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São Basílio – Pai da Doutrinha Social da Igreja

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Um dos grandes Padres da Igreja (1),  São Basílio Magno, definido pelos textos
litúrgicos bizantinos como um “luminar da Igreja”, um grande bispo do século IV, é admirado tanto pela Igreja do Oriente como pela do Ocidente por sua santidade de vida, pela excelência de sua doutrina e pela síntese harmoniosa de capacidades especulativas e práticas. Destacaremos nesta breve reflexão de modo especial a sua contribuição para a Doutrina Social da Igreja.Basílio nasceu em Cesaréia, capital da Capadócia, Ásia Menor (atual Turquia), por volta do ano 330, em uma família de santos, verdadeira igreja doméstica, que vivia em um clima de profunda fé. Entre seus nove irmãos figuraram: São Gregório de Nissa, Santa Macrina, a jovem, e São Pedro de Sebaste. Seu pai era São Basílio, o velho, e sua mãe, Santa Emélia. Foram seus colegas de estudo Juliano, que mais tarde seria imperador romano apóstata, e São Gregório Nazianzeno, também capadócio. São Gregório Nazianzeno, amigo inseparável de Basílio, escreveu sobre os dois: “conhecíamos apenas duas ruas na cidade: a que conduzia à Igreja e a que nos levava à escola”.

Estudou com os melhores mestres de Atenas e Constantinopla. Insatisfeito com os êxitos mundanos, ao perceber que havia perdido muito tempo em vaidades, ele mesmo confessa: “Um dia, como despertando de um sonho profundo, eu me dirigi à admirável luz da verdade do Evangelho…, e chorei sobre minha miserável vida” (2).

Terminando seus estudos, Basílio retornou a Cesaréia, sendo batizado e se determinando a seguir a pobreza evangélica. Visitou e estudou nos mosteiros do Egito, Palestina, Síria e Mesopotâmia. Atraído por Cristo, começou a ter olhos só para Ele e a escutar somente Ele (3). Com determinação, dedicou-se à vida monástica na oração, na meditação das Sagradas Escrituras e dos escritos dos Padres da Igreja e no exercício da caridade, seguindo também o exemplo de sua irmã, Santa Macrina, que já vivia a ascética monacal. Depois foi ordenado sacerdote e, no ano 370, consagrado bispo de Cesaréia da Capadócia.

Com a pregação e os escritos, desenvolveu uma intensa atividade pastoral, teológica e literária. Com sábio equilíbrio, soube unir ao mesmo tempo o serviço às almas e a entrega à oração e à meditação na solidão. Servindo-se de sua experiência pessoal, favoreceu a fundação de muitas “fraternidades” ou comunidades de cristãos consagrados a Deus, às quais visitava com freqüência. Com a palavra e os escritos, muitos dos quais ainda hoje se conservam (4), ele os exortava a viver e a avançar na perfeição. Desses escritos se valeram depois não poucos legisladores da vida monástica, entre eles, muito especialmente, São Bento, que considera Basílio como seu mestre (5).

Como bispo e pastor de sua estendida diocese, Basílio se preocupou constantemente pelas difíceis condições materiais nas quais os fiéis viviam; denunciou com firmeza o mal; comprometeu-se com os pobres e os marginalizados; interveio junto aos governantes para aliviar os sofrimentos da população, sobretudo em momentos de calamidade; velou pela liberdade da Igreja, enfrentando os potentes para defender o direito de professar a verdadeira fé. Deu testemunho de Deus, que é amor e caridade, com a construção de vários hospitais para necessitados, uma espécie de cidade da misericórdia, que tomou seu nome, “Basiliade” (6). Nela fundam suas raízes os modernos hospitais para a atenção dos doentes.

Eis alguns de seus ensinamentos sociais: “(Homem), conscientiza-te de tua grandeza considerando o preço derramado por ti: olha para o pereço do teu resgate e compreende a tua dignidade”. “Quem é rico deve ser como um executor das ordens de Deus benfeitor”. “Quando alguém ama o próximo como a si mesmo não deve possuir nada mais de quanto possui o seu próximo” (…) “Não é verdade que de tudo isso lhes sobrará somente um metro e meio de terra? E umas pedras serão suficientes para cobrir seu miserável corpo”. “Todos os necessitados olham para as nossas mãos como nós olhamos para as de Deus quando estamos em necessidade” (7).

