Homilia da primeira missa após tragedia na Catedral de Campinas

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Missa em reparação pela violação do templo e pelas vítimas da tragédia ocorrida na Catedral Metropolitana de Campinas.

– HOMILIA –

Ontem, a tristeza abateu-se sobre todos nós pelo pecado da violência e da morte. A Igreja-mãe de Campinas chora seus filhos mortos. O templo de Deus foi duplamente violado. Sim, o templo sagrado que é a pessoa humana, ferida de morte como foi, e o templo sagrado desta igreja, nossa Catedral, que se tornou cenário de violência. Hoje estamos aqui reunidos, em grande número, para suplicar a Deus o perdão, a misericórdia, a paz e para manifestarmos, uns aos outros, a solidariedade de nossas orações, a força da fraternidade e do amor.

Cada pessoa humana é templo de Deus. Ele é o nosso criador e somente Nele temos a plenitude da vida. Como compreender, então, como explicar e aceitar que, na casa de Deus, no templo santo, material, de pedras, que nossas mãos ergueram para o louvor do Criador, o sangue das pedras vivas que formam o povo que Ele ama, tenha sido violentamente derramado? Na história bíblica, a primeira vez que isso aconteceu foi quando o solo sagrado do paraíso das origens ficou manchado pelo sangue de Abel, morto por seu irmão Caim: “Deus disse a Caim: que fizeste! Ouço o sangue do teu irmão, do solo, clamar para mim.” (Gn 4, 10). Foi por isso, para sanar a obstinação do descontrole do coração humano, que o Criador renovou sua Aliança com a humanidade, imprimindo nas tábuas de carne dos corações, as suas leis, dentre as quais: “não matarás” (Ex 20, 13). E para que nunca mais um irmão se levantasse contra um irmão foi que Jesus Cristo – nosso irmão e salvador – uma vez por todas derramou o seu sangue no lenho da cruz, pacificando, assim, a ira, o ódio, a revolta, todo descontrole que, no mais profundo do ser humano, o divide, o fragmenta, fazendo-o escravo do mistério da iniqüidade que não deixa lugar para a graça, mas para o seu contrário, a desgraça.

Meus irmãos e irmãs, a Igreja nunca abandonará sua missão de anunciar Cristo que nos pacificou e redimiu pelo sangue de sua cruz e pela sua ressurreição. Hoje, mais do que nunca, essa é a nossa profissão convicta de fé. Desde ontem, no momento da tragédia, ressoam aos meus ouvidos as palavras do Apóstolo São Paulo na Carta aos Romanos: “Tendo sido, pois, justificados pela fé, estamos em paz com Deus por nosso Senhor Jesus Cristo, por quem tivemos acesso, pela fé, a esta graça, na qual estamos firmes e nos gloriamos na esperança da glória de Deus. E não só. Nós nos gloriamos também nas tribulações, sabendo que a tribulação produz a perseverança, a perseverança a virtude comprovada, a virtude comprovada a esperança. E a esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5, 1-5).

Dirijo uma palavra aos familiares das vítimas e dos feridos. Estamos todos sofrendo com vocês! Nesta hora, busquemos apoiar-nos na oração e na solidariedade. Sei que vocês choram. Estamos chorando também. Mas o Senhor Jesus é a nossa força e com Ele venceremos a dor, o mal e a morte. Sintam-se abraçados por mim, pelo Padre Amauri, pelo Padre Lima e pelo Padre Jorge. Sintam-se abraçados por toda a nossa Arquidiocese de Campinas.

Hoje proclamamos, com estas palavras do Evangelho, a certeza de nossa participação no mistério da cruz e da ressurreição do Senhor, no qual temos o perdão, a remissão de todos os pecados, no qual temos a paz e a vida renovada no amor. O que nos resta agora, meus irmãos e irmãs? Resta-nos suplicar a Deus a sua misericórdia por todos. Misericórdia, Senhor, de todos os que tombaram neste chão sagrado, culpado e inocentes! Misericórdia, Senhor, de todos os que sofrem, os familiares e amigos! Misericórdia, Senhor, de todos os feridos e dos abalados pelo desespero! Misericórdia, Senhor, de todos nós! Clamemos aos céus neste tempo de serena expectativa pelo Senhor: Maranatá, vem Senhor Jesus! Vinde, ó príncipe da paz, vinde trazer-nos o consolo e a paz! Quanto a este espaço, ele é consagrado à vida, às coisas de Deus e assim continuará a ser. Um espaço da paz e da vida, da dignidade humana e da fraternidade, da justiça e do amor. Espaço de acolhimento de cada pessoa humana, espaço medicinal para uma sociedade enferma em razão dos desequilíbrios materiais e espirituais. Que viva a Catedral! Que viva cada filho dela! Que a Imaculada Conceição, Mãe de Deus e nossa mãe, cuja solenidade acabamos de celebrar com tanta alegria, interceda por nós para que nos mantenhamos em pé, como ela esteve diante da cruz de seu Filho. Nada nos fará esmorecer na missão de proclamar a vida em Cristo. Desarmemos, então, nosso coração dos sentimentos de revolta ou de medo. Revistamo-nos com a coragem da misericórdia e da paz. Diante do conflito, jamais o confronto!

Rezemos, sempre unidos, com fé e esperança: “Senhor, fazei de mim um instrumento da Vossa paz.Onde houver ódio, que eu leve o amor.Onde houver ofensa, que eu leve o perdão.Onde houver discórdia, que eu leve a união.Onde houver dúvidas, que eu leve a fé.Onde houver erro, que eu leve a verdade.Onde houver desespero, que eu leve a esperança.Onde houver tristeza, que eu leve a alegria.Onde houver trevas, que eu leve a luz.Ó Mestre, fazei que eu procure mais:consolar, que ser consolado;compreender, que ser compreendido;amar, que ser amado.Pois é dando que se recebe.É perdoando que se é perdoado.E é morrendo que se vive para a vida eterna. Amém”!

+ LJC +
Mons. Rafael Capelato
Pároco da Catedral Metropolitana de Campinas

Via Catedralcampinas 

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