Os mandamentos da lei de Deus – a justiça, a beleza e a verdade

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Muitos de nós imaginamos que os Mandamentos de Deus, aqueles dez que ouvimos e aprendemos na nossa catequese infantil, estão destinados a ficar perdidos em algum compartimento da nossa memória, não tendo muita ligação com nossa vida no tempo de hoje.

Alguns dentre nós ainda sabemos todos os mandamentos, outros conseguem lembrar-se de alguns apenas. Nas últimas edições da revista o Pantokrator temos nos recordado de cada mandamento e, de modo particular nessa edição e nesse artigo, queremos revelar uma ligação estreita e inusitada de alguns mandamentos com valores que provavelmente ainda não nos tínhamos dado conta existir.  

Para descobrir essa ligação é preciso perguntar o que significam os mandamentos, qual a correspondência deles no meu interior. Você já se perguntou isso? Não funciona nos relacionarmos com os mandamentos de fora para dentro; é preciso tocá-los de dentro para fora. “Desde o começo, Deus enraizara no coração dos homens os preceitos da lei natural. Inicialmente Ele se contentou em lhos recordar.” (1) Assim, percebemos que os mandamentos, muito mais do que serem uma ordem de Deus (de fora para dentro), são uma revelação da nossa humanidade, dos nossos direitos e deveres (de dentro para fora). “Os dez mandamentos pertencem à revelação de Deus. Ao mesmo tempo, ensinam-nos a verdadeira humanidade do homem. Iluminam os deveres essenciais e, portanto, indiretamente, os direitos humanos fundamentais, inerentes à natureza da pessoa humana.” (2) Os mandamentos estão inscritos em nosso coração; quer saibamos ler ou não essa inscrição, eles estão lá. Precisamos pedir ao Espírito Santo que, como um violinista de grande precisão que é, toque as cordas do violino que somos de acordo com essa partitura escrita de antemão pelo Autor da sinfonia da vida. Não podemos desprezar os mandamentos, colocando-os distantes de nós. Não! Eles estão próximos, eles estão dentro de nós, fazem parte dessa lei natural de Deus gravada em nosso íntimo e que norteia nosso caminho nos fortalecendo como homens e mulheres inteiros em nossa jornada. Hoje encontramos pessoas estraçalhadas pela vida. Isso não aconteceria se os mandamentos fossem cumpridos. O cumprimento dos mandamentos nos preserva dos buracos causados pela falta de dignidade humana, pela ausência da solidariedade, pelo descrédito na capacidade humana de se recuperar e recomeçar.

O mais interessante na questão dos mandamentos é que eles correspondem exatamente ao desejo mais profundo do nosso coração. É isso mesmo, o nosso coração, o nosso ser tem necessidade de viver cada um dos mandamentos, deseja viver isso. Se fizéssemos uma análise profunda sobre cada mandamento, poderíamos perceber todo nosso ser vibrar em uníssimo afirmando: ‘Eu quero viver isso’. E isso acontece justamente porque correspondem à lei natural, estão lá. Do mesmo modo como, quando estamos com fome temos uma necessidade de nos alimentar e todo nosso ser concorre para o alimento (o cheiro, a imaginação, a “água na boca”, etc…), assim também ocorre com os mandamentos: todo nosso ser concorre para o seu cumprimento, porque é uma necessidade interior, que é vivida naturalmente por nós. Os mandamentos simplesmente revelam essa naturalidade, conforme nos diz Santo Agostinho: “Deus escreveu nas tábuas da lei aquilo que os homens não conseguiam ler em seus corações” (3)

Essa naturalidade só se interrompe quando resolvemos, pelas mais diversas causas, ignorar a lei do nosso coração e agir de acordo com uma outra lei, da qual nos revestimos a ponto de abafar completamente e a quase extinguir aquela primeira que Deus escreveu dentro de nós. É então que começamos a conhecer o homem desfigurado, o mundo desfigurado, como o que estamos conhecendo mais do que nunca nos tempos de hoje.

De modo particular queremos nos deter naquilo que se torna desfigurado quando não cumprimos o sétimo, o oitavo e o décimo mandamentos. O sétimo mandamento nos adverte que não devemos roubar; o oitavo nos alerta sobre a falsidade lançada contra o próximo e o último nos fala sobre a cobiça daquilo que pertence aos outros. Aparentemente, cada um abrange uma determinada área de nossa vida, mas na verdade, juntos eles são responsáveis por uma tríade que garante muito do nosso bem-estar e daqueles que vivem ao nosso redor: justiça, verdade e beleza.

