Projeto de Vida – Trabalhando para nossa salvação

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Sabemos, pela Doutrina da Igreja, que todos os batizados podem ser salvos, desde que tenham uma vida coerente com o Evangelho, trazendo em si os valores da eternidade. Mas, diante da liberdade que Deus mesmo deu a cada um de nós, sabemos que podemos pôr a perder a salvação que deveria ser nosso maior objetivo.

“Assim, meus caríssimos, vós que sempre fostes obedientes, trabalhai na vossa salvação com temor e tremor” (Fl 2,12).
Jesus afirma: “são os violentos que conquistam o Reino dos Céus” (Mt 11, 12). Desse modo, vemos que para conquistar o Céu, temos de assumir uma luta intensa na nossa vida aqui nesta terra, uma luta árdua na nossa conversão.
Devemos considerar que, como humanos que somos, precisamos perceber a necessidade de conversão. Precisamos olhar para dentro de nosso coração e não nos acharmos prontos. Muitas vezes acontece que a pessoa se acha pronta, não precisando de transformação nenhuma. Trata-se de uma pretensão muito grande. O próprio Senhor nos diz: “Não são os sãos que precisam de médico, mas os doentes” (Mt 9, 12). Devemos assumir a nossa condição de enfermos, de “incompletos”, de falhos, para que a graça de Deus possa atuar em nós como as mãos de um médico, nos sarando de nossas enfermidades.
Por sua vez, apenas assumirmos a nossa condição pobre e pecadora não é suficiente para a nossa conversão, embora seja condição fundamental para ela. É preciso trabalhar na nossa conversão, é preciso nos gastar em esforços para a nossa santificação. O homem tem uma tendência muito forte de perder-se no caminho, de desviar-se de seus objetivos, ainda mais quando esse objetivo é algo subjetivo, abstrato e etéreo, como se trata da eternidade. Se alguém deseja comprar um carro novo, se prepara para isso – guarda dinheiro, aplica-o, a fim de fazê-lo render, pesquisa preços e condições de venda e, ao final, atinge sua meta de adquirir o carro novo. Quando nosso objetivo é a vida eterna, não podemos fazer cálculos, não há uma realidade palpável e matemática, por isso é mais fácil que o homem se perca. Diante desse quadro, pela própria fraqueza do homem, ele precisa ter com muita clareza diante de si esse objetivo e os meios que pretende utilizar para alcançá-lo.
É interessante observar como, nos dias de hoje, é necessária a organização, o método, um projeto objetivo e eficaz, que nos leve a alcançar uma determinada meta. Na velocidade em que se desenvolve a tecnologia e a ciência, naturalmente toca em nossos corações também uma urgência, uma pressa na organização e cumprimento de nossas atividades. É comum ouvirmos que parece que o tempo de hoje passa mais rápido do que antigamente… Na verdade, não é que o tempo ande mais rápido, mas o nosso dia está mais cheio e, portanto, mais corrido. Para isso, torna-se cada vez mais necessária a organização nos menores detalhes e também a escolha dos meios que pretendemos utilizar para melhor alcançarmos nossos objetivos. Se estamos com pressa, antes de entrarmos no carro e começarmos a dirigir, pensamos qual caminho vamos percorrer, na busca do mais apropriado e rápido. Na vida com Deus também acontece da mesma maneira. Quando desejamos alcançar um objetivo rumo à nossa santidade, precisamos pensar antes no caminho que vamos percorrer – às vezes não adianta pegarmos um caminho mais curto, mas mais “congestionado”.
De muita ajuda no nosso processo de conversão é termos um projeto de vida. “A palavra projeto vem do latim proiectus. Projeto quer dizer: determinar o que se quer e como se pretende alcançar a meta. Saber aonde se quer chegar e qual o objetivo a ser alcançado e o início de todo bom resultado” (1).
Precisamos saber com clareza aonde queremos chegar e, para isso, os meios que desejamos utilizar para chegarmos a esse fim. O nosso fim último, evidentemente, é a vida eterna, a Jerusalém Celeste. Só entraremos no céu se vivermos de fato à semelhança de Cristo. “Quando a vontade de Jesus penetra na minha, e sua liberdade na minha liberdade, e seus projetos nos meus projetos, acontece um deslocamento, uma troca de polarização. Eu deixo de ser egocêntrico para ser cristocêntrico. E Ele vai conquistando posições. Ele vai se tornando cada vez mais forte na fraqueza do meu ‘eu’” (2). Para chegarmos a esse fim, devemos assumir a nossa vida e colocá-la em função desse objetivo. Na vivência do projeto de vida, há alguns elementos fundamentais:
• saber como estou – por exemplo, sou avarento;
• saber aonde quero chegar – se sou avarento, a generosidade;
• propor meios adequados para chegar a esse fim – prestar ajuda, dar esmola, pagar o dízimo e outros;
