mais de 2500 anos atrás, com os filósofos gregos, e depois, na era cristã foi desenvolvido também pelo Padres da Igreja e pelos monges do deserto: O AUTOCONHECIMENTO.  E por quê? Porque “conhecer-se é uma necessidade natural do homem. Todo homem tem necessidade de saber quem é, e não pode viver sem descobrir o sentido de sua vida. As perguntas: ‘Quem sou? De onde vim? Para onde vou?’ são questões essenciais que precisam ser respondidas por cada um, para dar sentido à própria vida.  A riqueza do autoconhecimento não é simplesmente saber quem e como somos, mas aceitar o que somos. Pois só pela aceitação da nossa própria realidade é que poderemos trabalhar as nossas fraquezas, pecados e misérias para nos tornarmos aquilo que devemos ser. O autoconhecimento nos ensina a nos aceitar como somos e nos faz buscar construir o nosso ser segundo o que Deus desejou para nós.”

E como nós, homens, podemos trilhar este caminho do autoconhecimento? Primeiro devemos vencer ao medo daquilo que encontraremos em nós mesmos, que muitas vezes pode ser desagradável no começo, pois pode ser que nos deparemos com insegurança, fraqueza, falta de coragem, mágoas, feridas, carências, segredos que escondemos a sete chaves, até de nós mesmos.

Depois de passarmos por isso, devemos aprender a encarar nossa verdade, um espírito de luta contra nossas más inclinações, vícios e tudo aquilo que percebermos que vai contra a vivência de uma masculinidade sadia, contra o homem que Deus nos chama a ser. Entra aí também uma luta que a maioria dos homens tem que travar, que é a luta contra o comodismo e a preguiça, pois muitas vezes percebemos que este processo todo pode dar muito trabalho, e acabamos fugindo dele, através de distrações, televisão, bebida ou amizades que nos afastam do caminho trilhado por Deus para nós.

A importância da oração no caminho de autoconhecimento

Uma arma fundamental para o processo de autoconhecimento é a oração. Como os monges do deserto entenderam séculos atrás, não devemos buscar o autoconhecimento como meta em si mesmo, mas este nos deve levar a uma experiência profunda de Deus, que deve ser o único fim da nossa busca.

Para reconquistar o gosto pela oração, é preciso reaprender a orar como homens. Ao nos depararmos com um menino, percebemos que o homem tem dentro de si, desde pequeno, um coração de guerreiro, um gosto pela luta, pelo combate, algo que nossa sociedade pacifista e marcada por ideologias feministas tenta a todo custo controlar, conter, minar, e vai criando homens fracos, inseguros, sem coragem. Precisamos relembrar que a vida de oração também é um combate. Combate contra a concupiscência, contra o pecado, contra os vícios, contra o demônio. E talvez seja neste combate interior da oração que vamos começar a resgatar aquele homem valoroso, viril, forte, guerreiro, que está escondido dentro de nós. Nossas famílias precisam deste homem. A Igreja precisa. Nossa sociedade, sem entender disso, também precisa. Nossa felicidade depende disso.

Sair da zona de conforto para reencontrar as próprias virtudes

Fazendo uma analogia com os livros “O Hobbit” e “O Senhor dos Anéis”, de J. R. R. Tolkien, talvez muitos de nós nos sintamos como Bilbo Bolseiro ou seu sobrinho, Frodo, antes de iniciarem suas respectivas jornadas. Tendo sempre vivido no condado, estavam acostumados e acomodados às suas vidas de prazeres, paz e tranquilidade, longe de perigos ou aventuras. Mas quando se colocaram a caminho, saindo do condado, passaram por inúmeras situações de perigo e sofrimento, encarando a própria morte. Foi através destas mesmas situações que descobriram dentro de si coragem, força, audácia, misericórdia, amizade, e tantas outras qualidades e virtudes que nem imaginavam que possuíam, e que provavelmente nunca descobririam se não tivessem a ousadia de ouvir e atender o chamado feito a cada um deles, se não tivessem entendido que aquilo era sua missão. E voltaram de suas jornadas muito diferentes, mais seguros, mais maduros, mais realizados e muitíssimo mais felizes. Foi uma verdadeira jornada de autoconhecimento tanto para Bilbo quanto para Frodo, e até para o próprio Gandalf, semelhante à que Deus nos convida agora a empreender. E como Gandalf perguntou a Frodo antes de iniciar sua jornada para carregar o Um Anel, talvez o próprio Deus esteja hoje a nos perguntar: “Bem… Em que está pensando? Já decidiu o que fazer?”

Ricardo Bidóia
Consagrado da Comunidade Católica Pantokrator

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