São Jerônimo

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Numa época muito conturbada para a Igreja como fora o final do século IV até meados do século V – surgiram, entre os cristãos, grandes luzeiros de santidade e ciência (tanto no Oriente quanto no Ocidente), por exemplo: Santo Hilário (Bispo de Poitiers), Santo Ambrósio (de Milão), Santo Agostinho (a “Águia de Hipona” ) e ainda São Jerônimo – cuja festa comemoramos no mês de setembro. Todos estes formam juntos o ilustre grupo dos chamados “Padres da Igreja latina” daquela época.

A vida de São Jerônimo é, em especial, tão extraordinária, que se torna impossível resumi-la em poucas páginas. Sobre ele diz o eminente jesuíta, Pe. Pedro de Ribadaneira – discípulo e biógrafo de Santo Inácio de Loyola: “Foi nobre, rico, de grande engenho, eloqüentíssimo; sapientíssimo nas línguas e ciências humanas e divinas; na vida, espelho de penitência e da Igreja e singular intérprete da Divina Escritura, martelo dos hereges, amparo dos católicos, mestres de todos os estados e condições de vida e luzeiro do mundo…”

No ano de 340 nasceu Jerônimo, em Dalmácia (onde depois se formou a  Iuguslávia), de pais cristãos, nobres e opulentos. Dotado de precoces aptidões para o estudo, o pai enviou-o, quando adolescente, para Roma, então a capital do mundo civilizado. Na Cidade Eterna, Jerônimo dedicou-se ao estudo da gramática, da retórica e da filosofia. Tal era seu amor pelos escritores clássicos, que formou para si rica biblioteca, copiando à mão os livros que não podia obter.

Foi em Roma também que ele se tornara vítima do ambiente mundano, extraviando-se do bom caminho. Entretanto, apesar da vida por vezes desregrada, seu maior passatempo aos domingos consistia em visitar as catacumbas e as relíquias dos mártires, além de ser catecúmeno, onde recebeu o batismo do Papa Libério, já com 25 anos de idade.

Depois de batizado, Jerônimo, juntamente com Bonoso, seu irmão de leite, empreendeu uma viagem de estudos à Gália. Em Treveris, onde havia uma das academias mais doutas do Ocidente, decidiu entregar-se inteiramente ao serviço de Deus. Juntamente com alguns amigos, formou uma pequena comunidade religiosa, cuja principal atividade era o estudo da Bíblia e das obras de Teologia.  Depois disso, percebendo a necessidade de um conhecimento mais profundo das Sagradas Escrituras, decidiu realizar uma viagem de estudos e pesquisa pela Grécia e cidades do Oriente Médio. Esteve vários anos no deserto da Síria, onde entregou-se a jejuns e penitências tão rigorosas, que o levaram aos limites da morte. Ali, viveu alguns anos numa profunda solidão e deserto.

Mais tarde, continuando sua caminhada, conheceu um judeu converso, com quem aprendeu a língua hebraica, a fim de poder estudar as Sagradas Escrituras em seu original e as obras de Teologia. Afirmou, em determinada ocasião, o grande santo: “As fadigas que isto me causou e os esforços que me custaram, só Deus sabe. Quantas vezes desanimei e quantas voltei atrás e tornei a começar pelo desejo de saber; sei-o eu que passei por isso, e sabem-no também os que viviam na minha companhia. Agora dou graças ao Senhor, pois que colho os saborosos frutos das raízes amargas dos estudos”.

Jerônimo tinha caráter forte e gostava de opções radicais; desejou, portanto, conhecer e praticar o rigor da vida monástica que se vivia no oriente, pátria do monaquismo. Queria fazer de sua vida uma autêntica busca o Sagrado, do transcendente. Posteriormente, dirigiu-se a Constantinopla, atraído pela fama oratória de São Gregório de Nanzianzo que lhe deu novo impulso a continuar os estudos com espírito de zelo e Amor pela exegese da Sagrada Escritura.

Estando em Antioquia da Síria, prestou serviços relevantes ao Bispo, que o quis ordenar sacerdote. Jerônimo aceitou prontamente, mas, sob a condição de não ficar sujeito a nenhuma diocese e continuar monge como antes. Tendo que optar entre sua vocação inata de escritor e o chamado à ascese monástica, encontrou uma conciliação entre estes extremos que marcaria o caminho de sua vida: seria um monge mas para quem o retiro era ocasião para uma dedicação total ao estudo, à reflexão, à férrea disciplina necessária à produção de sua obra.