Quando o sétimo mandamento ordena “Não roubarás” (4) ele está tocando dentro de nós, no nosso desejo de justiça. É uma lei natural que ordena o nosso coração para que nós não usurpemos ao próximo aquilo que lhe é de direito e que nós não sejamos usurpados naquilo que nos é de direito. A justiça diz respeito àquilo que é próprio do outro, aquilo que lhe é devido. E não podemos limitar o roubo às questões dos bens materiais somente, mas estender esse mandamento a todas as circunstâncias de vida que roubam, que usurpam do outro a sua dignidade de vida e a sua capacidade de crescer e produzir. Assim, muitas vezes o puro assistencialismo que vemos sendo praticado hoje em nome da caridade pode, de fato, se não for bem orientado, se tornar uma forma de roubo, em que a pessoa é sistematicamente usurpada nas suas condições de desenvolvimento e de busca de uma vida digna. É por isso que, mesmo um ateu se admira da personalidade de Jesus, homem justo em todas as suas ações, justiça essa que conquista nosso coração, pois aí nos identificamos com o que de mais profundo existe em nós.

Temos, então, o oitavo mandamento, que diz “Não apresentarás um falso testemunho contra teu próximo.” (5) As várias modalidades sobre as quais esse mandamento é desrespeitado ganham a cada dia contornos mais largos. Sim, já que esse mandamento toca diretamente ao nosso desejo de verdade e a verdade é um dos valores mais deturpados no mundo de hoje. Talvez não exista um valor que tenha sido tão relativizado quanto a verdade. O que é a verdade, podemos nos perguntar? E muitas vezes a resposta que nos vem é que a verdade é uma para um e outra para outro, ou seja, ela depende (da circunstância, da pessoa, da emoção, etc…). Mas existe em nosso coração um desejo, uma inclinação pela verdade. Quem de nós nunca se sentiu mal depois de dizer uma mentira? Ou ficou cheio de remorso por ter colocado a culpa em outra pessoa de algo que era sua responsabilidade? Todos nós já passamos por essas situações, o problema é que vamos nos habituando a ignorar essa inclinação pela verdade e nos acostumamos com a mentira. Por isso o mandamento vem erguer nossos olhos para enxergamos além de nós mesmos e ouvirmos Aquele que nos diz “Conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará.” (6)

O décimo mandamento nos apresenta o “Não cobiçarás… coisa alguma que pertença ao teu próximo,” (7) que nos chama a um novo relacionamento com as coisas criadas. Sabemos, pelo relato da criação em Gênesis, que o homem foi criado para governar o mundo, os animais, a terra e deles extrair tudo o que era necessário para a sua própria subsistência. E tudo isso dentro de um relacionamento de harmonia, em que tanto a natureza quanto o próprio homem eram preservados de um desgaste desnecessário. Mas o que vemos nesse mesmo relato de Gênesis, e que vemos até os dias de hoje, é uma inversão, na qual as coisas criadas dominam o homem. É o desejo de beleza que se deturpou. Sim, há em cada um de nós um fascínio pela beleza, pelo belo, que chega a ser tão forte que arrasta o homem até o impensável, que é o tornar-se escravo pelo desejo de possuir essa ou aquela beleza. Nesse afã de eternizar o belo através da posse, o homem vê-se constantemente dominado e deixa de perceber que na verdade é o seu coração que está gritando pela mais bela de todas as belezas, que é Cristo Jesus, aquele que atrai todos a ele, como nos diz o próprio Jesus através das Sagradas Escrituras “Quando eu for levantado da terra, atrairei todos os homens a mim.” (8)

Fica claro, portanto, que o desejo da justiça, da verdade e da beleza está inscrito em nós e que esse desejo corresponde àquilo que Deus quer de nós em nossas ações cotidianas. Fica mais claro ainda que os mandamentos são como que a condição que ordena, que orienta esse desejo, para que ele não se desvie e, com sua força, faça estragos à sua volta, muitas vezes irreversíveis. Existe uma coerência incrível em tudo aquilo que Deus inscreve em nossos corações e precisamos aprender a deixar que a força dessa coerência nos leve para o melhor caminho. O melhor caminho é a vida em abundância, que não acontece apenas após a morte, mas já se inicia no tempo presente. A coerência é o desejo da justiça, da verdade, da beleza, que unifica e integra o nosso ser. E a força é o mandamento, que unido ao desejo, nos move, nos põe em marcha na luta contra tudo o que, em nós e no mundo, tem esvaziado a presença de Deus. Que Maria, nossa Mãe, interceda para que, a seu exemplo, possamos sempre mais aderir a essa coerência entre os mandamentos de Deus e o que está inscrito em nossos corações.

(1) Santo Irineu, Ad. Haer. 4, 15, 1.
(2) CIC 2070
(3) Santo Agostinho, En. in. Sl 57,1.
(4) Ex 20,15
(5) Ex 20,16
(6) Jo 8, 32
(7) Ex 20, 17
(8) Jo 12, 32

Tatiana Oliveira
Consagrada na Comunidade Católica Pantokrator

Revista O Pantokrator

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