• estipular um tempo em que me proponho alcançar meu objetivo – por exemplo, em 6 meses, pretendo estar mais equilibrado nessa minha tendência.
Se sou egoísta e, portanto, sabendo que não entrarei na eternidade se não purificar essa minha tendência, devo trabalhar na conversão do meu egoísmo. Num exemplo, devo identificar quais as situações básicas em que se manifesta essa minha tendência e agir diretamente sobre elas, de uma maneira muito objetiva. Se o meu egoísmo se manifesta através da preguiça, vou assumir uma busca de não me deixar vencer por ela, na hora de me levantar da cama ao despertar, na hora de oferecer ajuda a alguém ou na hora de rezar. Devo colocar um objetivo muito concreto – levantar-me da cama 15 minutos mais cedo para rezar, a fim de corrigir-me na preguiça de levantar-me e também de rezar.
É importante considerar as palavras de Jesus: “são os violentos que conquistam o Reino dos Céus” (Mt 11, 12). Se não estivermos dispostos a essa violência com nós mesmos, não conseguiremos alcançar grandes objetivos em nossa santificação. Se um jovem é capaz de ficar meses sem diversão e descanso para dedicar-se aos estudos e conseguir uma vaga na universidade, por que não seríamos capazes de aplicar essa mesma violência em nossa busca de santidade? E ainda mais considerando ser essa meta muito mais preciosa do que uma vaga na faculdade… É oportuno dizer também que não podemos fazer dessa busca uma obsessão. Se nossa luta se transforma em obsessão, ela é, na verdade, uma idolatria e sinal muito forte de que nos desviamos das motivações evangélicas. A busca autêntica de santidade leva-nos, em primeiro lugar, a frutos de liberdade, nunca de obsessão.
Contudo, na prática do projeto de vida, não podemos nunca nos impor um objetivo inalcançável, a fim de que não desanimemos. Nesse ponto, considerando o exemplo acima da preguiça, é melhor nos propormos a não “enrolar” na hora de levantarmos da cama, em primeiro lugar, e depois, vencida essa primeira etapa, nos propormos a levantar mais cedo para rezar. O projeto de vida é feito de etapas – passo a passo vou conquistando meu objetivo. Vale muito a perseverança quando falamos de projeto de vida. “Aquele que perseverar até o fim será salvo” (Mt 10, 22). A questão do tempo – o quarto ponto do projeto de vida – é importante para não “folgarmos” em nossa busca. É um elemento que facilita a nossa objetividade de busca.
Não basta caminharmos, é preciso saber onde queremos chegar. Nessa busca, é igualmente fundamental o autoconhecimento. Para chegarmos num determinado ponto, temos que saber de onde partimos. Temos que conhecer a nós mesmos, saber com clareza as nossas limitações e fraquezas, a fim de podermos partir de um ponto e chegar a outro.
Ao nos analisarmos e descobrirmos as nossas fraquezas, não podemos nunca desanimar diante delas. “O ‘sempre foi assim’ não é sinal de liberdade interior” (3). Não podemos nos deixar vencer pelas nossas dificuldades, mas devemos ter um olhar de esperança na conversão de nossas fragilidades. Não podemos nos condicionar pelos nossos erros do passado. Devemos crer em nossa capacidade de aderir à vontade de Deus, de sermos capacitados por Ele naquilo que nos falta. “Sem mim, nada podeis fazer” (Jo 15, 5).
“O projeto pessoal não tem características estáticas, mas dinâmicas. Não pode ser feito de uma vez por todas. É processo em permanente revisão”. (4). A cada passo, renova-se o projeto de vida, pois novas fragilidades aparecem e o nosso processo de conversão vai caminhando passo a passo.
Para pôr em prática nosso projeto de vida, é fundamental que sejamos orantes. O cultivo e a perseverança numa boa vida de oração é fundamento para a conversão. Também são elementos fundamentais nessa busca a freqüência aos Sacramentos (Eucaristia e Reconciliação), a vivência do estudo da Palavra de Deus e a busca da intimidade com Nossa Senhora. De muita ajuda também é a leitura espiritual, principalmente de escritos dos santos. É, também, de muito valor o auxílio de um diretor espiritual, que nos ajude a analisar a nós mesmos e a ver se nossos passos estão adequados à nossa necessidade.

(1) Cf. P. SCIADINI, “Projeto pessoal de vida espiritual”, 1995, p. 33.
(2) Cf. M. MARTINEZ, “Projetos pessoais e comunitários na vida religiosa”, 1998, p. 44.
(3) Cf. P. SCIADINI, “Projeto pessoal de vida espiritual”, 1995, p. 36.
(4) Cf. M. MARTINEZ, “Projetos pessoais e comunitários na vida religiosa”, 1998, p. 57.

Tânia Kapor Botelho de Andrade
Consagrada na Comunidade Católica Pantokrator

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