A ressurreição em São Paulo

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Estamos celebrando o ano paulino; e o fazemos por tudo o que significou São Paulo para a Igreja. Embora não gozasse do ministério petrino, nem mesmo tivesse convivido diretamente com Jesus, foi o apóstolo que mais impacto gerou na vida da Igreja. Foi o grande evangelizador dos gentios e com isso foi o maior responsável pelo amplo alargamento do cristianismo para além das fronteiras da Palestina. Ele mesmo disse que trabalhou mais do que todos para a difusão do Evangelho (cf. 1Cor 15, 10). Gozava de grande respeito e suas cartas e vida vieram a se tornar, após os evangelhos, o grande eixo do Novo Testamento. É considerado, junto com o primeiro Papa, uma coluna da Igreja.

Diante disso, surge uma pergunta: de onde veio tamanha autoridade, tamanha força? Provoco essa pergunta, pois a resposta não é mera curiosidade, mas é a pista para a grandeza de nosso cristianismo. É São Paulo que nos responde: “E se Cristo não ressuscitou, é inútil a vossa fé, e ainda estais em vossos pecados… Se é só para esta vida que temos colocado a nossa esperança em Cristo, somos, de todos os homens, os mais dignos de lástima” (1Cor 15, 17.19). Paulo colocou a sua esperança na ressurreição a tal ponto de dizer que, se isso não fosse verdade, ele seria o mais lastimável dos homens. Sua vida inteira estava alicerçada na fé na Ressurreição de Cristo, e conseqüentemente, na sua própria ressurreição no último dia. Também essas palavras carregadas de decisão são dele: “Por ele tudo desprezei e tenho em conta de esterco, a fim de ganhar Cristo”. Então, se Cristo ressuscitou, ao contrário, ele é, dentre todos os homens, o mais feliz, o mais realizado, o mais determinado ao seu fim, e exatamente tudo isso era Paulo, e por ser tudo isso, ele se tornou coluna da Igreja.
Provavelmente Paulo trouxe do judaísmo essa capacidade de esperança. Sabemos que toda a religiosidade judaica se pauta na esperança do Messias. Paulo era um judeu fervoroso e como tal vivia dessa espera. Seu coração era tomado por essa expectativa de tal modo que qualquer coisa que a ameaçasse era digna de ser erradicada até mesmo pela força da violência. Foi assim que o jovem seguidor das leis mosaicas se pôs a perseguir aquela gente que dizia que o Messias já tinha chegado e já tinha ido embora pregado na cruz, sem que tal sujeito trouxesse algo daquilo que se esperava do Messias Judeu.
A conversão de Paulo foi marcada pela conversão de sua esperança. Agora ele não espera mais O messias, mas ele espera n’A Ressurreição do Messias. Acontece aqui uma grande mudança: ele não espera uma realidade futura, mas espera em uma realidade presente de que se toma posse por meio da fé. Toda aquela força do jovem Paulo voltada para a expectativa do salvador agora se converte em fé na Ressurreição de Cristo.
Celebrar a fé e a vida de Paulo é nos colocarmos diante desse homem que entregou cada instante de sua vida a anunciar a Ressurreição de Cristo. Assim, quero provocá-lo, caro leitor, com essa pergunta: Até que ponto a sua vida está alicerçada sobre essa fé e esperança na Ressurreição de Cristo? Qual o impacto desse acontecimento na sua vida? Posso afirmar que a sua vivência cristã é proporcional ao significado da Ressurreição de Cristo na sua vida. Uma pergunta: se Cristo não tivesse ressuscitado, o que restaria a você? O que na sua vida continuaria em pé? O que continuaria em pé é aquilo que se mantém sem Cristo e que não está sujeito a Cristo. Nesse ponto está a crise de muitos cristãos: O cristianismo está totalmente alicerçado na fé na Ressurreição de Cristo, e é nessa fé que está toda a esperança, toda a alegria do cristão. Mas o cristão que não põe sua vida sob a verdade da Ressurreição de Cristo vive no vazio e começa a querer conciliar coisas com a sua fé que nada têm a ver com ela. Assim surge o cristão que crê em Cristo, mas também crê no mundo, ou seja, ainda busca no mundo e seus valores a alegria de sua vida. Assim surge o cristão que crê em Cristo, mas também crê nos astros, nas pirâmides, nos cristais, nas superstições, nos espíritos encarnados, na reencarnação. Assim surge o cristão morno que não é capaz pautar suas decisões na fé, mas somente nas lógicas dos homens, ou ainda, o cristão que se diz católico, mas que na prática da vida vive um verdadeiro ateísmo, mal diferindo sua vida da vida daqueles que em nada crêem.
Refletindo sobre a consciência de Paulo na ressurreição, não se pode deixar de falar que para ele a Ressurreição de Cristo se alcança pela Cruz, a tal ponto que ele diz ansiar pelos sofrimentos de Cristo para alcançar a Sua ressurreição (cf. Fl 3, 10). Se para ele a Ressurreição de Cristo é sua grande esperança, seu grande desejo, e a Cruz é o caminho desse grande bem em sua vida, então ele não tem dúvida: a Cruz passa a ser a sua sabedoria de vida.
A Cruz se vincula tão intimamente à ressurreição que Cristo ressuscitado mantém em Seu corpo glorioso as marcas, as chagas da Cruz. A Cruz, enquanto sabedoria de vida, é aquilo que rege nossos gestos no dia a dia. A idéia da Cruz nos lembra os grandes sofrimentos da vida. Isso é uma verdade, mas onde ela se apresenta de maneira mais sublime é nos pequenos sofrimentos do dia a dia. É ali, no cotidiano da vida, que nos familiarizamos com a Cruz como sabedoria de nossas vidas. É na pequena paciência, no gesto de bondade, na atitude do perdão, no trabalho sacrificado, no amor do lar que se oferece nas pequenas entregas à família que a Cruz modela nossa vida e nos prepara para a ressurreição. Paulo, modelado pela Cruz em todas as circunstâncias da vida, pode dizer: “Sei viver na penúria, e sei também viver na abundância. Estou acostumado a todas as vicissitudes: a ter fartura e a passar fome, a ter abundância e a padecer necessidade. Tudo posso naquele que me conforta” (Fl 4, 12-13).
O Papa Bento XVI proclamou o ano paulino porque sabe que a Igreja, mais do que nunca, precisa ter o jeito de Paulo no mundo hoje. Nos tempos do apóstolo, a Igreja enfrentava o paganismo do Império Romano, e o venceu pela virtude da fé na Ressurreição de Cristo.
Hoje, ao enfrentarmos o secularismo neo pagão, precisamos das mesmas armas que fincaram a fé cristã no mundo pagão; e essas armas são aquelas que Paulo tão bravamente empunhava sob a certeza de ser “mais que vencedor”, pois seu troféu era a conquista já ganha em que o Filho de Deus venceu todo o mal do mundo, e n’Ele, a morte, pois Ele vive para sempre e Seu Reino não terá fim.

André Luiz Botelho de Andrade
Fundador e Moderador Geral da comunidade Católica Pantokrator

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