Com acerto, São Basílio é tido, juntamente com S. João Crisóstomo, como o pai da Doutrina Social da Igreja. “As riquezas realizam a sua função de serviço ao homem quando destinadas a produzir benefícios para os outros e a sociedade. (…) São Basílio Magno convida os ricos a abrirem as portas dos seus armazéns e exclama: ‘Um grande rio se derrama, em mil canais, sobre o terreno fértil: de igual modo, por mil vias, tu fazes chegar a riqueza à habitação dos pobres’. A riqueza, explica São Basílio, é como a água que flui mais pura da fonte na medida em que dela se haure com mais freqüência, mas que apodrece se a fonte permanece inutilizada” (8).

A sua produção literária compreende trabalhos dogmáticos, ascéticos, pedagógicos e litúrgicos. A ele se deve a fixação definitiva de uma das mais conhecidas liturgias orientais, que comporta, precisamente, o seu nome, a Divina Liturgia de São Basílio. Com zelo e valentia, Basílio soube opor-se aos hereges, que negavam que Jesus Cristo fosse Deus como o Pai. Do mesmo modo, contra quem não aceitava a divindade do Espírito Santo, afirmou que também o Espírito Santo é Deus e “tem de ser colocado e glorificado junto ao Pai e o Filho” (9). Por este motivo, Basílio é um dos grandes padres que formularam a doutrina sobre a Trindade, de tal modo que sua doutrina influenciou grandemente as definições do I Concílio de Constantinopla (381). Em seu amor por Cristo e seu Evangelho, o grande capadócio se comprometeu também por sanar as divisões dentro da Igreja, buscando sempre que todos se convertessem a Cristo e à Sua Palavra.

São Basílio se entregou totalmente ao fiel serviço da Igreja no multiforme serviço do ministério episcopal. Segundo o programa que ele mesmo traçou, converteu-se em “apóstolo e ministro de Cristo, dispensador dos mistérios de Deus, arauto do reino, modelo e regra de piedade, olho do corpo da Igreja, pastor das ovelhas de Cristo, médico piedoso, pai, cooperador de Deus, agricultor de Deus, construtor do templo de Deus” (10).
No ano 379, São Basílio, sem ter completado os cinqüenta anos, esgotado pelo cansaço e a ascese, voltou para Deus, “com a esperança da vida eterna, através de Jesus Cristo, nosso Senhor” (11). Foi um homem que viveu verdadeiramente com o olhar dirigido a Cristo, um homem do amor pelo próximo. Repleto de esperança e da alegria da fé, Basílio nos mostra como ser realmente cristãos.

Fonte: João Paulo II, “Carta Apostólica Patres Ecclesiæ”, por ocasião do XVI centenário da morte de São Basílio, 1980.

(1) “Padres da Igreja” ou “Santos Padres” é a denominação que se dá para os escritores eclesiásticos da Antigüidade cristã que a Igreja invoca como seus “pais”, um título honorífico, por serem testemunhas e avalistas autorizadas da Tradição e pela sua grande importância para a teologia.
(2) Cf. Carta 223: PG 32, 824a.
(3) Cf. “Moralia” 80, 1: PG 31, 860bc.
(4) Cf. “Regulae brevius tractatae”, Proêmio: PG 31, 1080ab.
(5) Cf. “Regula” 73, 5.
(6) Cf. Sozomeno, “História Eclesiástica”. 6, 34: PG 67, 1397ª).
(7) Respectivamente: Psalmum, 45, 8; Homilia e de avaritia; Hom. in divites 1,5; Hom. in tempori famis.
(8) Pontifício Conselho Justiça e Paz, “Compêndio da Doutrina Social da Igreja”, n. 329.
(9) Cf. “De Spiritu Sancto”: SC 17bis, 348.
(10) Cf. “Moralia” 80, 11-20: PG 31, 846b-868b.
(11) “De Baptismo” 1, 2, 9.

Kátia Maria Bouez Azzi
Consagrada na Comunidade Católica Pantokrator

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