As heresias se alastravam, principalmente no Oriente, e tal era a confusão que o Imperador Teodósio e o Papa São Damaso resolveram convocar um Sínodo em Roma. São Jerônimo foi convocado para dele participar e escolhido para desempenhar a função de secretário, no lugar de Santo Ambrósio, que adoecera. Terminado o Sínodo, São Damaso conservou Jerônimo como seu secretário, dando-lhe a ordem de rever o texto latino da Sagrada Escritura comparando-o com o original Hebraico, pois já tinha ciência de seus estudos e de seu notório conhecimento dos Textos Sagrados.

Esta tarefa viria a dar na tradução conhecida como VULGATA (do latim “vulgare”, que significa uso comum). Foi encarregado pelo Pontífice – São Damaso – “de responder a todas as questões que se referissem à Religião, de esclarecer as dificuldades das Igrejas Particulares [dioceses], das assembléias Sinodais, de prescrever àqueles que voltavam das heresias o que eles deveriam crer ou não, e de estabelecer, para isso, regras e fórmulas”.

Na tradução que São Jerônimo empreendeu da Bíblia, afirma Clemente VIII que ele foi assistido e inspirado pelo Espírito Santo. Tal tradução que pudesse servir de texto único e uniforme na liturgia, substituindo as traduções populares existentes as quais eram imperfeitas, inapropriadas e que criavam confusão na sua compreensão. A Vulgata foi o texto usado largamente nos séculos posteriores, tornando-se oficial no Concílio de Trento e só cedeu lugar ultimamente às novas traduções, pelo aumento de estudos lingüísticos-exegéticos dos dias atuais. Nas traduções, era interessante notar que Jerônimo revelava agudo senso crítico e um amor incontido à Palavra de Deus e às riquezas das informações sobre os tempos e lugares relativos à Bíblia.

Enquanto viveu São Damaso, Jerônimo permaneceu em Roma. Criou-se em torno de si um amplo círculo de amizades, sobretudo, das matronas da alta sociedade que o ajudavam com seus recursos para custear seus trabalhos e que ele orientava nos difíceis caminhos da santidade.

Em 384, faleceu São Damaso. Entristecido por certas intrigas no meio romano, onde seus inimigos iniciaram uma campanha de difamação, retira-se de Roma para fixar-se definitivamente em Belém, onde, vivendo como monge rigidamente penitente, continuou até a morte. Seguiram-no Santa Paula e sua filha Eudóxia. Com o rico patrimônio de que dispunham, fundaram, sob a orientação do Santo, um mosteiro masculino e um feminino, este dirigido por Santa Paula.

Os 34 anos que São Jerônimo viveu em Belém, passou-os escrevendo obras notáveis, combatendo os hereges e dirigindo, por correspondência, inúmeras almas, algumas das quais mais tarde seriam Santas. Muitas pessoas recorriam a esse grande monge.

Faleceu em 420, aos 30 de setembro, já quase octogenário.

São Jerônimo foi uma personalidade vigorosa, de inteligência extraordinária, de temperamento indomável. Suas obras são vastas, de grande interesse histórico; ele se sentia presente e engajado como escritor em todos os problemas doutrinários do seu tempo.

Boa parte da história da Bíblia conhecida atualmente se deve ao labor incansável desse Santo que não mediu esforços para trazer aos tempos atuais o que se conhece da história, cultura, política, sociedade e vida dos nossos Profetas, Reis, Discípulos, das primeiras comunidades e de nosso Senhor.

Foi declarado padroeiro dos estudos bíblicos e o “Dia da Bíblia” foi colocado exatamente no último domingo de setembro, coincidindo com a data de sua morte. Ele deixou escrito: “Cristo é o poder de Deus e a Sabedoria de Deus e quem ignora as Escrituras ignora o poder e a sabedoria de Deus; portanto ignorar as Escrituras Sagradas é ignorar a Cristo”.

Fontes:

* Edlvives, El Santo de cada dia, Ed. Luis Vivez, S.A. Saragoça, 1955, tomo V, p. 307.

* Pe. Ribadaneira, In La Leyenda de Oro, op. Cit., p. 644.

* Dom Servilho Conti, O Santo do Dia, Ed. Vozes – p. 430.

* Pe. José Leite, Santos de cada dia, editorial apostolado da oração, Braga, 1997.

* Sites: Católica Net/ Canção Nova/ CNBB.

* Revista Catolicismo (Setembro/ 2000)

Adriano Garcia

Postulante na Comunidade Católica El Shaddai

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